A velocidade da mudança na nova economia “mete medo”

Para António Mota, da Mota Engil, e António Murta, da Pathena, mais importante do que a separação da economia entre uma velha e uma nova é a distinção entre as boas e as más empresas.

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António Murta, David Dinis e António Mota, da esquerda para a direita, durante o ciclo "Olhares Cruzados" Adriano Miranda

Pela primeira vez na História, António Murta olha para as transformações promovidas pela economia digital e do conhecimento e sente “medo”. Murta, um engenheiro formado em engenharia de sistemas, tem um longo currículo na economia inspirada da “destruição criativa”, mas essa “economia mutante” está a evoluir a um ritmo tão intenso e a seguir um caminho tão arriscado que põe em causa o “equilíbrio social”. No último debate do ciclo Olhares Cruzados com António Mota, chairman da Mota Engil, organizado pelo PÚBLICO e pela Universidade Católica para discutir a relação da nova economia com a economia tradicional, António Murta expôs os seus receios: a mudança em curso é uma “Revolução Francesa”, que está a gerar monstros monopolistas como a Google, que se baseia em velocidades de mudança capazes de criar milionários em quatro meses quando para lá chegar John Rockfeller demorou 27 anos, e que, principalmente, ameaça “dizimar postos de trabalho”.

António Mota, um engenheiro proveniente de uma família que construiu um dos maiores gigantes da construção em Portugal, olha para esse mundo mutante com surpresa, abertura mas, igualmente, com receio. Para ele, a distinção entre nova e velha economia faz pouco sentido – “o que há são boas empresas e más empresas”, nota, deixando subentendido que a inovação e o conhecimento são condições implícitas à afirmação das boas. O seu grupo não dispensa a novidade da tecnologia nem a “excelência da engenharia portuguesa”, mas Mota gosta mais de visitar obras pelo mundo fora, gosta de conservar os trabalhadores no quadro das suas empresas, não acredita no sucesso de países que descartam a produção de bens físicos (a velha economia) e assusta-se quando constata que, no mundo actual, a esperança média de vida de uma empresa é de apenas 12 anos.

O papel das pessoas neste admirável mundo novo foi um dos principais focos da atenção dos oradores do debate moderado por David Dinis, director do PÚBLICO. António Murta, habitado a ter um pé na tecnologia e outro na gestão, que foi consultor e é hoje o homem forte da Pathena, um fundo de investimento em empresas da nova geração, considera que no futuro próximo os trabalhadores vão necessitar de desenvolver “quatro ou cinco competências para depois poderem vender uma ou outra”. Os tempos em que os pais perguntavam aos filhos “o que queres ser quando fores grande?” acabou no momento em que saberes adquiridos se desactualizam de um dia para o outro – “na medicina, a obsolescência do conhecimento é de 30% ao ano”, diz. António Mota aceita a premissa, mas deixa a nota: “A nova economia se calhar é mais desgastante para as pessoas.”

Mais do que divergir das ideias de António Murta, Mota sugere-lhes tempero e adequação. Para ele, “ser ambicioso” ou “competitivo” nesta era da velocidade, quando a revolução da Indústria 4.0 promete mudar radicalmente o mundo do trabalho, faz sentido. A qualificação, nota, é indispensável. Principalmente em Portugal, onde “para chegarmos às mesmas condições temos de ser um bocadinho melhores do que os outros”. Com Portugal a ser “descoberto”, na percepção de António Murta, com uma economia mais baseada no talento e no conhecimento do que nos recursos financeiros, o país tem uma oportunidade, concordaram um e outro. “Mais do que os impostos ou os políticos, o importante para a atracção de investimento são as universidades”, diz Murta. Mas, insistindo numa ligação mais vincada à terra, António Mota chama a atenção para outros constrangimentos: “Temos de resolver o problema do sistema financeiro. Este é o grande problema do país”, rematou.