Joana Gorjão Henriques na FLIP em que as mulheres estão em maioria

A jornalista do PÚBLICO, autora do livro Racismo em Português — O Lado Esquecido do Colonialismo , junta-se a Frederico Lourenço, Djaimilia Pereira de Almeida, Pilar del Río e Luaty Beirão na edição que homenageia o escritor Lima Barreto.

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Ricardo Maneira
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Joselia Aguiar, a nova curadora da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), conseguiu responder a algumas das críticas mais apontadas àquele que é o mais importante festival literário brasileiro. Pela primeira vez, o programa terá um número de autoras mulheres superior ao de homens e a participação de autores negros estende-se a 30% de toda a programação divulgada esta terça-feira em conferência de imprensa.

“Além de a programação incluir mais mulheres, muitas mesas estão pensadas a partir do ponto de vista feminino”, disse Joselia Aguiar durante a conferência de imprensa que foi sendo dada a conhecer através da conta oficial de Twitter do festival literário. A curadora espera que “o aumento de autoras e autores negros no programa seja um ponto de virada e que a FLIP possa influenciar não apenas outras programações literárias do país, mas o próprio mercado editorial, ajudando a torná-lo mais diverso”.

Nesta edição da FLIP, que tem Lima Barreto (1881-1922) como autor homenageado, a pluralidade de géneros em que este autor brasileiro exerceu o seu ofício — desde a reportagem ao romance, da crónica à memória e ao diário — e as questões que atravessaram a sua obra — como a étnico-racial, a do artista como militante e a da etnografia da cidade estão presentes em toda a programação, em que participam 46 autores (22 homens e 24 mulheres).  

Joana Gorjão Henriques, jornalista do PÚBLICO e autora do livro Racismo em Português — O Lado Esquecido do Colonialismo (com edição em Portugal da Tinta-da-China, do PÚBLICO e da Fundação Manuel dos Santos), é uma das convidadas da 15.ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, que se realiza no Brasil de 26 a 30 de Julho. O seu livro, que resultou de uma série de reportagens à qual foi atribuído o prémio AMI – Jornalismo Contra a Indiferença, vai ser editado pela Tinta-da-China Brasil.

Será ao lado do actor brasileiro Lázaro Ramos, que ganhou protagonismo no filme Madame Satã, de Karim Aïnouz, onde interpretava a famosa drag queen carioca, e é autor de vários livros de literatura infantil, que a jornalista portuguesa participará na mesa intitulada “A pele que habito”, sexta-feira, 28 de Julho, às 10h.

As identidades e as relações raciais nos países da lusofonia são o principal tema da conversa que parte da trajectória artística de Lázaro Ramos, que lançará na FLIP o livro Na Minha Pele, editado pela Objetiva, sobre o seu desejo de viver num mundo em que a pluralidade cultural, racial, étnica e social seja vista como um valor positivo e não como uma ameaça. Não é uma biografia, mas nele aborda a sua carreira como actor negro no Brasil, tendo interpretado personagens em que a questão social e racial está presente como Zumbi dos Palmares (1996) com o Bando de Teatro Olodum, Madame Satã (2002) ou Martin Luther King, na peça O Topo da Montanha, da nova-iorquina Katori Hall, que protagoniza ao lado da actriz Tais Araújo, sua mulher na vida real.

A conversa em palco irá cruzar-se com a experiência da jornalista portuguesa e as histórias das cinco reportagens que fez em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe realizadas em 2015 para ouvir o lado africano sobre as marcas do racismo deixadas pelo colonialismo português e para tentar encontrar respostas à pergunta: “Racismo em português: como foi, como é?”

Lázaro Ramos também participará na sessão de abertura do festival literário, “Lima Barreto: triste visionário”, título da biografia que será editada pela historiadora Lilia Schwarcz e que nela trabalhou durante uma década. A académica dará uma aula ilustrada onde o actor lerá excertos da obra do autor de Triste fim de Policarpo Quaresma, num espectáculo dirigido pelo encenador Felipe Hirsch.

No dia anterior, quinta-feira, 27 de Julho, será a vez de outro português estar no palco da FLIP, Frederico Lourenço, Prémio Pessoa 2016, a que se junta também o tradutor de latim e grego, Guilherme Gontijo, para falar sobre a tradição greco-latina, os seus mitos, poesia e narrativas, a Bíblia grega, a literatura e a cultura medieval.  

Também a autora de Esse Cabelo (que será publicado no Brasil pela Leya), Djaimilia Pereira de Almeida, nascida em Luanda, em 1982, mas que vive em Portugal desde a infância onde é investigadora da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, conversará com outras vozes da novíssima literatura em língua portuguesa, Carol Rodrigues e Natalia Borges Polesso, sobre como lidam com a tradição e a renovam.  

Pilar del Río, a presidente da Fundação Saramago, estará à frente da Casa Amado e Saramago, que terá uma programação própria paralela ao festival, mas é também uma das convidadas da programação principal. Também o rapper e activista angolano Luaty Beirão, cujo diário de prisão Sou eu então mais Livre, escrito durante o tempo em que esteve detido, em Angola, de Junho de 2015 a Junho de 2016, vai ser publicado pela Tinta-da-China Brasil, estará no palco principal a conversar com Maria Valéria Rezende, escritora que se dedicou à educação popular no sertão durante a ditadura.

Haverá ainda um encontro inédito entre o jamaicano Marlon James e o americano Paul Beatty, dois autores negros que venceram, em dois anos consecutivos (2015 e 2016), o Man Booker Prize, bem como a presença do repórter da New Yorker  William Finnegan, que cobriu conflitos em África e acaba de vencer o Pulitzer com as suas memórias dos tempos de surfista; da argentina Leila Guerriero, um dos grandes nomes do jornalismo narrativo na América Latina, e do francês Patrick Deville, escritor-viajante que, entre o Camboja e o México, pratica aquilo a que chama “romance de não ficção”, da escritora tutsi Scholastique Mukasonga e do romancista islandês Sjón (parceiro de trabalho de Björk).

Por razões de orçamento, o palco da programação principal da Festa Literária Internacional de Paraty deixará de ser na Tenda do Autores, que tinha 750 lugares sentados para quem comprasse bilhete, e passará a realizar-se na Igreja da Matriz, que albergará 450 lugares. Toda a programação decorrerá à volta da Praça da Matriz, requalificada em 2012, e aí também será instalada a Tenda do Telão, onde é possível assistir gratuitamente às mesas que decorrem no palco principal através de um ecrã gigante.