Opinião

Trump no reino das decapitações

As viagens à Arábia Saudita e a Israel confirmam a atração de Trump pela extrema-direita em detrimento da paz e do primado do direito internacional.

Ninguém duvidará que a primeira viagem ao estrangeiro de Donald Trump, o Presidente do país mais poderoso do mundo, foi objeto de consideração ponderada dos mais diversos pontos de vista. É de presumir, não obstante a confusão que vai reinando na Casa Branca, que a viagem tenha sido analisada ao pormenor mais ínfimo. Segundo as mais recentes notícias, chamou Kissinger e uns tantos experimentados na diplomacia, tal é o medo de um espalhanço à Trump.

E, na verdade, olhando para a saída de Trump, não foi por acaso que ele escolheu a Arábia Saudita e Israel. Está-lhe no talhe. Vai participar na Cimeira da NATO na Bélgica e do G7 na Itália, seguindo depois para o Vaticano (um Estado muito especial). A participação nas Cimeira da NATO em Bruxelas e na do G7 em Itália era quase obrigatória e não se destina a visitar os países onde decorrem, mas a assistir às reuniões magnas daquelas organizações.

Na verdade, a Arábia Saudita, o reino absolutista e impiedoso, tinha de ser o primeiro a ser visitado pelo multibilionário Trump, que pertence à estirpe (em matéria de riqueza, pois no resto a origem social é bastante plebeia) da igualmente bilionária família real Saud.

Ao país onde as mulheres não têm o direito a decidir os cuidados médicos de que necessitam, sendo os homens (marido, irmão, tio, familiares) que decidem o que o médico deve fazer, escondendo muitas vezes que a decisão de não intervir cirurgicamente significa a morte.

Ao país de homens que pretendem enclausurar as mulheres nos serralhos que constroem para que elas não conduzam, para que não caminhem sem companhia masculina, para que se não misturem nos estabelecimentos de ensino e nos transportes.

Ao país em que as mulheres são controladas desde o nascimento à morte pelos homens, não sendo seres portadores de todos os direitos que os humanos detêm.

Ao país que sofre por falta de carrascos que decapitem os condenados à morte na alvorada das sextas-feiras, dia santo para os muçulmanos.

Ao país em que os cristãos e outros crentes não têm o direito de construir qualquer espécie de templo.

Ao país em que as salas de cinema estão proibidas.

Ao país que só no último ato eleitoral permitiu que, em certos círculos, as mulheres se pudessem candidatar, mas como não podem andar sozinhas não puderam fazer campanha e as que usam burka não se sabia quem eram... por estarem tapadas, obrigatoriamente enclausuradas no próprio vestuário. Sem personalidade.

Ao país que aplica a versão mais dura e brutal do islão que a aproxima dos jihadistas do Daesh, que conta com apoios diversos, pelo menos, de gente importante daquele país.

Ao país que, para além de possuir dinheiro como cisco, nas mãos de uns tantos multibilionários, tem a gula de controlar o Golfo e os países vizinhos.

Ao país que há mais de dois anos bombardeia o Iémen para que os seus protegidos fiquem com o poder e o velho berço da civilização árabe fique totalmente à sua mercê, ocupando-o se necessário for ou engolindo uma parte rica em petróleo, apesar dos poços que possui.

Trump, depois da Arábia Saudita, vai para Israel, um país que ocupa territórios da Palestina, e que quer tornar essa ocupação perpétua, assim como ocupa os territórios sírios — os Montes Golan.

Ao país que foi diversas vezes condenado no Conselho de Segurança da ONU e relativamente ao qual há resoluções que desrespeita há décadas.

Ao país que prossegue a construção de colonatos, condenada pelo Conselho de Segurança da ONU, que se insere exatamente na estratégia de impedir que a Palestina se torne independente, como é reclamado por toda a comunidade internacional.

Ao país que também é governado por uma extrema-direita que engloba partidos políticos e correntes religiosas ultra-ortodoxas que querem impedir os elevadores de funcionar ao sábado porque o sábado se fez para descansar, de acordo com o Génesis.

Trump é um entusiasta de Netanyahu e, por isso, a sua eleição gerou um enorme entusiasmo em Telavive. É, entre o monarca absoluto saudita a quem vai vender armas e tratar de outros negócios e o Netanyahu da extrema-direita de Israel a quem prometeu todo o apoio, que Trump se sente bem. Um esmaga, no seu reino de sabres decapitadores, mulheres e a população; o outro esmaga os palestinianos, prendendo-os aos milhares e matando-os.

A visita ao Papa não passa de um manto para esconder a verdadeira natureza da viagem a estes países. Ou, face à formação de Trump, admite-se que nunca tenha lido uma palavra do que Francisco anda a pregar sobre as injustiças, a paz, os emigrantes, os muros e as alterações climáticas, ou a ida ao Vaticano não passa de um biombo para esconder o significado das idas à Arábia Saudita e a Israel.

As viagens à Arábia Saudita e a Israel confirmam a sua atração pela extrema-direita em detrimento da paz e do primado do direito internacional. Olhando para estas primeiras viagens de Donald Trump, poder-se-á dizer “diz-me para onde viajas, dir-te-ei quem és”... E, por isso, começa pelo país dos sabres. Com dificuldades em manter o lote de carrascos. Tal é a força do reino contra o tempo.

O autor escreve segundo as normas do novo Acordo Ortográfico