Editorial

A hipocrisia de Cannes

O mais importante festival de cinema do mundo anunciou que vai boicotar todo e qualquer filme que não seja distribuído em sala de cinema, impedindo todas as obras produzidas por canais de subscrição como o Netflix, a Amazon ou a HBO. Ou seja, em vez de vingar o mérito do filme, vinga a forma como ele chega ao espectador, com prioridade para aquela que é cada vez menos frequentada: a sala de cinema.

Mal vai a sétima arte quando o rótulo de subversão é entregue a uma plataforma de distribuição de filmes ao domicílio. Claro que os organizadores do Festival podem decidir o que lhes apetecer sobre a competição. Mas o movimento da indústria cinematográfica, que quer ditar o local onde os filmes são exibidos, acaba por atacar o público que verdadeiramente sustenta o cinema. É a repetição do mesmo erro que cometeram todas as indústrias vítimas da disrupção digital motivadas pelas novas preferências dos utilizadores. Aconteceu o mesmo à fotografia, à música e aos meios de comunicação, está a acontecer em várias áreas do comércio, dos serviços financeiros – e também no cinema.

A única consequência de enterrar a cabeça na areia é contribuir para acelerar o ritmo da transição. Ou seja, resistir é mesmo morrer – pelo que a única solução é evoluir. E esta recusa é contraproducente. Têm sido precisamente as plataformas digitais a contribuir para a inovação na arte cinematográfica, e muitos dos criadores de cinema têm sido contratados por marcas como a Netflix.

Outro ponto: o cinema europeu que estreia tão orgulhosamente nas salinhas de cinema de Paris é e será sempre de nicho, e se há coisa que o digital tem é a maior facilidade em encontrar audiências de nicho. A multiplicação das plataformas de distribuição ajuda muito a que um produto encontre o seu público, e o cinema europeu altamente subsidiado tem especial necessidade de procurar sustentação no consumidor final. É assim que o cinema independente americano tem sobrevivido e até vingado – como aliás os próprios festivais europeus de cinema têm reconhecido.

Se este festival precisa de uma polémica, há outra bem mais interessante: a xenofobia latente dos organizadores que, pelo segundo ano consecutivo, excluem do cartaz todos os filmes que venham da China. Será possível que, em 24 meses, não exista um único filme proveniente do segundo maior mercado cinematográfico do planeta que seja digno de competir na Croisette? Custa bem mais a acreditar nisso do que na ameaça de um serviço que coloca mais filmes em frente a mais públicos.

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