Editorial

Viver com mais 20 centímetros

Agora que crescemos 20 centímetros, como disse Marcelo depois da vitória de Salvador Sobral na Eurovisão, já estaremos crescidinhos?

Ninguém foi celebrar para o Marquês, mas a saída de Portugal do Procedimento por Défice Excessivo merecia bem a celebração. Nem que fosse pela raridade: em 15 anos de pertença à moeda única, só por duas vezes conseguimos pôr a cabeça de fora — para logo a seguir mergulhar de novo. Daí os avisos prudentes do Presidente, os alertas pesados de Passos e até a prudência de António Costa: isto é só uma vitória, não é o campeonato.

Mais estranho talvez seja ouvir o Bloco ou o PCP a reagir a este marco ou mesmo aos bons números da economia. E fica a dúvida: agora que crescemos 20 centímetros, como disse Marcelo depois da vitória de Salvador Sobral na Eurovisão, já estaremos crescidinhos?

O que ouvimos ontem permite-nos ter esperança que sim. O que vimos nos últimos tempos também. Marcelo registou-o em Novembro, mas na altura poucos lhe ligaram: “O que é facto é que, fruto do que é uma orientação de regime, assistimos a uma redução do défice de 11,2% em 2011 para 2% em 2016. E um compromisso de redução significativa para 2017.” O Presidente chamou-lhe "um dado adquirido, um consenso de regime não explícito”, fundamental para a sociedade portuguesa. Pois é.

Com a vitória de ontem, talvez seja hora de materializar o consenso. De assumirmos que chegámos a um “novo normal”, aceitando que a liberdade traz responsabilidade, que a Europa implica regras, que o futuro implica aprender com o passado. Assumir que este Portugal já não é o de 2008, quando saímos do défice excessivo aumentando os funcionários públicos e criando PPP. Que Portugal cresceu, sabendo o que é cair no fundo e levantar-se de novo. Que as grandes vitórias não são parciais, nem de um só homem — por mais que se chame Salvador. 

Melhor ainda era que, passado todo este tempo e todas estas desventuras, os políticos percebessem, para além da retórica, que nenhuma vitória é apenas sua. Que o telefonema de Marcelo — a Costa e a Passos — fosse sincera e não táctica. E que o país estivesse preparado para seguir em frente, sabendo dos obstáculos sem se intimidar por eles, ouvindo governos e opositores, medindo resultados, escrutinando discursos e escolhendo caminhos — sempre que chamado a escolher.

A vitória de ontem não deu uma enorme celebração, nem talvez nos tenha dado particular alívio. Mas é também por isso que ela merecia uma ida ao Marquês, para celebrar. Porque aprendemos a conviver com as vitórias e a vê-las sempre como efémeras. Se for assim, acabamos a recuperar o metro e meio que Pacheco Pereira viu perdidos pelo caminho.