Opinião

Uma vénia à dupla Passos-Costa

O que todos sabemos é que é muito melhor viver assim. Por obra dos governos de Passos e de Costa. E, principalmente, por nossa própria obra.

Quando duas crianças briguentas disputam os mesmos brinquedos é bom que haja um adulto por perto. Felizmente estava lá o Presidente-Rei Marcelo a acalmar António Costa e Pedro Passos Coelho, dizendo-lhes que os brinquedos, ou melhor, a saída de Portugal do Procedimento por Défice Excessivo (PDE), era pertença dos dois e também do país inteiro. Em birras como esta a paciência dos adultos por vezes esgota-se. Porque as birras têm o condão de nos desviar do que de facto é importante e contribuem para atestar o défice de qualidade da nossa vida pública e política, despindo-a de argumentos e de racionalidade e preenchendo-a com artimanhas e resmungos. Numa democracia madura onde o poder vê os cidadãos como adultos não haveria certamente este “empurra para lá” de dois galos em luta pelo pelos louros de uma grande notícia para Portugal e para os portugueses. Calem-se, portanto.

Só com um pouco menos de ruído podemos então detectar que a proposta da Comissão Europeia é o lacre que sela o final de processo de seis anos de sacrifícios no qual os portugueses voltaram a ser os grandes heróis. José Pacheco Pereira gostaria de lhes ter visto no auge dos dias de chumbo uma costela mais jacobina, em vez da “apatia cívica” que revelaram perante a “política de dolo que a União Europeia usou”. Ele ainda não percebeu que os portugueses perceberam que em 2010 e 2011 o país estava na mesma penosa condição da bancarrota de 1892, mas desta vez não tinha colónias para serem disputadas em troca da ajuda da Alemanha e da Inglaterra. As pessoas sabem que há momentos em que é preciso cerrar os dentes e resistir. Não percebeu também que, quando o país sentiu que o Governo estava abusar, como aconteceu quando Passos anunciou que seriam os trabalhadores a pagar a TSU, saíram da sua “apatia cívica” e, a 15 de Setembro de 2012, fizeram a maior manifestação desde os dias quentes do PREC.

Pierre Moscovici, o comissário europeu das Finanças disse-o, o Presidente-Rei Marcelo sublinhou-o e, na prática, toda a gente reconheceu que a relativa bonança destes dias se deve muito à capacidade de encaixe dos portugueses – e ao seu talento. E, também, ao desempenho dos seus governantes. Como disse e bem o Presidente, Pedro Passos Coelho tem de estar na galeria dos elogios pelo percurso que fizemos do limiar da bancarrota até à saída do PDE. A sua inconsistência ideológica, a forma estrangeirada e ligeira de ver o país, o seu ardor neoliberal inspirado em leituras de revistas cor-de-rosa foram terríveis para o país. Mas, no momento da proximidade do caos, ele teve coragem, energia e determinação para traçar um rumo. Governou o país na mais terrível conjuntura em décadas e deixou-o melhor para o primeiro-ministro que lhe sucedeu. Deixou-o com um défice controlável e, principalmente, liberto da sensação de que o Estado estava capturado por figuras como Ricardo Espírito Santo ou empresas como a Ongoing. Só assim se explica que o PSD tenha sido o partido mais votado em 2015.

Como aconteceu a Churchill depois de ganhar a guerra, talvez Passos seja uma figura da História. Provavelmente perdido na desilusão de se sentir injustiçado, o líder do PSD põe-se em bicos de pés e tenta que o ouçam com a mensagem de sempre – “não podemos cometer os mesmos erros”, disse outra vez esta segunda-feira. Faz lembrar as estrelas da rádio que não deram conta da vinda da televisão. Portugal e a Europa (com a infeliz excepção da Grécia) deixaram de estar focadas na crise financeira como há cinco anos, Costa já o percebeu e diz que a União está a mudar, mas Passos ainda não saiu desse bunker. Mas é bom que haja um esforço para sacudir o sectarismo e reconhecer-lhe o serviço que prestou.

Da mesma forma, António Costa merece todos os elogios por ter sido capaz de pegar numa herança ainda periclitante e em menos de dois anos a ter tornado muito melhor. Fica-lhe mal recuperar a cantilena do “fim da austeridade” e da treta de que o anterior Governo se empenhou numa estratégia de “empobrecimento colectivo”. Porque não é verdade. Estamos onde estamos porque Costa fez ouvidos moucos aos cantos das sereias do Bloco e às canções de protesto do PCP e seguiu uma linha de enorme rigidez na política fiscal. E se o empobrecimento foi travado, ou até revertido, é porque hoje respira-se melhor no rectângulo mais ocidental da Europa. Sem crescimento económico não há receita fiscal e sem receita fiscal não há milagres, certo?

Dizer que não há uma continuidade (num genial golpe de analista o Presidente-Rei chamou-lhe até o novo “consenso do regime não explícito”, como recordou David Dinis no PÚBLICO) entre Passos e Costa é absurdo e incoerente – o que torna a sua briga ainda mais patética. Ambos se fixaram no respeito pelos compromissos europeus, com a troika ou com o Pacto de Estabilidade e Crescimento, ambos deram importantes contributos para que Portugal seja hoje olhado outra vez como um país responsável e credível, habitado por um povo que sabe o que quer. É esse clima de confiança no país que ajuda o turismo, que faz com que os juros da dívida flutuem dentro de margens toleráveis, que justifica o maior índice de investimento directo estrangeiro em muitos anos, que melhora a marca do país nos mercados de exportação. E sim, que nos permite outra vez desembarcar num qualquer aeroporto estrangeiro sem carregar às costas o anátema do cidadão do país que não se sabe governar.

Descontando as birras pueris, a verdade é que este marco do final de um ciclo só será mesmo importante se, como prometeu António Costa, esta for “a última vez que passamos por um processo tão traumático”. O espantalho dos cortes está longe e é confortável ver o primeiro-ministro e o ministro das Finanças a garantir comedimento e responsabilidade. Como é bom ouvir o Bloco insistir mais na necessidade de o país investir do que na urgência de redistribuir a eito. Talvez todos tenham percebido que não dá para viver acima do que a economia e os impostos permitem. Talvez o desnorte dos anos 2000 tenha sido uma crise de puberdade e o ajustamento uma transição para a vida sem acne juvenil. O que todos sabemos é que é muito melhor viver assim. Por obra dos governos de Passos e de Costa. E, principalmente, por nossa própria obra.

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