Bola de neve Rússia-Trump chega à Casa Branca e apanha genro do Presidente

Embaixador da Rússia terá dito que Jared Kuchner queria falar com Moscovo secretamente para escapar à vigilância norte-americana. Genro do Presidente não é suspeito, mas pasosu a ser "pessoa de interesse".

Foto

A bola de neve que é a suspeita de ligação entre a campanha de Donald Trump e a Rússia cresceu mais um pouco nas últimas horas, e desta vez arrastou montanha abaixo o genro do Presidente. Numa decisão que nem os próprios investigadores norte-americanos conseguem compreender, Jared Kuchner terá pedido ao embaixador russo em Washington para abrir um canal de comunicação secreto com Moscovo, com a ideia de escapar aos olhos e aos ouvidos das agências de serviços secretos dos Estados Unidos.

A conversa entre Jared Kuchner e Sergei Kisliak aconteceu em Dezembro do ano passado, na Trump Tower, em Manhattan, segundo o jornal Washington Post. Nessa altura, Donald Trump e a sua equipa estavam a preparar a transição para a Casa Branca, depois de terem vencido as eleições presidenciais no dia 8 de Novembro.

Até agora, pensava-se que essa reunião de Dezembro entre a equipa de Trump e o embaixador russo tinha contado apenas com a presença de Michael Flynn – o general que nessa altura já sabia que iria ser conselheiro de Segurança Nacional da Administração Trump, e que foi forçado a demitir-se em Fevereiro precisamente por causa das reuniões que teve com Sergei Kisliak no ano passado.

Essa informação já tinha sido avançada pela agência Reuters, mas o Washington Post noticiou agora que no encontro esteve presente o genro de Donald Trump, um dos responsáveis pela transição para a Casa Branca e um dos conselheiros mais próximos do actual Presidente norte-americano.

De acordo com o jornal, Kuchner disse a Kisliak que queria continuar a falar com Moscovo por causa de temas como a luta contra o terrorismo e a situação na Síria, mas que para isso seria necessário contar com a ajuda dos russos – na prática, Kuchner queria que os russos abrissem as portas das suas instalações na embaixada e que deixassem a equipa de Trump negociar com o Governo russo através dos sistemas de comunicação mais seguros que a Rússia tem.

Por obrigação, e também por considerar que seria perigoso deixar um americano entrar e sair da embaixada e usar tecnologia russa, o embaixador Kisliak informou os seus superiores sobre o pedido do genro de Donald Trump – e terá sido essa comunicação que foi interceptada pelos serviços secretos norte-americanos. Um dos responsáveis ouvidos pelo Washington Post disse que, para além de suspeito, o pedido de Kuchner foi também ingénuo, porque as movimentações na embaixada russa e as comunicações que envolvem responsáveis russos estão sob permanente vigilância dos serviços secretos norte-americanos, e vice-versa.

A intenção de Kuchner seria tentar escapar a essa vigilância, para impedir que as conversas com os russos acabassem por ser divulgadas – a ser verdade, a equipa de Trump teria mais confiança no secretismo de Moscovo do que no de Washington.

Jared Kuchner é o responsável mais próximo de Donald Trump a ser envolvido na investigação sobre a ingerência da Rússia nas eleições do ano passado nos Estados Unidos, com a possível colaboração de membros da campanha do então candidato do Partido Republicano. Nem Trump nem Kuchner são considerados suspeitos nas investigações da Câmara dos Representantes, do Senado e do FBI, mas o genro do Presidente é uma "pessoa de interesse". A comissão do Senado que está a investigar o caso (que é liderada por um membro do Partido Republicano) pediu à equipa da campanha de Donald Trump que entregue todos os documentos, emails e chamadas telefónicas em que participaram cidadãos russos desde Junho de 2015 – o mês em que Donald Trump anunciou oficialmente a candidatura à Casa Branca.

Pouco depois de o Washington Post ter noticiado que Kuchner se reuniu com o embaixador russo em Dezembro, a agência Reuters avançou que o genro de Trump falou pelo menos outras três vezes com Sergei Kisliak – duas delas entre Abril e Novembro do ano passado, antes das eleições. Nenhum desses contactos foi divulgado pela Casa Branca antes de ter sido noticiado – o mesmo aconteceu com contactos que envolveram o embaixador russo em Washington, o general Michael Flynn e o actual procurador-geral, Jeff Sessions. Flynn demitiu-se depois de se ter descoberto que mentiu ao vice-presidedente sobre o conteúdo das conversas com Kisliak, e Sessions afastou-se voluntariamente da investigação do FBI à ingerência russa depois de se ter sabido que falou com Kisliak no ano passado e não o revelou ao Senado durante o seu processo de nomeação.

O genro do Presidente teve também uma outra reunião na Trump Tower, em Dezembro, com Sergei Nikolaevich Gorkov, líder do banco estatal russo Vnesheconombank e próximo de Vladimir Putin. Gorkov é um antigo agente dos serviços secretos russos e o banco que gere actualmente está abrangido pelas sanções impostas pelo Presidente Barack Obama após a anexação da península da Crimeia pela Rússia. A agência Reuters avança que o FBI está a tentar saber se algum dos responsáveis russos que falaram com a campanha de Donald Trump sugeriram que um abrandamento daquelas sanções facilitaria o financiamento por parte de bancos russos a pessoas com ligações a Trump.