A sanduíche de Quarteira que Vera Mantero leva para a praia

A coreógrafa fez a trouxa e foi até Quarteira, ver-se rodeada de redes de pesca, campos de golfe e prédios que roubam a vista. Pão Rico é a sanduíche de uma cidade entalada entre duas volumosas fatias de vivendas milionárias.

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Filipe Farinha
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Começa por umas mãos que remexem a areia da praia até nela encontrarem algumas notas soltas. Dinheiro, portanto. Uma espécie de “e tudo começou aqui” para a cidade de Quarteira, rapidamente transformada de aldeia piscatória em cidade buliçosa, mas cheia de estrias e dores de crescimento provocadas por essa demasiado lesta passagem de uma condição para a outra. Foi à procura da história desse lugar que a coreógrafa e bailarina Vera Mantero partiu para o Algarve, com vista à criação de Pão Rico, em apresentação na Culturgest, Lisboa, sexta e sábado. A imagem imediata suscitada pelo título serve tanto de alusão às sanduíches preparadas para comer durante as longas jornadas de praia, quanto de sugestão da condição de localidade ensanduichada entre Vale do Lobo e Vilamoura. Quarteira, cidade albergue da classe média portuguesa rendida ao modelo das “férias na praia” nos anos 80, está hoje cercada por dois símbolos gigantes do poderio financeiro, numa imagem possível das fortes assimetrias sociais do país.

À procura do que isto significa e provoca, Vera Mantero foi recolhendo imagens, objectos e sons que atira para cima do palco, insinuando “o caos daquela região e daquela cidade”. As enormes bolas de praia de uma marca de protectores solares roubam-lhe o espaço de que necessita para estender a toalha; as bolas de golfe que bate repetidamente enrolam-se e ficam presas nas redes de pesca. Os sinais são vários e não complicam aquilo que a coreógrafa explora de contradições e de invasão daquela terra pertencente a uma região pobre portuguesa, e que, com o fenómeno mais ou menos coincidente da conquista de direitos laborais (o início das férias pagas) e a abertura do Aeroporto de Faro em Julho de 1965, se transformou num cobiçado destino balnear e jogou todas as fichas nesse preciso papel de destino de férias.

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Não há julgamento moral implícito. “Não é fácil apontar o dedo”, diz em relação ao descontrolo urbanístico no Algarve de que Quarteira é um exemplo flagrante. “Vi-me nesta dificuldade de não moralizar, porque também não tenho nenhuma resposta. Ando nesta peça a tentar falar disto sem me arvorar em alguém que sabe o que seria melhor e como se podia fazer.” Daí que Vera Mantero afirme que a sua situação é ainda a de uma turista. Instala-se no papel de alguém que, propondo-se uma aproximação das gentes daquela terra e com uma obra criada a partir de dois períodos de residência com várias entrevistas e centenas de páginas de leituras sobre a região e sobre o turismo, continua a ser uma “estrangeira”, uma visitante cuja permanência será sempre temporária.

“O meu olhar é muito exterior”, confirma, “é muito de uma pessoa que conseguiu perceber umas coisas ou ter a impressão de que as percebeu e sacar uns elementos, mas não posso dizer que conheço profundamente aquela realidade. Não sei o que é viver ali todo o ano.” Foi, por isso, em busca de quem ali vive e tem dedicado o seu tempo a estudar a História da região, recolhendo a informação suficiente para saber que o Algarve nem sequer constava do livro As Praias de Portugal – Guia do Banhista e do Viajante, de Ramalho Ortigão, e que esta outrora terra modesta rodeada por pinhais passou a filão turístico em que a paisagem é frequentemente de betão. Talvez as coisas pudessem ter sido diferente com “uns políticos espectaculares, com uma visão brutal e que fizessem as coisas como deve ser” no pós-25 de Abril, mas quando numa região desvalida se descobre uma mina de ouro as decisões tendem a ser pouco lúcidas e menos focadas no longo prazo. Agora, admite Vera, começa a falar-se de recuperação da paisagem. E o turismo já não é o mesmo. “Os turistas já não querem ir para um hotel gigante, com uma piscina gigante, e ficarem ali parados. Agora querem experiências.”

À espera de um novo Verão

A Ramalho Ortigão a coreógrafa vai ainda buscar “um texto muito curioso” em que o escritor reivindica “uma estada balnear quase filosófica”. “O que é incrível”, diz, “é ele escrever isso naquela altura [a primeira edição data de 1876] em que ainda se podia ouvir o mar, ainda se podia contemplar. E ele diz-nos que o mar tem o poder de nos transformar, tem um impacto enorme de nos fazer ver o que é o mundo e pensar o mundo. E se vamos para o mar e não deixamos que isso nos aconteça, então estamos a desaproveitar completamente essa oportunidade.” Se Ortigão escreve quando “a loucura da construção e do bronze” não tinha ainda tomado conta das zonas balneares, Vera chama as suas palavras para pouco depois se deitar no chão e acolher em si todo o tédio que faz parte também dos dias de praia sem a nobreza de espírito a que o escritor apelava.

Vera Mantero chama a esta crescente obsessão “o advento da pele bronzeada”, fenómeno edificado sobre toda uma operação de propaganda, uma vez que “quem tinha pele bronzeada era o povo, e a pele branquíssima, transparente era sinal de primeira categoria”. A pele curtida pelo sol era, afinal, sinal de trabalho duro no campo ou no mar; só depois se tornou sinónimo de prolongado tempo de lazer de uma classe alta que se foi instalando no Algarve e povoando de vivendas as zonas ao redor de Quarteira. Vera percorreu essas vivendas com a visão aérea permitida pelas ferramentas do Google e deixou-se impressionar por “tanta vivenda com piscina e tanto prédio que quase deixa o mar em segundo plano”.

Pão Rico é Vera Mantero a rodear-se de tudo isto. É Vera Mantero a ouvir os relatos de um historiador local pertencente à primeira geração que teve a oportunidade de escapar à vida na pesca e formar-se na Universidade do Algarve para depois, dadas as dificuldades financeiras familiares e a escassez de trabalho na região, ter de se fazer pescador e descobrir, afinal, que “não há vida mais bela do que a pesca”. É Vera Mantero a percorrer impressionada as ruas de Vilamoura e de Vale do Lobo, sabendo que estão ali as propriedades mais caras do país, e a descobrir campos de golfe por todo o lado, como se a região fosse um parque de diversões para adultos, mas onde só certos adultos entram. É uma sucessão de imagens em que um pequeno jornal em defesa dos interesses regionais acaba por expulsar a língua portuguesa das suas páginas, é um contínuo de camareiras arrumando quartos, preparando os meses de Verão enquanto as suas vidas não ficam em suspenso – à espera de um novo Verão que se seguirá.