David Lynch, escondido à vista de todos

Onze anos sem filmar, e de repente 18 novas horas de imagens: não se fala de outra coisa que não seja o regresso de Twin Peaks. Como acontece sempre que David Lynch emerge do seu secretismo, perdemo-nos na vontade de resolver um mistério.

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David Lynch nas rodagens da nova série que tiveram lugar no ano passado Suzanne Tenner/SHOWTIME

Em 2007, David Lynch dizia isto: “O cinema é capaz de dizer coisas abstractas. E quando as coisas são abstractas, a intuição começa a funcionar. Há uma compreensão que nasce da intuição.”

Será por isso que andamos todos há 30 anos a tentar perceber o que vai na cabeça de David Lynch, enquanto o realizador continua a resistir, educada mas teimosamente, a dizer-nos o que se passa? Raros são os cineastas que conseguem reunir à sua volta este fervor quase messiânico, esta busca quase obsessiva por esmiuçar cada evento, cada filme, cada disco, cada exposição, à procura de pistas que expliquem a sua obra e o nosso fascínio.

Quantos cineastas “de nicho” que não fazem filmes “de massas”, quantos outros reclusos que controlam firmemente a sua arte, mantêm este nível de presença mediática sem que o “produto” que apresentam ao mundo o justifique neste momento? Nem Jean-Luc Godard, um dos raros nomes ainda vivos que nos liga à explosão das “novas vagas” dos anos 1950/1960, nem os sobreviventes da “nova Hollywood” como Coppola ou Scorsese mantêm esta devoção fora de circuitos cinéfilos. Apesar de Stanley Kubrick já ter falecido, o seu cinema continua a ser um manancial de descobertas; Terrence Malick, que já fez desde 2005 mais filmes do que nos 30 anos anteriores, perdeu a aura de recluso visionário. Desde o início do século XXI que Lynch se juntou ao clube rarefeito de cineastas em absoluto controlo da sua obra e da sua comunicação: por entre discos, fotografias, curtas, exposições, concertos, decorações, apenas dois filmes, Mulholland Drive (2001) e INLAND EMPIRE (2006, assim mesmo, com maiúsculas), e um longuíssimo interregno que culmina agora com o regresso de Twin Peaks, 25 anos depois.

Ora, desde a estreia do Twin Peaks original na cadeia ABC em 1990, o cinema de Lynch foi-se fechando cada vez mais num labirinto hermético, culminando num INLAND EMPIRE que continua a ser uma das mais radicais e inexplicáveis experiências formais do século XXI. Um filme aparentemente linear como Uma História Simples (1999) prova que se Lynch não conta narrativas “normais” não é porque não saiba: é porque não quer. Como Matt Zoller Seitz diz no site Vulture, este homem já deixou a lógica narrativa convencional para trás há muito tempo. Porque é que havemos todos de achar que vai lá regressar, agora que teve “carta branca” para fazer o que quisesse em 18 horas de televisão?

E, contudo, apesar de Lynch se ter tornado um cineasta cada vez mais opaco, cada vez mais frustrante, cada vez mais ausente dos ecrãs, a sua reputação e o seu culto mantêm-se intactos. Mesmo apesar de (ou se calhar porque) o último filme datar de 2006, mesmo depois de Lynch, que tem 71 anos, já ter dito que provavelmente não vai voltar a dirigir um filme, continuamos a não conseguir parar de falar dele. Quando veio de passagem ao Lisbon & Estoril Film Festival em 2007, para uma conferência sobre a meditação transcendental que guia a sua vida, o recinto estava a abarrotar. Quando o documentário de Jon Nguyen, Olivia Neergard-Holm e Rick Barnes David Lynch — A Vida Arte, que se debruça sobre os anos formativos de Lynch pré-Eraserhead (o seu primeiro filme, de 1977), passou no Doclisboa em 2016, as projecções foram das primeiras sessões de festival a esgotar. E o interesse inabalável por Lynch leva a Midas a repor esta semana no Ideal — em paralelo com a estreia de A Vida Arte — Mulholland Drive (2001), que começou a vida como um piloto para um potencial regresso à televisão que não vingou, e a mal recebida prequela da série, Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer (1992), bem como uma selecção de curtas-metragens e cenas cortadas de Twin Peaks.

Lynch sabe que toda a gente quer percebê-lo, mas insiste em que não há mistério nenhum. E que não há nada a revelar porque não há nada a esconder. Apenas ideias postas em imagens e sons, de um modo que o próprio sugere ser quase automático — quando o PÚBLICO esteve presente numa mesa-redonda com o realizador, em 2007, a propósito de INLAND EMPIRE, Lynch dizia que “um filme pede para ser de uma certa maneira, e continuamos a trabalhar até a atingir”.

E, no entanto, cada filme — mesmo as “encomendas” que Lynch realizou no início de carreira, O Homem Elefante (1980) e Duna (1984) — abre portas para mistérios que nunca são inteiramente resolvidos. Houve toda uma geração de cinéfilos que cresceu, nos anos 80 e 90, com a sua forma diferente de olhar para as convenções estruturais da narrativa hollywoodiana — tudo por culpa de Veludo Azul, o olhar hiper-romântico sobre o reverso da medalha da fachada do sonho americano, sobre a escuridão por trás do technicolor, prolongado na “telenovela virada do avesso” que Twin Peaks foi. Lynch nunca escondeu o seu fascínio pela forma da telenovela, pela possibilidade de levantar o véu sobre as personagens ao longo de um período mais alargado de tempo. A partir de Twin Peaks, aliás, os seus filmes passaram a ser mais longos (culminando nas três horas de INLAND EMPIRE) e o realizador fez questão que a nova série de Twin Peaks fosse transmitida ao ritmo de um episódio por semana, opondo-se ao “método Netflix” de disponibilizar toda uma temporada simultaneamente em streaming.

Twin Peaks foi o momento que cristalizou o adjectivo “lynchiano”: o momento em que a mente perigosa e brilhante de David Lynch se abriu por inteiro no seu cinema e, qual caixa de Pandora, não se voltou a fechar. Daí para a frente, Lynch foi-se perdendo no labirinto que construiu e do qual (prova-o agora Twin Peaks) não está nada interessado em sair. E se o culto que se formou a partir daí pareceu tornar-se numa prova de que a pós-modernidade continuava a atrair público para um cinema mais exigente, diferente, a verdade é que Lynch nunca esteve interessado em fazer parte de nada. Fomos nós, imprensa, público, programadores, distribuidores, que estávamos de fora e procurávamos a “next big thing”, que fizemos de Lynch este “guru” (e a referência à meditação transcendental aqui é casual, embora não o pareça ser). Como se ele abrisse uma porta para o que está escondido dentro de nós.

Mas — como bem sabemos — muitos de nós preferimos saber que essa porta está lá, mais do que entrar por ela dentro. O filme de Twin Peaks não agradou a ninguém; se Estrada Perdida e Mulholland Drive continuavam a trabalhar sobre os códigos estilhaçados da Hollywood clássica, foram filmes que dividiram o público mais que a crítica. INLAND EMPIRE teve uma difusão no mínimo confidencial, parece ter-se desvanecido no éter desde a sua estreia, como uma espécie de monólito de que todos ouviram falar mas que poucos tiveram disposição para ver. Lynch nunca foi a “next big thing” porque nunca o quis ser. E é também por isso que o culto apenas cresceu. 

E Twin Peaks 3.0? O futuro o dirá. Uma coisa, contudo, é certa: não se fala de outra coisa. Porque é David Lynch, e não resistimos a tentar compreendê-lo.