Um museu para contar uma história que vai do Irão a Marrocos

O director do museu do Qatar é um dos profissionais que conversam sobre o seu trabalho com o público da ARCOlisboa.

A ARCOlisboa nos dias de montagens
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A ARCOlisboa nos dias de montagens Nuno Ferreira Santos

O marroquino Abdellah Karroum, director do Mathaf — Museu Árabe de Arte Moderna, em Doha, no Qatar, tem a responsabilidade de contar uma história diferente. Para contar a história da arte ocidental, já há quase todos os museus do mundo e por isso a sua missão é mostrar arte moderna e contemporânea do Irão a Marrocos.

Karroum, como contou no fórum da ARCOlisboa dedicado a apresentar o trabalho de vários curadores, explicou como é fazer e comissariar arte contemporânea num contexto tão politizado: “Por exemplo, em Marrocos há um grande debate sobre a igualdade dos sexos, sobre o problema das mulheres não receberem o mesmo que os homens quando herdam dos pais. Isto para dizer que os artistas podem abordar coisas muito específicas como esta, mas ao mesmo tempo desenvolverem o seu vocabulário.”

Se o Mathaf, como museu público, é 100% financiado pelo Governo, Karroum disse a Miguel Amado, o moderador da sessão, que o seu trabalho é acompanhar os artistas e levá-los até ao público, não muito diferente do que faz no L’appartement 22, o espaço de arte independente que fundou em Rabat, onde os limites são os próprios valores do curador: “No Mathaf, há espaço para fazer as coisas, se está a perguntar se há alguma pressão do Governo.” Os museus no Qatar, acrescentou, fazem parte do projecto educacional para formar as futuras gerações.

Abdellah Karroum é um dos dez curadores que vieram falar do seu trabalho à feira de arte contemporânea que decorre na Cordoaria Nacional até este domingo. Escolhidos por Miguel Amado entre os convidados do programa para profissionais da ARCOlisboa, todos, à excepção de um, trabalham fora de Portugal, tal como o próprio moderador, que é curador do Middlesbrough Institute of Modern Art, no Reino Unido.

O mais relevante é conhecer o público para que se trabalha e Doha, lembrou o director, “é uma cidade com dois milhões de habitantes em que 80% dos habitantes são estrangeiros e em que a desigualdade salarial é muito maior do que na Europa”.

O Mathaf é um museu público num país que já foi identificado, por meios especializados como o Art Newspaper, como um dos maiores compradores de arte contemporânea do mundo, com artistas como Damien Hirst e Ricard Serra a fazerem projectos especiais para a cidade ou para o deserto. Se Karroum não revela qual é o orçamento anual que tem para fazer compras para a colecção, adiantou que já adquiriu, desde que chegou, mais de dois mil trabalhos novos, porque “encontraram muitos buracos na colecção”.

“Temos bons recursos”, acrescentou, revelando que compraram várias obras do artista marroquino Farid Belkahia (1934-2014), um nome fundamental do modernismo pós-colonial. Não lhe interessa fazer a mesma coisa que o Whitney Museum, de Nova Iorque, “mas criar uma colecção e uma história alternativa que vai do Irão a Marrocos”. Os trabalhos históricos, porém, tornaram-se muito difíceis de encontrar: “Há muita competição. É preciso negociar e ter muito cuidado com a proveniência. Mesmo nos leilões, há coisas que não são originais. Preferimos comprar directamente aos legados dos artistas.”

Dessa estratégia fazem parte nomes de mulheres artistas como Saloua Raouda Choucair (1916-2017), uma libanesa pioneira da arte abstracta que foi aluna de Fernand Lèger, ou Inji Efflatoun (1924-1989), uma pintora activista egípcia, ou ainda Baya Mahieddine (1931-1998), a artista argelina que era amiga de Matisse e André Breton. Nas obras que o Mathaf tem expostas, num museu que é gratuito, metade foram feitas por mulheres, esclarece o director, embora essa paridade esteja longe de acontecer na colecção.

“[Para mais,] podemos ajudar um artista a construir o seu corpo de trabalho”, acrescentou o director. Adiantou que um dos vídeos que encomendaram a Wael Shawky, o artista egípcio que tem exposto em todo o lado, ultrapassou o meio milhão de euros. “Cabaret Crusades é um trabalho muito experimental e foi mostrado pela primeira vez no museu. Queríamos ter artistas que representassem as cruzadas.”

Além de Cabaret Crusades, inspirado no livro de Amin Maalouf As Cruzadas Vistas pelos Árabes, o museu também encomendou o vídeo Al-Araba Ala Madfuna, inspirado no romance de Mohamed Mostagab, que teve um orçamento de 150 mil euros. O artista, que reflecte sobre as questões da identidade e da escrita da história, fala aqui de uma comunidade que se dedica a adorar animais até que os seus habitantes se transformam em seres híbridos.

De seguida, foi a vez de a curadora Markéta Stará Condeixa falar da experiência que é abrir um espaço de arte independente em Lisboa — o Syntax. Ela, que chegou há mais de três anos por razões familiares, diz que ficou surpreendida por haver tão poucos espaços com objectivos não comerciais como o Kunsthalle Lissabon. “Senti a falta destes espaços vibrantes, mais jovens, que mostrem coisas experimentais e emergentes.”

Estas sessões com os curadoresfazem parte de um programa mais vasto de conferências, debates e encontros profissionais organizado pela ARCOlisboa.