Défice excessivo por falta de vergonha estrutural

Num país fofinho, cheio de afetos, começou a procissão de saber quem fez mais pela saída do défice excessivo a que os regedores tinham condenado Portugal.

Houve um tempo (aliás recente) em que uns tantos cavalheiros e umas tantas damas do alto do poder diabolizaram a vida dos portugueses semeando pobreza e tornando os ricos mais ricos. Prometeram que a vida nunca mais seria como dantes e que as populações tinham vivido acima das possibilidades e deveriam pagar no purgatório terrestre a desgraça de não se saberem governar.

Antes da chegada destas damas e destes cavalheiros ao poder, as cidades, as vilas e até aldeias estavam cheias de televisões, painéis a convidar os portugueses a gastarem o mês que ainda não tinham recebido e a pagarem em “éne” prestações o último eletrodoméstico, o telemóvel e as férias nas Caraíbas. Foram muitos os que confiaram nos paraísos anunciados.

Nesse tempo “rigoroso” para os portugueses, todos os dias Passos, Portas, Maria Luís, Cristas e seus camaradas magicavam no que tinham de fazer para castigar os estouvados que, com menos de 500 euros mensais, rebentaram com a economia portuguesa... quiçá em gajas e copos.

Eram feitos cortes brutais na saúde, na educação, na justiça e inventaram-se impostos que incidiam sobre os rendimentos dos “pecadores” que se atreveram a ir no canto das sereias do sistema financeiro indígena e mundial. O que fazia falta era desanimar a malta e empobrecer e de certo modo conseguiram fazer esmorecer o ânimo dos portugueses. Que o digam as depressões que se instalaram.

Vieram eleições (sim, eleições) e quem se esquece de Passos, Portas e Cavaco a maldizerem o Parlamento por escolher a solução do acordo à esquerda? Foram tempos de despautério, pois Cavaco sabia que Passos não formaria Governo, mas indigitou-o.

Ao lado destes músicos da desgraça alinharam comentadores e mais comentadores e um conjunto de tocadores de marchas funerárias a dizer que vinha aí o diabo e nunca por nunca a “gerigonça” seria solução. O último argumento — Bruxelas não deixaria.

Meu deus! O que foram fazer os portugueses. Todos os dias eram dias de desgraça. Abençoados pelo Sr. Schäuble e por um tal Sr. holandês (copiador de teses alheias), aqui na terra lusitana cada dia era um dia de ofensa aos donos disto tudo e contra os quais nada se poderia fazer porque estava escrito “amarás o teu Deus (o mercado) e só a ele obedecerás”…

Ai jesus! Passos continuava de pin ao peito a visitar unidades económicas como se estivéssemos num intervalo de uma sessão de cinema e viesse a segunda parte do empobrecimento e ele continuasse a ser primeiro-ministro.

Ralhava — sim, ralhava — todos os dias por se desmantelar as reformas que tanto custaram a fazer. Todos os dias ralhava, ele e a própria Cristas, contra o que se passava na TAP, nos transportes, na educação, na justiça (contra o mapa judiciário), na economia e por aí diante. E anunciava tristeza pela CGTP não fazer manifestações, ficando por explicar por que razão as não fazia o PSD.

Sempre com ar de zangado pelos disparates do “despesista Costa”, “refém das esquerdas radicais”, Passos anunciava tremendas tempestades e chegou a vaticinar a vinda do Além do chavelhudo por ocasião do inverno. Que medo. O capitão Passos não desarmou e até hoje continua a cantar a canção “ó tempo volta para trás” de Tony de Matos. Não tendo o chavelhudo obtido licença para sair do inferno, veio de Bruxelas o levantamento das sanções por défice excessivo (também há regedores na UE) e de repente parece que tudo mudou.

Num país fofinho, cheio de afetos, começou a procissão de saber quem fez mais pela saída do défice excessivo a que os regedores tinham condenado Portugal. E no país onde é tudo boa gente, o senhor Presidente felicitou este Governo e o outro, sendo que este Governo foi empossado pelas esquerdas para fazer o oposto do outro que, entretanto, passou todo este tempo a apontar o caminho da desgraça pelo Governo de Costa estar a desmantelar o que Passos tinha feito.

Passos, com aquela cara de cinco tostões mal ganhos (não lhe sai da cabeça o empobrecimento competitivo), face ao fim do défice excessivo veio declarar que sim senhor, mas vendo bem as coisas não senhor, porque este desfez o que o outro fez e isso vai pagar-se. Faz lembrar a estória do lobo que comeu a ovelha.

O CDS congratulou-se, mas, há sempre um mas, é preciso continuar as reformas… ok. Quais? Aquelas contra os quais foi empossado este Governo. Mas nem Álvaro Santos nem Maria Luís se importam com a vontade popular. O que conta são os mercados. Porém, nunca foram, nem vão a votos! Olha a lata, pedir aos mercados que respeitem a vontade dos humanos. Isso é o mesmo que pedir aos jihadistas que abdiquem da sharia. Só a vontade dos deuses conta. Só os grandes sacerdotes sabem o que os novos deuses querem e exigem aos pobres mortais.  

Algo se passa no país lusitano: excesso de défice por falta de vergonha estrutural.   

O autor escreve segundo as normas do novo Acordo Ortográfico