“O FITEI nasceu assim, como nasce um rio”

À 40.ª edição, o Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica justifica que se recorde a sua história e que se perspective o futuro. Reunimos os quatros directores do FITEI na histórica Cooperativa do Povo Portuense, onde ele nasceu.

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Júlio Cardoso, Gonçalo Amorim, Mário Moutinho e António Reis Paulo Pimenta
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Símbolo histórico do festival DR

“Eu tenho saudades de um tempo que não vivi." A afirmação de Gonçalo Amorim perante os três outros directores históricos do FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica resume muito do que mudou nos 40 anos que já passaram desde a primeira edição: “Sei que esse era um tempo de grande engajamento político, e de construção de algo novo. E isso já não se vive agora; já ninguém aceita dormir em camaratas…”, acrescenta o actual director artístico do festival na sede histórica do FITEI, a Cooperativa do Povo Portuense, que desde 1978 acolhe a estrutura (também chegou a ser palco de espectáculos) deste que é o mais antigo festival da Península dedicado ao teatro de expressão ibérica e o segundo mais antigo do mundo (depois do de Mainzales, na Colômbia).

A propósito da 40.ª edição do FITEI que começa esta quinta-feira com a estreia, no palco do Teatro Nacional São João, de uma nova encenação de Macbeth, de Shakespeare, o PÚBLICO desafiou Júlio Cardoso, António Reis, Mário Moutinho e Gonçalo Amorim – que ao longo das últimas quatro décadas assumiram, exactamente por esta ordem cronológica, a direcção do festival – a desfiarem em conjunto as memórias que guardam da aventura.

Júlio Cardoso, actor e encenador com um percurso longo na história do teatro no Porto – desde o Teatro Experimental do Porto (TEP) até à Seiva Trupe, que ajudou a fundar em 1973 e onde continua a encenar –, é reconhecidamente “o inventor do FITEI”, como documentou o historiador e crítico Carlos Porto no livro em que registou os primeiros 20 anos do festival, FITEI, Pátria do Teatro de Expressão Ibérica (Porto, 1997). “Não deixa de ser curioso que uma manifestação tão fortemente dependente de um trabalho colectivo tenha nascido de um gesto e de uma situação tão individualizados, passando mesmo por percursos interiorizados de determinadas situações”, escreveu Carlos Porto.

“O FITEI nasceu assim, como nasce um rio”, recorda agora Cardoso; foi o resultado de “muitas conversas com amigos espanhóis, muitas viagens a Madrid e a Barcelona, mas também à vizinha Galiza”, e de contactos com “galeguistas, numa altura em que o uso da sua língua estava proibido”. Por outro lado, “havia a noção de que a Península estava muito de costas voltadas para a realidade da América Latina, de que só conhecíamos as ditaduras”, completa o actor, notando que a ideia de reverter este desconhecimento é inclusivamente anterior ao 25 de Abril de 1974.

E se a história do teatro no Porto regista – seguindo ainda as memórias de Carlos Porto – a ideia lançada no distante ano de 1958 por um membro do TEP, João Maia, de criar um festival anual de teatro e cinema no Porto, foi apenas em 1977, já após a Revolução dos Cravos, que o projecto do FITEI encontrou as pessoas e as condições certas para avançar.

E o seu fundador revela que, aquando das conversações para o lançamento do FITEI, chegou ao Porto “uma delegação, ao mais alto nível, da cidade basca de Vitória”, a querer dividir bienalmente o acolhimento do festival com a cidade portuguesa. “Depois de uma discussão muito demorada, e sempre com muitas dúvidas, respondemos que não”, diz Cardoso. António Reis, que integrou também o grupo dos fundadores, lembra que “os bascos teriam melhores condições do que o Porto para organizar o festival”, além de que – corrobora Cardoso –, depois “iriam surgir grupos a actuar em Vitória mas a dizer não à vinda ao Porto", o que "foi também um argumento de peso para a recusa”.

Curiosamente, nota Reis, foi da cidade basca que chegou ao Porto uma companhia que marcaria as duas primeiras edições do festival, a Denok, que em 1978 apresentou no velho Teatro António Pedro (a sala do TEP), entretanto desaparecido, Cipion y Berganza, de Cervantes, e no ano seguinte El Gran Filon, de Tomás Rodríguez Rubi, na Sala do Povo Portuense. “Foram dois espectáculos fantásticos”, lembra o actor.

Se, formalmente, a primeira direcção do FITEI se repartia equitativamente entre o TEP e a Seiva Trupe (cinco membros de cada estrutura), Júlio Cardoso recorre a um ditado popular para mostrar que além do empenhamento de João Maia, “um jornalista e animador cultural fantástico, em casa de quem o festival foi muito pensado”, a companhia histórica fundada por António Pedro pouco contribuiu na prática para o lançamento do festival. “Era assim: a bola ficava do nosso lado, e muitas vezes nós olhávamos para o lado e não tínhamos a quem passá-la."

A passagem do tempo veio, entretanto, alterar esta situação, já que, quando em 2015 assumiu a direcção do FITEI, Gonçalo Amorim firmara o seu nome na cena teatral portuense precisamente como o encenador que fizera renascer o TEP.

Outros continentes

A primeira edição do FITEI abriu a 10 de Novembro de 1978 com três espectáculos: O Zé do Telhado, de Hélder Costa, numa produção da Barraca (Teatro António Pedro); Tripontzi Jauna, uma criação colectiva dos Cómicos de la Legua, de Bilbao (Teatro do Campo Alegre); e Venezuela Erótica, de Pedro León Zapata, por outra companhia também chamada Barraca, mas vinda de Guayana, na Venezuela (Sala do Povo Portuense).

