José Manuel Castello Lopes (1931-2017), o fim de uma era do cinema

Herdeiro da distribuidora centenária, a Filmes Castello Lopes, fundou com o irmão Gérard, em 1972, o Cinema Londres, uma sala histórica de Lisboa.

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José Manuel Castello Lopes Colecção da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema
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“É o fim de uma época”; “foram tempos que hoje em dia já não existem”. São afirmações que nos habituámos a ler e ouvir com frequência, quando desaparecem figuras públicas de relevo. Desta vez, as exclamações são de Paulo Trancoso, presidente da Academia Portuguesa de Cinema (APC), e de Lauro António, realizador e crítico, e referem-se à morte de José Manuel Castello Lopes, aos 86 anos, o distribuidor e exibidor de filmes que herdara do pai a empresa fundada há já mais de um século, a Filmes Castello Lopes.

A morte aconteceu na madrugada desta sexta-feira, na sequência de uma doença cardíaca, que obrigara à sua hospitalização há já três semanas, e a notícia foi avançada na página da APC. Com ela, desaparece, de facto, uma figura incontornável do cinema em Portugal.

“Com a morte de José Manuel Castello Lopes, enterrámos uma parte da nossa história, desaparece a época dos grandes distribuidores e exibidores de cinema, de que ele, conjuntamente com o seu irmão Gérard Castello Lopes [1925-2011], foi um dos expoentes mais visíveis”, lamenta Paulo Trancoso.

"A Academia Portuguesa de Cinema e o cinema em Portugal perderam uma das suas mais distintas e ilustres referências", lê-se no comunicado daquela associação, que pede "um enorme aplauso" para o distribuidor português. José Manuel Castello Lopes recebeu, da Academia, o Prémio Sophia de Carreira em 2013.

Lauro António realça também a perda de “uma pessoa que sempre lutou pelo cinema de qualidade”, e que prestava à sua actividade de distribuição e exibição um cuidado que não tem paralelo com o que acontece nos nossos dias. “Não quer isto dizer que é pior ou melhor; o que é verdade é que José Manuel Castello Lopes dava uma atenção especial a cada uma das salas que dirigia” em Lisboa: o Condes (construído no início da década de 1950) foi ocupado por uma cadeia de restaurantes internacional em 2003 e alberga outras empresas; o Londres foi vendido na sequência da insolvência da Socorama, então a segunda maior exibidora do país e que comprara no final da década de 1990 a marca Castello Lopes – actualmente é uma loja de produtos de baixo custo.

A marca Castello Lopes continuava "nas fachadas dos cinemas, para dar credibilidade às salas", disse José Manuel Castello Lopes ao PÚBLICO em 2013.

Casa centenária

De facto, o logótipo com a imagem estilizada de uma águia e uma fanfarra de música épica em fundo – “Filmes Castello Lopes Apresenta...” – faz parte do imaginário de várias gerações que ao longo das últimas sete décadas frequentaram os cinemas.

A distribuidora foi fundada por José Castello-Lopes em 1916, e ao longo das décadas seguintes fez chegar às salas portuguesas grandes produções da indústria norte-americana (Fox, Columbia, MGM), mas também de cinema europeu – e aqui, desde a década de 1950, desempenharam papel preponderante os dois irmãos Gérard e José Manuel. “Nesta atenção ao cinema europeu, o Gérard teve um papel importante, até por razões estéticas”, lembra Lauro António, numa referência à actividade deste como fotógrafo que sempre se reclamou da herança humanista de Henri Cartier-Bresson.

O realizador e crítico realça a particular atenção que a Castello Lopes deu às cinematografias francesa, italiana e alemã. Godard, Truffaut e Fassbinder foram mostrados em Portugal pela sua mão. E Paulo Trancoso, que além de amigo pessoal foi também sócio de Castello Lopes, recorda o entusiasmo com que ele viu no festival de Cannes Cinema Paraíso (Giuseppe Tornatore, 1988), “e fez logo questão de comprar para exibir em Portugal”.

Divulgador desse cinema de autor europeu, José Manuel Castello Lopes foi também o distribuidor que trouxe para Portugal Guerra das Estrelas, em 1977 – um sucesso que foi uma “surpresa”, como disse ao PÚBLICO em 2015. Mais um filme, que inaugurava a era dos blockbusters e um outro tempo do cinema, mas ainda a estrear-se com as cortinas azuis que subiam para deixar ver o selo “Filmes Castello Lopes Apresenta…”.

Não era só um nome, era um rosto. Na actual via digital em que o cinema começa a perder o seu exclusivo de primeira exibição, o distribuidor e exibidor Pedro Borges considera que a grande diferença entre essa época e a actual é que “antes, mesmo as grandes empresas tinham pessoas que eram a cara” da chancela cinematográfica. “Hoje em dia, são as grandes empresas de cinema que têm gestores, e que vão passando. José Manuel Castello Lopes era de uma geração”, conta, “que podia dar uma fortuna por um filme e perder dinheiro porque gostava desse filme”, exemplifica Pedro Borges, separado por 25 anos de idade e profissão do distribuidor agora desaparecido.

Era também alguém com a personalidade e a posição que o levava a discutir com os censores, antes do 25 de Abril de 1977, lutando pelos filmes que trazia para Portugal, articulando-se com o irmão Gérard, que vivia em Paris e frequentava o Festival de Cannes.

José Manuel Costa acrescenta a este currículo de militância cinéfila e cívica uma faceta menos conhecida do distribuidor – “a sua atenção ao património fílmico”. “Sempre que possível, ele salvava uma cópia dos filmes que acabavam o seu circuito pelo país, e depositava-a na Cinemateca”, diz o director desta instituição, realçando a dificuldade e a coragem que esse gesto significava perante uma legislação que obrigava à destruição das cópias depois de usadas. “Isso era um acto que o chocava: destruir um filme; e por isso ele tentava por todos os meios salvá-los, deixar um traço dos títulos que passavam em Portugal”, acrescenta o director da Cinemateca, que em 1986 homenageou a família Castello Lopes com a realização de um grande ciclo (e agora volta a lembrá-la com a republicação de uma entrevista com os dois irmãos).

Lauro António realça ainda a atenção que José Manuel Castello Lopes também dispensou ao cinema português e aos seus realizadores. Foi co-produtor de um filme que se tornaria um clássico da nossa cinematografia, O Fado, História de uma Cantadeira (Perdigão Queiroga, 1947), com Amália Rodrigues e Vasco Santana no elenco. E manteve, com o seu irmão Gérard, uma relação sempre simpática com os jovens realizadores e também com os críticos portugueses. E cita o apoio que lhe prestou, por exemplo, para a organização de ciclos de cinema na Casa da Imprensa. 

O funeral de José Manuel Castello Lopes realiza-se no domingo, às 10h00, na Basílica da Estrela, em Lisboa, onde o corpo poderá ser velado a partir deste sábado, às 17h00. O corpo será cremado no cemitério do Alto de São João.