Editorial

O último limite do terror

O ataque terrorista em Manchester subiu um degrau na barbárie, indo atrás dos nossos filhos.

Os ataques terroristas na Europa tornaram-se tão habituais que até nós, jornalistas, já nos habituámos a falar deles dentro de uma certa normalidade. É terrível dizê-lo assim, mas foi assim que aconteceu. Veja o que já aconteceu nos últimos meses, aqui na nossa Europa: Gotemburgo, Istambul, Londres, São Petersburgo, Estocolmo, Paris (outra vez Paris). Mas o que aconteceu na noite passada em Manchester não foi um ataque igual a todos os outros. Foi subir um degrau na barbárie, indo atrás dos nossos filhos. Pode ter sido um só atacante, pode ter sido algo mais organizado — não importa. O que aconteceu deixa-nos arrasados, porque nos atinge na alma.

E o que aconteceu foi isto: um ataque à porta do concerto de Ariana Grande, em Manchester, que fez pelo menos 22 mortos e mais de 50 feridos. Uma explosão provocada por um bombista-suicida, à porta de um recinto que leva 21 mil pessoas, cheio de crianças e adolescentes — porque são sobretudo eles que Ariana Grande leva atrás. O dado mais triste, entre todos os que preferíamos não contar: há crianças entre as vítimas; há também crianças perdidas dos pais, depois do pânico da saída do recinto. Às vezes sentimos, a escrever notícias, que preferíamos não ouvir os relatos deles, de tanto que nos fazem pensar nos nossos. Mas a nossa missão é fazê-lo. E procurar respostas para as dúvidas que nos assaltam.

Um bombista-suicida é caso raro na Europa. Mas lembra-me o alerta do sociólogo francês, Olivier Roy, há apenas duas semanas aqui no P2: "É urgente que se faça uma outra leitura sobre quem são os terroristas europeus 'domésticos', cujas biografias revelam serem niilistas violentos que adoptam o islão e não fundamentalistas religiosos que se viram para a violência." Sim, são bem diferentes daquelas verdades-feitas que nos habituámos a ouvir. Exemplos: esta opção sistemática pela morte é um desenvolvimento recente; a sua dimensão niilista é central, mais do que a religiosa; a relação entre radicais e vítimas é mais imaginária do que real; os revolucionários quase nunca vêm das classes oprimidas; os radicais não vêm de comunidades extremistas; mas muitos dos novos radicais estão profundamente imersos na cultura jovem.

Sim, depois do que aconteceu na noite passada, em Manchester, vamos ter que respirar bem fundo para não olhar para o terrorismo com os nervos em franja. E vamos ter, também, que seguir em frente. Mas desta vez, tanto ou mais do que das outras vezes, vamos perceber o que se passou com uma pergunta a bater-nos lá no fundo: quão loucos podem ser os que fazem alvo entre os mais frágeis de todos?