António Martinho Baptista deixa a direcção do parque arqueológico do Côa

Chegou ao Côa para estudar gravuras rupestres em 1982, esteve entre os que tudo fizeram para que fosse património mundial e ficou. Vinte e dois anos. Quarta-feira é o seu último dia como “empregado” do parque. A altura em que sai não é fácil.

António Martinho Baptista fotografado no Museu do Côa, em Agosto do ano passado
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António Martinho Baptista fotografado no Museu do Côa, em Agosto do ano passado Paulo Pimenta

Aos 67 anos, feitos na semana passada, António Martinho Baptista achou que chegara a hora de pôr fim à sua ligação institucional ao Parque Arqueológico do Côa, de que é director desde 2012. A próxima quarta-feira é o seu último dia de trabalho naquela estrutura a que chegou antes mesmo de ela nascer. “Eu não vou deixar o Côa, vou é reformar-me e deixar de ser empregado do Côa”, diz ao PÚBLICO este arqueólogo que conhece o património rupestre deste vale que começou a estudar no começo da década de 1980 como ninguém.

Atingida a idade da reforma, e depois de 22 anos de intenso trabalho para salvaguardar e promover o património deste parque criado em 1996, elevado a património mundial dois anos depois, Martinho Baptista prepara-se para regressar a Braga e ao estudo do complexo de arte rupestre do Gião, em Arcos de Valdevez, um sítio arqueológico com gravuras bem mais recentes do que as do Côa (têm entre três a cinco mil anos). “É um sítio de arte esquemática, muito diferente da que vemos no Côa que é sublime e está acima de tudo o que há em Portugal. Não temos nada cá que se lhe compare.”

No Côa, garante, não é só a antiguidade das gravuras que impressiona (as mais recuadas têm 25/26 mil anos), é a sua “qualidade artística”. “Não saio porque esteja cansado – não é possível cansar-me do Côa – mas porque o meu tempo aqui chegou ao fim, porque acredito que as pessoas não devem eternizar-se nos cargos. E, claro, porque sei que vou continuar a estar ligado ao parque sempre que o parque precise de mim.”

António Martinho Baptista deixa o Côa numa altura em que tem sido notícia e não pelas melhores razões. A vandalização de uma das suas gravuras mais icónicas, com dez mil anos, conhecida como o “Homem de Piscos”, levantou um coro de críticas em relação à forma como aquele património tem vindo a ser gerido, nomeadamente no que à vigilância diz respeito. A esta questão da segurança junta-se a escolha, ainda não formalizada em Diário da República, do futuro presidente da Fundação Côa Parque, que gere o parque e o museu que funciona como o seu grande centro de interpretação, inaugurado em 2010.

O historiador Bruno Navarro deverá assumir o cargo, mas o seu nome está longe de ser consensual: a Associação de Amigos do Parque e Museu do Côa defendeu que o Governo deve lançar um concurso, evitando a “lógica perversa” das escolhas partidárias, e a Associação dos Arqueólogos Portugueses emitiu um comunicado em que fazia saber que lamentava a nomeação para a presidência da Côa Parque "de pessoa sem evidentes qualificações para o efeito, seja na área da gestão seja nas áreas patrimonial ou arqueológica”.

Martinho Baptista parece ser um optimista moderado. Recusando-se a comentar a nomeação de Navarro – “não vou falar de uma administração que não conheço” —, o director do parque e do museu do Côa acredita que ainda se vai a tempo de “recuperar dinamismo” e “acelerar”.

Reconhecendo que “tem havido um grande desinvestimento e até um apagamento da administração central em relação ao Côa”, este arqueólogo continua a defender o modelo da fundação para assegurar a gestão, alertando, no entanto, que esta tem de ser feita noutros moldes: “O senhor ministro [Luís Filipe Castro Mendes] já disse que quer dar um impulso à fundação e ao Côa e isso é bom. Agora esse impulso tem de passar pela abertura à comunidade científica internacional.” A presença das universidades no novo conselho de administração é, garante, um bom sinal.

“Até aqui a fundação nunca agarrou este projecto, geriu o Côa como quem gere uma repartição das Finanças ou um serviço da Segurança Social. Isto não é um serviço. Com a ciência [universidades] sentada no conselho de administração da fundação eu tenho esperança que o Côa passe a ter a alma que eu tentei dar-lhe e se transforme num campo aberto de investigação.” Uma investigação que, defende, se deve alargar a outras áreas, não se ficando apenas pelo paleolítico superior. O projecto que o parque tem neste momento em curso já vai nesse sentido – quer mostrar que a ocupação humana no vale é anterior às gravuras mais antigas que nele foram identificadas.

Não foi ainda anunciado um substituto para António Martinho Baptista. Contactado pelo PÚBLICO o gabinete do ministro da Cultura fez saber através de uma das suas assessoras que “a escolha e nomeação do director do parque do vale do Côa e do museu são da competência do conselho de administração da fundação”, que viu os seus novos estatutos aprovados em Conselho de Ministros a 6 de Abril. “Este decreto-lei encontra-se em tramitação para posterior publicação em Diário da República. Entrará em vigor cinco dias após a publicação, momento em que será nomeado o novo conselho directivo da fundação.”

Luís Filipe Castro Mendes estará no Parlamento já na próxima semana (6 de Junho) para falar da situação no Côa.