Opinião

Fátima, contextos e história(s) (II)

"A mais profética das aparições" foi, afinal, contada ao sabor do tempo e do que se pedia a uma das videntes que tivesse visto.

Sobre Fátima, já o percebemos, tem-se assistido nos últimos anos a um duplo discurso que parece resultar de uma evolução da postura da Igreja Católica sobre a questão mas que, de facto, procurar satisfazer duas estratégias diferentes. Por um lado, a Igreja nunca poderia abandonar, sob pena de trair cem anos de encenação simbólica, o discurso tradicional de Fátima, "a mais profética das aparições modernas" (cardeal Bertone), com o qual alimentou o mais significativo dos filões de mobilização católica. Por outro, um mínimo de aggiornamento pós-conciliar, mais Paulo VI e Francisco que João Paulo II, obriga o Vaticano e uma parte da hierarquia portuguesa a reler Fátima como um conjunto de "visões místicas" que compete tanto à Psicologia quanto à Teologia interpretar (D. Carlos Azevedo, PÚBLICO, 21.04.2017).

Tendo aceitado Fátima como um marco maior do catolicismo, a hierarquia da Igreja não podia confiar simplesmente o enunciado da mensagem da Virgem a três crianças — uma única das quais sobrevive à epidemia da pneumónica de 1918. Já vimos como da reciclagem da narrativa de 1917 surgiu a politização anticomunista de Fátima em 1941, com a referência à Rússia como fonte de todos os males. Nunca é demais sublinhar que tal se faz no arranque da guerra nazi contra a União Soviética, descrita por Hitler como uma “cruzada anti-bolchevista”, e a propósito de umas "aparições" que ocorrem meses antes da própria revolução russa. Neste processo, a Igreja desinteressou-se durante muito tempo do "3.º segredo", formulado por Lúcia (sempre a pedido do bispo de Leiria) em janeiro de 1944.

Mas, afinal, o que disse Lúcia que lhe terá contado a Virgem? É a história de "um bispo vestido de branco", que lhe insinua ser "o Santo Padre”, que sobe "uma escabrosa montanha" atravessando "uma grande cidade meia em ruínas" enquanto "ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho", sendo "morto por um grupo de soldados". Só em 2000 é que o Vaticano decide assumir abertamente a leitura de Karol Woytyla do texto de 1944, que, contudo, já vinha sendo alimentada havia anos: era, afinal, dele, apunhalado na Praça de São Pedro em 1981, que a Virgem teria falado 64 anos antes a três pastores na Cova da Iria.

Como terá chegado Lúcia a esta imagem? Há anos, Ratzinger, enquanto Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, achou que se trataria de imagens que "Lúcia pode ter visto em livros de piedade e cujo conteúdo deriva de antigas intuições de fé" o que já é um avanço relativamente à tese tradicional da "revelação profética" e "milagrosa". Mas tentemos perceber que imagens (porque sobretudo disso se trata) terão impressionado Lúcia no momento em que lhe pedem que enuncie o "segredo". O que podia “ver” do mundo uma freira de clausura, fechada em conventos galegos havia 19 anos? Que teria ela visto do Papa nos meses anteriores? Ora justamente cinco meses antes, a 19 de julho de 1943, horas depois de um bombardeamento americano sobre a cidade de Roma que provocara três mil mortos, Pio XII visitou, excecionalmente em tempo de guerra, o bairro de San Lorenzo. Clamara contra o bombardeamento da "Cidade Eterna" como nunca o fizera nos quatro anos anteriores quando os nazis haviam arrasado Varsóvia, Roterdão, Londres, Belgrado, Leninegrado... Toda a imprensa católica — a única que entraria num convento como aquele em que estava Lúcia — se enchera destes protestos e, sobretudo, das imagens do Papa, abençoando feridos e mortos, evidentemente rodeado de muita gente desesperada que lhe pede ajuda, de muitos polícias e militares. Imagens destas seriam gravadas em foto uma única vez durante a guerra. E assemelham-se muito à "visão" que Lúcia garante ter sido a de 1917...

"A mais profética das aparições" foi, afinal, contada ao sabor do tempo e do que se pedia a uma das videntes que tivesse visto. É o que é — mais tudo quanto a Igreja quis que fosse. Dois dos videntes foram já santificados; falta apenas Lúcia. No fim de contas, esta é que parece ser a mensagem definitiva que a Igreja quer transmitir aos crentes sobre como interpretar Fátima.

O autor escreve segundo as normas do novo Acordo Ortográfico