Para não esquecer Cannes

Não abalaram o mundo, mas mostraram os abalos do mundo. A nossa forma de vida. Em cenário de perda, inquietaram a memória colectiva. Cantaram. Com estes filmes vamos lembrar-nos da 70.ª edição do festival.

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120 battements par minute dr
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Happy End dr
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Fábrica de Nada dr
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Good Time dr

Western
Valeska Grisebach

Un Certain Regard

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Western dr

Violência, preconceito, rivalidade, instinto de dominação, desejo de reconhecimento: numa aldeia búlgara para onde foram destacados, os operários alemães de um estaleiro, homens tensos que parecem esculpidos na rocha como nos Westerns, participam do teatro do mundo. O delicado filme da alemã Valeska Grisebach encontra nos corpos, nos gestos, na sua tensão e melancolia, as nossas histórias de negociação com o mundo – muito antigas, essenciais.

120 Battements par Minute
Robin Campillo

Competição

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É um filme sobre os anos 90 das lutas do Act Up de Paris, ramo da organização internacional de luta contra a sida. Quando, depois do silêncio dos anos 80 que amarrou vítimas, familiares e amigos a uma epidemia, as palavras jorraram, e o activismo forjou-se de forma visceral, eufórica e trágica. É um filme sobre gente que quis controlar a sua história e para isso fez política na primeira pessoa. É um filme comovido sobre a memória de um tempo. É um filme sobre hoje: em momento de crise social, política e moral, de desaparecimento das causas, faz da perda e da dúvida propostas incandescentes de inquietação para um colectivo.

Fábrica de Nada
Pedro Pinho

Quinzena dos Realizadores

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Fábrica de Nada dr

Há uma fábrica de elevadores na falência, decorrem as negociações para os despedimentos. Não há redenção à vista. Fábrica de nada: proposta de pensamento e agitação, agora que não se consegue ler o mundo. Grande filme instável, entre o ensaio e o musical, tanto monta debate sobre o património ideológico do século XX como estimula os intérpretes “a fazer como nos filmes”, a cantar e dançar. Não estabiliza, o que o torna angustiante. Está sempre a questionar (-se), a dar e a tirar, a acreditar e a destruir. Mas depois inventa, com várias estocadas, a sua forma de autogestão.

Happy End

Michael Haneke

Competição

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O essencial, no novo filme do cineasta austríaco já duas vezes premiado com a Palma de Ouro, é a aventura subterrânea e inquietante pela solidão, pelo egoísmo, pela falta de empatia. Com uma subtileza que talvez tenha derrotado os que esperavam “filme choque”. Happy End fala do mundo falando de “nós”, e “nós” é uma família europeia burguesa. Um filme coral – Jean-Louis Trintignant, Isabelle Huppert, Mathieu Kassovitz e outros - em que não pode haver grupo. A nossa maneira de viver.

Good Time
De Josh e Ben Safdie

Competição

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Ascensão à competição de dois irmãos revelados na Quinzena dos Realizadores com The Pleasure of Being Robbed, 2008, e Vão-me Buscar Alecrim, 2009. Uma noite no submundo nova-iorquino, um assalto que corre mal, um criminoso ofegante para tirar o irmão da prisão. A expressividade fantasista do caos no cinema dos Safdie. E uma surpresa que vai dar que falar: o inglês Robert Pattinson a “desaparecer” na personagem de um criminoso americano.

The Day After
Hong Sang-Soo

Competição

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As mulheres da vida e as mulheres que (não) ficaram na memória de um editor, as que ele engana e as de que ele se esquece, o falhanço dos ideais perante a realidade. Ele chora várias vezes, é como um grito. É esse o movimento íntimo do cinema de Hong Sang-soo: progressão sensorial que se abeira do fracasso humano. E nesse percurso, entre comédia, álcool e mal entendidos, uma revelação.  

Jeannette, l’Enfance de Jeanne d’Arc
Bruno Dumont

Quinzena dos Realizadores

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Jeannette, l’enfance de Jeanne d’Arc dr

A música é da autoria de Igorrr, vai do electro ao heavy metal, mas há espaço para “rapar”. As coreografias são de um homem do circo e da mímica, Philippe Decouflé. O texto de duas exaltações de Charles Péguy (1873-1914), Jeanne d’Arc e Le Mystère de la charité de Jeanne d’Arc, é cantado no plateau por actores que não sabem cantar, entre os quais duas miúdas que interpretam Joana d'Arc aos oito e aos 16 anos, a idade do despertar, quando se mete em marcha para libertar a França da opressão inglesa, missão encomendada pelos santos. Este filme faz dos improváveis encontros uma série de dificuldades que leva o espectador a negociar o seu caminho em direcção à graça. Dumont provocou êxtase místico: aplausos entusiásticos para esta comédia musical.

Visages, Villages
Agnès Varda e JR

Fora de competição

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Ela tem 89 anos, ele menos 50, encontram-se como se o devessem ter feito há muito, ele com a sua atenção amorosa aos mais velhos, à avó e a todas as rugas que fotografa nos retratos gigantes que cola nas paredes do mundo, ela com uma curiosidade sem desculpas por tudo, pelos murais que são os rostos e pelas ruas (Visages, Villages, afinal, como Mur, Murs, de 1980). A viagem pela França esquecida é um investimento de memória e de imaginação, como se devolvessem isso a quem encontram, filmam e fotografam.

24 Frames
Abbas Kiarostami

Sessão Especial

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24 Frames de Abbas Kiarostami dr

São 24 “cenas”, duas horas de filme, realismo imaginado, fabricado e animado, a partir de fotografias que o cineasta iraniano tirou. Para encontrar a vida antes e depois da imagem imobilizada. Como se uma natureza-morta desenrolasse, sem precisar de autorização humana, a sua vida própria — a melancolia vai tomando conta da experiência de assistir a 24 Frames, a vida continuou sem Abbas Kiarostami. Foi o último filme que nos deixou.