Opinião

Com um nim, Nikki Haley esconde um não

Nikki Haley vai dar que falar nos próximos anos. Até ao último minuto, muitas pessoas tentaram convencer o Presidente a não rasgar o Acordo de Paris. A sua embaixadora na ONU não foi com certeza uma delas.

Em Janeiro, na audiência de confirmação no Senado para a sua nomeação como embaixadora dos Estados Unidos junto da ONU, Nikki Haley conseguiu esconder o que pensava sobre o Acordo de Paris. Só quem não quis ver um não é que viu um nim.

O senador democrata Tom Udall, que se apresentou como “um fortíssimo defensor das Nações Unidas”, fez-lhe três perguntas sobre o Acordo de Paris.

— Concorda que os EUA são indispensáveis e têm de manter a liderança em relação ao Acordo de Paris de modo a garantir que os países cumprem as suas obrigações ambientais?

— As alterações climáticas devem estar sempre em cima da mesa. Mas quando olhamos para o Acordo de Paris, devemos reconhecer que não queremos fazer o que achamos que devemos fazer a expensas da nossa indústria e dos nossos empresários. Como governadora da Carolina do Sul, sei que trabalhamos imenso para atrair as empresas estrangeiras e, quando chega o momento de elas verem todas as regras e regulamentos que lhes são exigidos, começam a recuar. Não quero prejudicar a nossa economia, mas as alterações climáticas têm de estar sempre em cima da mensa e ser um dos factores sobre os quais falamos.

— Mas não quer ser a pessoa que rasga o Acordo de Paris, fazendo com que os EUA, que ajudaram a juntar todos estes países pela primeira vez numa geração, lhes virem costas.

— Queremos trabalhar nas coisas que acreditamos que beneficiam o mundo e os EUA. Mas se virmos obstáculos que estão a prejudicar as nossas empresas, diria que isso é uma coisa com a qual eu não concordo.

— Compromete-se a ser parte do Acordo de Paris, dos seus objectivos e das suas metas?

— As alterações climáticas estarão sempre em cima da mesa.

Esta é a transcrição completa das três perguntas. Não escolhi umas partes em detrimento de outras. A estratégia resultou. Quando chegou o momento de votar, os senadores deram-lhe 96 votos a favor e apenas quatro contra.

Não foi uma surpresa para ninguém. Nikki Haley defende as ideias mainstream dos republicanos em relação à política externa norte-americana e, na sua biografia, tanto democratas como republicanos, conservadores ou liberais, conseguem encontrar pontos de identificação.

Nikki Haley nunca apoiou Donald Trump nas eleições primárias (anunciou o apoio formal a Marco Rubio, o que lhe valeu um tweet simpático de Trump: “O povo da Carolina do Sul está envergonhado com Nikki Haley!”) e nas presidenciais disse que votaria em Trump, apesar de “não ser fã”. Mais tarde, quando surgiu a ordem executiva para impedir muçulmanos de entrarem nos EUA, a embaixadora foi contra, talvez por ela própria ser filha de imigrantes (nasceu em 1972 em Bamberg, na Carolina do Sul, com o nome de Nimrata Randhawa, filha de um casal sikh da Índia recém-chegado aos EUA). Do mesmo modo que em 2015, após o massacre de nove afro-americanos numa igreja metodista de Charleston, se empenhou em convencer os legisladores locais a darem menos protagonismo à bandeira da confederação no edifício do Capitólio. E no ano seguinte foi um dos 15 governadores que assinaram uma carta a Barack Obama contra o acordo nuclear com o Irão, que recebeu luz verde do Conselho de Segurança da ONU. Nada espanta no seu perfil. Nem mesmo o facto de em 2011 ter sido muito criticada por causa de uma curta viagem de diplomacia económica à Europa com empresários do seu estado na qual foram gastos 127 mil dólares em hotéis e restaurantes de luxo.

Nikki Haley é uma estrela em ascensão no Partido Republicano. Vai dar que falar nos próximos anos. Até ao último minuto, muitas pessoas à volta de Trump tentaram convencer o Presidente a não rasgar o Acordo de Paris, incluindo a filha, Ivanka Trump. Nikki Harley não terá perdido tempo com o assunto. No seu nim ficou claro que valoriza sobretudo o curto prazo.

Esta terça-feira, quando se soube que Trump ia retirar os EUA do Acordo de Paris, o secretário-geral da ONU, António Guterres, que se licenciou em Engenharia Electrotécnica, mas sabe o bê-á-bá da física, deixou um aviso: “Está provado que o vácuo existe na física. Mas na geoestratégia, não há vácuo. Isso significa que se um país decidir não estar presente — e estou a falar de países grandes como os Estados Unidos ou a China — se um país decide deixar um vazio, posso garantir que alguém o vai ocupar.” Já todos sabem que é a China. A começar por Nikki Haley.