Serralves em Festa vai quebrar muros espaciais e temporais

Cinquenta horas non stop e abertura a novos palcos e novos temas na programação da edição deste ano, que decorre no primeiro fim-de-semana de Junho.

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La Cosa, de Claudio Stellato Geert Roels
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Coreografia de Ola Maciejewska DR
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Lula Pena Miguel Madeira
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Halka, do Grupo Acrobâtico de Tânger DR
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Los Pirañas DR
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Terry Riley & Gyan Riley DR

Mais cedo ou mais tarde, esperava-se que acontecesse: o Serralves em Festa já não cabe apenas nos dois dias e 40 horas non stop e, à 14.ª edição, vai “quebrar muros” temporais mas também espaciais – vão ser 50 horas non stop, entre as 20h do próximo dia 2 de Junho e as 22h do dia 4. E se, já em edições anteriores, saíra dos muros da Fundação de Serralves, este ano vai voltar a estender-se a outros lugares do Grande Porto e, no sentido inverso – e esta é uma das novidades –, acolher espectáculos e iniciativas de uma dezena de autarquias fundadoras com as quais a nova administração de Serralves tem vindo a expandir o mapa da sua influência por todo o país.

O programa deste que é apresentado como “o maior evento da cultura contemporânea em Portugal e um dos maiores da Europa”, como uma vez mais o reivindicou a presidente da fundação, Ana Pinho, foi divulgado esta quarta-feira ao início de uma tarde de calor à sombra aprazível da avenida dos liquidâmbares.

Faça novamente sol ou nevoeiro, ou mesmo chuva, de 2 a 4 de Junho Serralves vai querer ultrapassar o recorde das mais de 160 mil pessoas que assistiram à festa em 2016. E esse apelo à conquista de novos públicos não esquece a situação actual do Porto como destino turístico muito procurado. Logo no dia 1 de Junho, em jeito de aperitivo, a companhia espanhola Vaivén Circo acolhe os passageiros no Aeroporto Francisco Sá Carneiro com o espectáculo de circo contemporâneo Do Not Disturb – que se repetirá, em quatro horários diferentes, nos dias 3 e 4. Em cena estão quatro personagens em torno de uma máquina, como se trabalhassem numa fábrica no início do século XX…

Este foi um dos destaques enunciados pela directora do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Suzanne Cotter, de uma lista de várias centenas de propostas que são precisamente unificadas pela ideia de “quebrar muros”, mote para a festa deste ano. Quebrar fronteiras entre os públicos através de “uma oferta cosmopolita” e uma marca de “transdisciplinaridade e de clareza que vai dar muito prazer às pessoas”, acrescentou Cotter.

Nessa lista de propostas, a directora assinalou, também no circo contemporâneo, o espectáculo Halka (dia 2, 22h), com que o Grupo Acrobático de Tânger (Marrocos) “questiona as memórias de uma arte que incorpora a sua relação remota com o mundo". Também de acrobacia se faz Horizon (dia 2, 20h), com que a francesa Chloé Moglia nos fala da suspensão do corpo, e através dele de temas como o poder e a fragilidade, o peso e a leveza.

Na dança, as produções La Cosa, do italiano Claudio Stellato (dia 1, 19h, no terreiro da Sé do Porto, outra extensão ao lado de fora dos muros de Serralves, que depois será apresentada no Prado, dias 3 e 4), e Loie Fuller: Research (dia 1, na Praça de Carlos Alberto e no Jardim da Cordoaria, às 12h e 17h) e Bombyx Mori (dia 3, 18h), ambos da coreógrafa polaca Ola Maciejewska. A primeira trata de matérias da natureza, como a madeira, com que Stellato cria objectos e espaços cenográficos; as criações de Maciejewska desenvolvem-se também em volta da relação do corpo com os artefactos, seja o do escultor com a matéria da sua arte; seja o da dançarina com a luz e o som.

Terry Riley & Gyan Riley, pai e filho, são dois músicos norte-americanos, que darão um concerto no dia 4 (20h). O primeiro foi um pioneiro do minimalismo, o filho, guitarrista, tocou com Lou Reed e com o Kronos Quartet. A música que fazem agora combina o flamenco com a música indiana.

De Espanha, vem o novo flamenco de Niño de Elche (dia 3, 00h30) em fusão com outros géneros, mas também com as palavras de poetas seus conterrâneos e contemporâneos, como Antonio Orihuela, Inma Luna ou Begoña Abad – a “poesia da consciência”, expressa no seu disco recente Voces del Extremo. Já Los Pirañas (dia 4, 01h30) são três músicos colombianos que trazem as sonoridades tradicionais da América do Sul, como as podemos ouvir no seu disco La Diversión que Hacia Falta en mi País.

Do outro lado do mundo, a japonesa Yoshimi, baterista, trompetista e vocalista, traz ao Porto a sua nova banda, exclusivamente formada por mulheres, OOIOO, que “reúne de forma singular e harmoniosa a excentricidade e a improvisação a uma cuidada sensibilidade pop”, diz o comunicado do Serralves em Festa.

E a música portuguesa vai estar representada por Lula Pena, a autora do recente disco Archivo Pittoresco, apresentada como uma criadora que consegue reunir em assemblage a tradição do fado com a bossa nova e o tango.

Outro exemplo da abertura do Serralves em Festa a novas áreas de programação é a conferência que José Ramos Horta, Prémio Nobel da Paz 1996 e ex-Presidente e primeiro-ministro de Timor, vem fazer sobre Os caminhos da Ásia (dia 2, 21h).