Cannes 70: onde baterá o coração do júri de Pedro Almodóvar?

A edição 2017 ficará este domingo para a História quando for anunciado o palmarés. Entretanto, diz-se que120 Battements par Minute, de Robin Campillo, será o favorito. A crítica já o elegeu como melhor filme em competição – e premiou também Fábrica de Nada, do português Pedro Pinho.

Fotogaleria
Favorito à Palma de Ouro: 120 Battements par Minute, de Robin Campillo? dr
Fotogaleria
Joaquin Phoenix em You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay dr

Em momento de crise social, política e moral, 120 Battements par Minute, de Robin Campillo, faz com a perda e com a dúvida uma proposta incandescente de inquietação para um colectivo. Isto aconteceu na competição da 70.ª edição de Cannes, foi o seu filme mais comovente e comovido: memória dos anos 90 dos combates do Act Up de Paris, ramo da organização internacional de luta contra a sida, quando, depois do silêncio dos anos 80, o activismo se forjou de forma eufórica e trágica porque as pessoas combatiam em público com as suas vidas privadas. 120 Battements par Minute quererá dizer que as causas desapareceram, dar o corpo não é mais possível.

Uns metros à frente, saindo do perímetro da selecção oficial e entrando no território da Quinzena dos Realizadores, Fábrica de Nada, de Pedro Pinho, fazia a sua proposta de pensamento  agora que nem à esquerda nem à direita se consegue ler o mundo. Uma fábrica a fechar, nada para fazer, vamos cantar e dançar e fazer filmes? Fábrica de Nada questiona(-se), dá e tira, constrói e destrói – mas alguém tem de acreditar, o filme não inventaria assim, ao longo de três horas, a sua forma de autogestão.

A memória faz o seu trabalho a partir da crise – a força destes filmes é não excluírem a perda, absorverem a crise, viverem-na. Houve uma estranha e belíssima sintonia entre dois objectos que estiveram em extremos opostos (de muitas maneiras) da Croisette, e que significativamente se encontraram nos prémios atribuídos já este sábado pelo júri da Federação Internacional de Críticos de Cinema (FIPRESCI). Entretanto, um cartaz enorme, virado decididamente para o grande ecrã que é a sala Lumière, anunciou a estreia de um filme da competição, no final de Junho, no pequeno ecrã, num tabletOkja, de Bong Joon-ho, produção Netflix. Não voltará a ser possível competir aqui sem que a estreia em sala esteja garantida, mas não é isso que impede que um modelo esteja a ser desafiado e que isso provoque crise. Twin Peaks, série de David Lynch (os dois primeiros episódios), e as seis horas de Top of the Lake: China Girl, de Jane Campion, fizeram figura de acontecimento paralelo – desafiando o espectáculo do centro.

A competição, essa, foi revelando o seu verdadeiro rosto, aquele que se mostra para além dos dois ou três objectos que foram mais fulgurantes: uma colheita em dificuldades, sem filmes que poderiam ser salvíficos para a narrativa do concurso mas que não estavam prontos e com filmes que fazem figura de segunda ou terceira escolha nas obras dos seus realizadores. Tudo a terminar em apoteose com o grande vazio que é You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay. Joaquin Phoenix, como veterano do Iraque que procura a filha de um senador desaparecido, para a salvar de uma rede de prostituição, vai fazendo, a golpes de martelo, um percurso que na nossa memória é o de outro veterano (do Vietname) e outro brutal justiceiro da cidade corrupta, o Travis Bickle de Taxi Driver –, o que não é nada bom para o filme da britânica, parece um remake que se disfarça, que se esconde. A versão vista em Cannes não é a definitiva (em termos de duração, por exemplo), mas não se vê como é que se poderá afastar significativamente da catástrofe, da autocondescendência (deve ser por isso que já o vimos comparado ao Inherent Vice, de Paul Thomas Anderson, com o mesmo Phoenix) e da mistificação – sim, porque como aconteceu no ano passado com O Demónio de Néon, de Nicolas Winding Refn, Ramsay entrega um objecto que pode pretender reclamar para si a proximidade, antes de mais, “ao mundo da arte”.

Cannes, 70.ª edição, ficará este domingo para a História quando o júri presidido por Pedro Almodóvar anunciar os prémios. Por enquanto, diz-se: que Almodóvar poderá ter empatia com o filme de Campillo, haverá testemunhos de lágrimas do presidente depois da sessão; que In the Fade, de Fatih Akin, agarrou o júri – sendo um filme completamente televisivo na forma de se colar emocionalmente ao caso da vida de uma mulher que fica sem o marido e o filho, vítimas do terrorismo; que The Square, do sueco Ruben Ostlund, tem argumentos para agradar a outra voz forte do júri, o cineasta italiano Paolo Sorrentino – é menos interessante do que Force Majeure (2014) porque se interessa sobretudo pelas superfícies, e é mais manhoso (já disseram que é o crowd pleaser deste ano, como, no ano passado, Toni Erdmann, de Maren Ade, que está no júri também); que a estrela inglesa Robert Pattinson pode ter o prémio de interpretação por ter conseguido desaparecer na personagem de um criminoso nova-iorquino em Good Time, regresso ao caos expressivo que é o cinema dos irmaos Safdie; que Michael Haneke não terá a sua terceira Palma de Ouro com Happy End – quem esperava um “filme choque” ficou frustrado: Haneke obriga o espectador a procurar o filme, que não se dá a conhecer pela retórica habitual, mas por isso mesmo, por ser tão subterrâneo e inquietante a falar da solidão, do egoísmo, e da ausência de empatia colectiva, foi outro dos grandes filmes a falar da nossa maneira de viver.