Os irmãos Safdie voltam a trazer-nos alecrim

Uma noite no submundo nova-iorquino, um assalto que corre mal, um criminoso ofegante para tirar o irmão da prisão. A expressividade fantasista do caos: é o cinema de Josh e Ben Safdie. Primeira vez na competição de Cannes e a marcar decididamente esta edição.

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Os irmãos Safdie, Josh e Ben Reuters/JEAN-PAUL PELISSIER
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Os realizadores com o actor Robert Pattinson ao meio LUSA/JULIEN WARNAND
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Os realizadores e o actor Robert Pattinson Reuters/ERIC GAILLARD
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Robert Pattinson em Good Time LUSA/CANNES FILM FESTIVAL / HANDOUT
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Robert Pattinson em Good Time LUSA/CANNES FILM FESTIVAL / HANDOUT
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Good Time LUSA/CANNES FILM FESTIVAL / HANDOUT

Em 2008, Josh Safdie deu um beijo a Miguel Gomes, depois de ver Aquele Querido Mês de Agosto na Quinzena dos Realizadores. Era o seu primeiro Cannes, veio apresentar The Pleasure of Being Robbed. O irmão Benny, contou aos Cahiers du Cinéma, não sabia que os filmes se podiam ver da maneira que se vêem nos festivais, que se podia falar com os realizadores — mas Josh e Ben nunca conseguiram, em 2008, bilhetes para as sessões de gala do Théâtre Lumière.

Em 2009, os Safdie voltaram à Quinzena. Vão-me Buscar Alecrim fantasiava com a infância perdida deles, filhos dos despojos de um casamento que acabou mal, era a necessidade de catarse — o filme era de uma transbordante fantasia, raptava-nos. Um irmão saltou para cima do ombro do outro na apresentação em Cannes e tudo. Estão a ver aqui a progressão…

Com Good Time, os Safdie continuam intimidados pelo Théâtre Lumière, mas não precisam de arranjar bilhete, a sessão pertence-lhes, estão na competição. (Têm é de se preocupar com o que vestir). Trouxeram com eles uma banda sonora composta por Oneohtrix Point Never e Iggy Pop, e uma estrela global, Robert Pattinson. Mas mais importante é que nos voltam a trazer alecrim com a história de dois irmãos, Nick e Connie Nikas, do amor, da comunicação entre eles, mesmo que um seja emocionalmente deficiente (Nick, interpretado por Ben Safdie).

É a noite longa de Connie (Pattinson) para libertar Nick, depois de um assalto a um banco que deu para o torto e que colocou Nick num quarto de hospital com polícia à porta. Tinham acabado os dois cobertos de pó vermelho, patifaria da auto-defesa bancária que boicotou o assalto — o vermelho e os laranja são, aliás, as cores com que o director de fotografia do filme, Sean Price Williams, se arrisca perigosamente com 35 mm numa outra sequência, quando Connie percebe que trouxe do hospital o irmão errado, altura em que Good Time vai parar a um parque de diversões de luz, cores e sombras.

Algo nos diz desde logo no título, como nos dizia Vão-me Buscar Alecrim/ Go Get Some Rosemary, que o caos, a disfunção — o crime, estamos no puro e duro underworld nova-iorquino — contêm uma energia expressiva e libertadora. Que o diga também um dos actores que às tantas toma conta do filme, Buddy Duress, interpretanto a personagem que Connie confundiu com o irmão. Há três anos Buddy estava “na pior”, decidiu meter a inquietação criminosa no trabalho de actor e hoje está em Cannes.

A expressividade criativa do caos — o filme foi rodado nas ruas utilizando o “guerrilla style”, várias personagens correspondem às vidas dos actores — liga Good Time a Vão-me Buscar Alecrim. Pela relação que estabelece com o espectador, que fica sem hipóteses — a não ser que abandone fisicamente o filme. Josh utilizou uma expressão interessante, na conferência de imprensa, quando, falando sobre a natureza obsessiva deste cinema, sobre as personagens, que é onde tudo começa, disse que o que lhes interessa é que os filmes “escorram” para dentro do espectador.

Há, sim, essa presença do filme em nós, experiência fusional. Há ainda a teatralidade de uma cidade, Nova Iorque, presente e simultaneamente memória, realidade e simultaneamente fixação mitológica, tanto é a Nova Iorque de hoje como a que foi (de)cantada pelo cinema dos anos 70. A “irmandade” entre Robert Pattinson e Ben Safdie (poderiam ser os irmãos de Vão-me Buscar Alecrim que cresceram) é tão particular quanto modelar, Dustin Hoffman, Jon Voight, Gene Hackman, Robert De Niro, Harvey Keitel estiveram por aqui. Não é por acaso que Martin Scorsese, que elogiou a “vitalidade tremenda" dos Safdie, vai servir de produtor executivo a Uncut Gems, o próximo projecto da dupla que continuará a fazer catarse, já que, Josh e Ben contaram-no ao Ípsilon em 2010, o filme passa-se na indústria da joalharia, mundo “obscuro” em que o pai de ambos trabalhou.  

Entre Vão-me Buscar Alecrim e Good Time, houve, em 2014, Heaven Knows What. Momento de borrão numa aventura fantasiosa e violenta. Mas foi por causa do cartaz desse filme, e ainda antes de o ter visto, que Robert Pattinson, estrela de um mundo que não estava destinado a colidir com o dos Safdie, sentiu que tinha de trabalhar com os irmãos. Arrisca-se já a ser um dos seus trabalhos mais elogiados, é também a surpresa de ver um inglês desaparecer no corpo de um criminoso nova-iorquino — algo deve estar em mutação na sua carreira ou é apenas a vontade natural de não se deixar aprisionar: o próximo filme de Antonio Campos (Afterschool) contará com ele. Pattinson contou, isso fala sobre os Safdie e sobre Good Time, que mais do que fazer uma investigação sobre a criminalidade urbana, ele ficou um ano (um ano, sim) com o argumento — a permitir que escorresse para dentro dele. Dois meses antes da rodagem mudou-se para Nova Iorque, para perto da casa dos realizadores. Ao longo daquele ano, ele e Ben Safdie, que nunca se tinham visto, correspondiam-se por e-mail, mas como Connie e Nick Nickas — com conhecimento dos argumentistas Ronald Bronstein e Josh Safdie, que iam construindo as personagens (todas tiveram biografias detalhadíssimas, que iam pelo menos até aos tios). No momento da rodagem, nas cenas de rua, no metro, Robert teve medo, achou que podia ser reconhecido e isso estragaria a cena. Nunca aconteceu. Nunca foi visto. Tinha desaparecido.