Opinião

Casa arrumada, trancas à porta

Se os pesos e contrapesos da democracia americana não funcionarem rapidamente, resta-nos a desordem mundial encarnada pelo actual Presidente. Por isso, mesmo com a casa arrumada, trancas à porta.

A semana que passou foi marcada, sobretudo, pelo atentado terrorista em Manchester e a primeira viagem internacional de Trump, iniciada festivamente na Arábia Saudita. Ou seja, no país que funciona como inspirador ideológico e sustentáculo financeiro do radicalismo muçulmano sunita, em guerra santa contra os irmãos inimigos xiitas encabeçados pelo Irão (onde o candidato presidencial mais moderado e aberto ao exterior ganhou há dias as eleições contra o representante dos ultraconservadores).

Entretanto, vimos Portugal arrumar a casa – apesar dos engulhos da oposição – com a saída do Procedimento por Défice Excessivo, o que proporcionou ao inefável Schauble a mesquinha ironia de comparar Centeno com Ronaldo. Aliás, por causa de Schauble e do seu duelo com o FMI, a Grécia continua refém de um fardo financeiro insuportável e de uma dívida impagável (espectro que igualmente nos persegue, embora de forma menos asfixiante, apesar dos sinais estimulantes da nossa economia). A esperança de um novo horizonte para a (re)construção europeia, estimulada pela eleição de Macron em França, parece assim suspensa de demasiadas incógnitas, em especial das próximas legislativas na Alemanha – em que Merkel aparece já como clara favorita contra o social-democrata Schulz e tendo em pano de fundo a castigadora sombra de Schauble.

Em Manchester, um jovem britânico de origem líbia foi o bombista suicida do atentado contra crianças e adolescentes classificados de «cruzados» pelo Daesh. Mais uma «tragédia europeia», como a qualificou o Le Monde, o que não deixa de constituir uma trágica ironia nestes tempos de campanha eleitoral em que a primeira-ministra Theresa May pretende precisamente consagrar a saída da Grã-Bretanha da União Europeia. Mas para tornar o cenário ainda mais bizarro, o líder trabalhista Jeremy Corbyn não hesitou em encontrar álibis para o acto de barbárie contra os jovens «cruzados» britânicos, invocando as guerras em que o Reino Unido se envolveu no Médio Oriente. Ora, a provar que as sentenças mais repulsivas não caem em saco roto (vide Trump), Corbyn já parece ter recuperado parcialmente da sua abissal desvantagem eleitoral em relação a May. O ensimesmamento britânico não se ficou pelo Brexit.

Mas faltava mesmo Trump – crescentemente perseguido pelas suspeitas de cumplicidade com a Rússia de Putin, que ele tenta disfarçar com uma subtileza de elefante em loja de porcelanas – para carregar ainda mais nas tintas. Não por acaso, foi na Arábia Saudita que apelou ao combate ao terrorismo como se os seus anfitriões não fossem, precisamente, protagonistas de uma das correntes incentivadoras do extremismo islâmico sunita (e de que o Daesh é o braço armado mais radical).

O perigo maior, segundo Trump, vem do xiismo de inspiração iraniana, apesar dos sinais de moderação transmitidos pelo reeleito Presidente Rohani, quase um modelo de democracia por comparação com o autoritarismo feudal saudita. Eis assim Trump no seu papel favorito de incendiário das tensões e agente do caos. No fim da sua viagem à Europa e em reunião do G7, empenhou-se em crispar as relações com os aliados e rasgar a agenda tão arduamente negociada sobre as alterações climáticas.

A pretexto das divergências sobre o financiamento da NATO – em que lhe assiste, reconheça-se, alguma razão – foi o próprio princípio de solidariedade entre os membros da Aliança que Trump fez questão de varrer para debaixo do tapete. Ele vê o mundo como uma abstracção, em que apenas conta a América do contrabando negocial e das alianças subterrâneas (ou nem tanto…) com parceiros impróprios para um convívio civilizado. Se os pesos e contrapesos da democracia americana não funcionarem rapidamente, resta-nos a desordem mundial encarnada pelo actual Presidente. Por isso, mesmo com a casa arrumada, trancas à porta.