Madonna põe deputados municipais a olhar para um buraco

O que têm em comum Madonna, um buraco e a falta de habitação em Lisboa? Palavra aos deputados da assembleia municipal, que esta tarde usaram a estrela pop para fazer política.

“Não consigo perceber a relação entre um buraco e a Madonna”, declarou Manuel Salgado incrédulo enquanto o plenário soltava gargalhadas
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“Não consigo perceber a relação entre um buraco e a Madonna”, declarou Manuel Salgado incrédulo enquanto o plenário soltava gargalhadas Reuters/DANNY MOLOSHOK

Por estes dias, a presença de Madonna em Lisboa é motivo de falatório em todo o tipo de fóruns: jornais, revistas da especialidade, cafés, cabeleireiros, mercados, transportes públicos. Parece que ninguém ficou indiferente à súbita aparição da cantora na capital portuguesa, urbe de 500 mil almas ainda desabituada a estas visitas mediáticas. Nem mesmo aos deputados da Assembleia Municipal de Lisboa passou despercebida tão ilustre presença.

Sobretudo depois de vir a público, na segunda-feira, que o presidente da câmara municipal se deslocou ao Hotel Ritz, na Rua Rodrigo da Fonseca, para um “encontro de cortesia” com a intérprete de Like a Virgin. De acordo com a SIC, que deu o furo jornalístico, a conversa decorreu no Ritz porque dava “muito nas vistas” se fosse Madonna a deslocar-se à Praça do Município.

Esta terça-feira, na assembleia municipal, o PSD aproveitou a visita de boas vindas do autarca para falar de buracos. Mais concretamente, de um buraco na mesma Rua Rodrigo da Fonseca onde Madonna está hospedada – e que está por tapar há vários meses. Informada do facto de Fernando Medina ter ido “visitar uma estrela pop”, a deputada Margarida Saavedra ironizou. “Das três uma: ou o fez como particular, ou a dita estrela tinha tanto interesse para o turismo que a Associação de Turismo de Lisboa entendeu mandar, nem mais nem menos, o presidente da câmara”, disse a social-democrata.

A deputada, no entanto, inclinava-se para uma terceira hipótese. “O que deduzi é que, indignado com esta situação do buraco, o presidente da câmara foi constatar pessoalmente a situação e deu de caras com a estrela pop.”

Fernando Medina ainda não estava na sala, pelo que a resposta coube ao vereador do Urbanismo, Manuel Salgado. “Não consigo perceber a relação entre um buraco e a Madonna”, declarou o eleito incrédulo enquanto o plenário soltava gargalhadas. Salgado disse que desconhecia a existência de tal buraco. “Será intervencionado hoje mesmo, não por causa da dita Madonna, mas, e aí agradeço ao PSD, porque eu não tinha conhecimento”, disse.

...e para a habitação

Demonstrando que também está atenta ao noticiário cor-de-rosa nacional, a deputada comunista Lúcia Gomes começou por gracejar para, de igual modo, abordar um assunto mais sério. “Se houver alguma delegação para receber o [Michael] Fassbender, teria todo o gosto”, afirmou.

Depois atacou o executivo camarário por causa das políticas de habitação. “Ao mesmo tempo que aqui se instalam os famosos de Hollywood, saem os trabalhadores e as famílias”, afirmou Lúcia Gomes, que acusou Manuel Salgado de ser responsável pelo surgimento de duas realidades conflituantes. “Para os turistas endinheirados, a política do bling bling, com eventos de entretenimento massivos e a descaracterização da cidade; para os trabalhadores, nem casa, nem transportes, nem emprego.”

A deputada comunista defendeu que “a câmara deveria suspender os processos de licenciamento de novas unidades hoteleiras”, o que foi firmemente rejeitado por Manuel Salgado. O vereador disse que foram emitidas 33 licenças para hotéis nos últimos dois anos, o que corresponde a um total de quase 150 mil metros quadrados. “Se deixasse de haver hotelaria em Lisboa e se se transformasse esta área em fogos, seriam 800 fogos. É evidente que 800 fogos é importante, mas eu pergunto: quantos empregos e quanta riqueza se criou por termos o turismo que temos?”

Até ao fim da sessão, dedicada quase exclusivamente às perguntas dos deputados à câmara, a cantora americana foi ainda mencionada por duas vezes. Na primeira, a social-democrata Rosa Carvalho da Silva queixou-se de não ter informação suficiente sobre os solos contaminados do Parque das Nações. “Ó senhor presidente, eu sou loira, não sou a Madonna, mas também tenho direito a tranquilidade”, disse.

Fernando Medina respondeu bem-humorado, mas não saciou a curiosidade sobre a conversa com a estrela. “Não quero cometer nenhuma indiscrição, mas eu encontro-me muito mais vezes com a senhora deputada do que com a Madonna.”