Nessa edição inaugural, o teatro da América Latina esteve também representado por uma companhia vinda do México, Naddyelli/Cleta, com Mimica del Oprimido, e outra do Chile, Teatro Lautaro, com El Ocaso del Centauro. Era a resposta prática a uma das razões que tinham levado Júlio Cardoso e outros a lançar o festival: mostrar as dramaturgias de todo um continente que nos era desconhecido nesse domínio.

De facto, nos seus primeiros anos o FITEI foi marcado pela visita das companhias latino-americanas (incluindo naturalmente o Brasil). Mostraram que “o melhor do teatro latino-americano é a sua veia surrealista ou fantástica, de exploração de símbolos, mitos e alegorias desafiadoras dos poderes, síntese das tensões políticas e sexuais, aberta pelos dramaturgos ibéricos do fim da Idade Média ao período barroco, e seguida por autores como Lorca, Valle-Inclán, Rodrigues, Boal, Buenaventura, Arrabal, Kartun, entre muitos outros”, escreve Jorge Louraço Figueira, encenador, investigador e ex-crítico do PÚBLICO, e autor da fotobiografia que assinala os 40 anos do festival, a lançar no decorrer da presente edição.

Mário Moutinho lamenta que a crise – em diferentes momentos, mas em particular nos último anos da sua direcção, no início da presente década – tenha de novo criado “um desconhecimento muito grande do teatro que se faz na América Latina”. “Conhecemos alguma coisa do Brasil” – cujo teatro assegurou cerca de 80% da edição de 2013, por via do apoio da Funarte, fundação do Governo brasileiro, aquando do Ano Brasil em Portugal, e assim colmatou a quase total ausência de apoios nacionais ao festival –, “mas há um teatro mexicano genial, excepcional, que não chega até nós, porque é muito difícil trazer”, realça, acrescentando que o maior lamento dos anos em que dirigiu o FITEI foi não ter conseguido os meios para colmatar esta falha.

Curioso é também ver como o teatro lusófono de África foi chegando ao festival. A primeira companhia a apresentar-se no Porto foi o Grupo Amadores de Teatro Instrumentistas Tradicionais da Marimba Hungo e Kisanji, de Angola, em 1980. E Moçambique começou por enviar um observador. “Mas Angola, no início, só trazia grupos de dança, de tal modo que, a certa altura, tivemos de os proibir, teriam de vir só com teatro”, diz António Reis, considerando que, no entanto, este país “nunca conseguiu atingir um plano de destaque a nível teatral, ao contrário do que viria a acontecer com Moçambique".

Nesses primeiros anos do FITEI, nas décadas de 70/80, além das questões meramente logísticas – transportes, alojamento, alimentação... –, a organização teve de resolver situações inesperadas, como a sobrelotação das salas, ou a multiplicação dos membros das companhias sul-americanas que aproveitavam o festival para virem ver a Revolução. “Havia grupos que sabíamos que tinham seis pessoas em palco, e quando chegavam ao aeroporto eram 20; e depois não queriam ir embora”, recorda Júlio Cardoso, acrescentando que foram também situações como esta que o fatigaram de tal modo que, em 1988, decidiu passar a pasta a António Reis.

Às vezes, os problemas eram de outra ordem, como quando tiveram de chamar a polícia para proteger a Cooperativa do Povo Portuense de ameaças de assalto, ou investigar actos de vandalismo na carrinha “pão-de-forma” da Seiva Trupe. “Eram acções da extrema-direita, que nos fizeram passar momentos difíceis”, diz Reis.

Uma Escola FITEI?

Gonçalo Amorim ouve estes relatos com inegável atenção e curiosidade. “Eu tenho memória dos primeiros anos, enquanto espectador, principalmente dos espectáculos de rua”, diz o actual director artístico, que não sabe precisar qual foi a primeira peça que viu no festival.

Para o programa deste ano, Amorim criou uma secção a que chamou “Isto não é uma escola FITEI”, que engloba várias acções de formação e reflexão crítica abertas à comunidade, e paralelas aos espectáculos. É a sua forma algo irónica de reconhecer que “o FITEI é verdadeiramente uma escola antiga, na forma como interfere politicamente na vida cultural da cidade”. E nota que, no domínio das artes do palco, se não fosse este festival – ao lado de outros como o Festival Internacional de Marionetas do Porto, o consulado de Isabel Alves Costa no Teatro Rivoli ou Ricardo Pais no São João, com o PoNTI –, “o Porto não teria tido programação internacional na maior parte dos 40 e tal anos que temos de democracia e liberdade”.

Do passado para o futuro, no texto que fez para a fotobiografia dos 40 anos, Júlio Cardoso deixa o repto para os actuais responsáveis do festival: a concretização do projecto de uma sede própria e a criação de um Centro Mundial da Cultura de Expressão Ibérica. “Temos casa, projecto arquitectónico, pelo que basicamente a principal parte já existe”, escreve o encenador, a pensar já nas bodas de ouro. A casa diz respeito ao terreno que o FITEI possui na Rua do Campo Alegre, e que chegou a acolher espectáculos das primeiras edições; o projecto foi desenhado pelo já desaparecido arquitecto Filipe Oliveira Dias (1963-2014).

Gonçalo Amorim entende o desafio do fundador histórico como a sequência da “força que edificou o FITEI”. “Ele sonha alto, com ambição, sempre a pensar à frente”, acrescenta. Mas nota que o festival “tem vários desafios e fogos para apagar”: reestruturar a equipa; repensar a relação com uma cidade que entretanto se tornou um forte destino turístico, com as consequências que isso tem no aumento de custos mas também na diversificação dos públicos; retomar a ponte com as dramaturgias sempre muito engajadas e politizadas da América Latina; mas também atender ao “assinalável surto da dramaturgia portuguesa da última década”.

Enfim, um rio que se espera continue a correr.

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