Temer apostou a presidência numa conversa gravada

Deputados apresentaram pedidos de destituição de Michel Temer, que está a ser investigado por obstrução à justiça. Não é certo que consiga resistir à pressão e se mantenha no cargo.

"Não temo nenhuma delação", afirmou Michel Temer
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"Não temo nenhuma delação", afirmou Michel Temer Ueslei Marcelino/REUTERS

Michel Temer deixou o sistema político brasileiro em suspenso, ao recusar demitir-se da presidência, apesar de múltiplas pressões para se afastar, depois de o Supremo Tribunal Federal ter confirmado que o está a investigar por obstrução à justiça. Não se sabe se o Governo aguenta o embate — havia, nesta quinta-feira, anúncios contraditórios de demissões de ministros e partidos que abandonavam a coligação governamental para depois voltarem atrás. O caos era maior que nunca.

Numa comunicação ao país, transmitida na televisão, o Presidente jurou que não renuncia ao cargo. Exigiu conhecer as gravações feitas pelo empresário Joesley Batista, em que o jornal O Globo revelou que incentivou o pagamento de um suborno para comprar o silêncio de Eduardo Cunha, o antigo líder da Câmara dos Deputados, condenado a 15 anos de prisão por corrupção, e que teve um papel fundamental na destituição da Presidente Dilma Rousseff. 

O Supremo Tribunal acabou por levantar o segredo de justiça sobre a gravação, que chegou ainda nesta quinta-feira à noite ao Palácio do Planalto, para Temer a ouvir — o que estava a acontecer à hora do fecho desta edição. “Essas gravações feitas na clandestinidade trouxeram de volta o fantasma da crise política. Exijo uma investigação plena e rápida para esclarecer o povo brasileiro”, tinha dito o Presidente.

As manifestações contra Temer estão de volta às ruas — milhares de pessoas estão a pedir “directas já”, ou seja, a antecipação das eleições. Mas Temer assegurou que se mantinha no lugar, em nome das reformas. “Indicadores de inflação, de actividade e de emprego criaram esperança de dias melhores. Todo o esforço não pode ser deitado ao lixo”, afirmou Temer, claramente exaltado. “Não temo nenhuma delação.”

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Manifestação em São Paulo Fernando Bizerra Jr/EPA

“A permanência de Temer prolonga a agonia do mercado sobre o futuro das reformas”, comentou o analista Pedro Paulo Silveira, da correctora Nova Futura. “Se se confirmar que o Partido da Social Democracia Brasileira e o Partido Popular Socialista (PPS) desembarcam da coligação, é o fim do governo”, afirmou, citado pelo serviço noticioso Broadcast Político.

Seja como for, Temer dificilmente conseguirá uma trégua. A pressão vai continuar. “Temer é um cadáver insepulto que precisa ser enterrado pelo Congresso Nacional”, afirmou Alessandro Molon, da Rede Sustentabilidade.

Será crucial a reacção de todos às palavras proferidas pelo Presidente na gravação de Joesley Batista. Apesar da sua forte declaração, uma possível saída de Temer do cargo não pode ser descartada. “Assim que as gravações vierem a público e confirmarem as denúncias, a permanência do Presidente ficará insustentável”, disse o economista Marcel Caparoz, da RC Consultores, citado pelo Broadcast Político.

Antes de o Presidente falar, um ministro demitiu-se, Roberto Freire (Cultura). Outro, Raul Jungmann (Defesa), voltou atrás. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes (PSDB), tinha uma carta de demissão pronta. Mas aguardava para saber se o seu partido continuava a apoiar Temer ou não.

O Movimento Brasil Livre, uma página no Facebook com 2,2 milhões de seguidores que exige a demissão do Presidente, convocou um “panelaço”, que aconteceu em várias zonas do Rio de Janeiro. As centrais sindicais apelam não só à demissão, como à realização de eleições. Há muitas manifestações convocadas para os próximos dias, em várias cidades. 

A denúncia a Temer surgiu no âmbito de um acordo de delação premiada feito com a justiça pelos empresários Joesley e Wesley Batista, proprietários do grupo JSB, um dos maiores exportadores de carne congelada do mundo, no âmbito da grande investigação sobre corrupção no sistema politico brasileiro, a Lava-Jato. “Tem que manter isso, viu?”, disse Temer a Joesley, no relato do jornal O Globo, depois de Batista ter explicado ao Presidente que lhe tinha sido pedido que pagasse uma mesada a Eduardo Cunha, para que este não contasse o que sabia.

A queda de Aécio

Há já oito pedidos de destituição de Michel Temer apresentados no Congresso, entre os quais um do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), atingido também pelas gravações de Joesley Batista. A procuradoria pediu a prisão do influente senador Aécio Neves, apanhado a exigir dois milhões de reais a Batista, para pagar as despesas da sua defesa, acusado que está no âmbito da Operação Lava-Jato.

Em Abril, o juiz do Supremo Edson Fachin tinha autorizado a abertura de investigações judiciais contra o senador, noticiava o El País Brasil. Foi um golpe importante contra um político que continuava a ser presidenciável. Em causa estavam suspeitas de financiamentos políticos não declarados e fraudes em concursos públicos para beneficiar a empresa de construção Odebrecht, profundamente implicada na Lava-Jato.

Neves, que enfrentou Rousseff nas urnas nas presidenciais de 2014, continuava a ser um muito possível candidato à presidência em 2018. O juiz Edson Fachin, relator da operação Lava-Jato no Supremo Tribunal, não autorizou a prisão, embora tenha ordenado a sua suspensão do cargo de senador. O PSDB, entretanto, afastou-o da direcção do partido. Dois pequenos partidos apresentaram um pedido de cassação do mandato do senador. 

Aécio Neves sofreu um golpe forte com a prisão de Andréa Neves, sua irmã e gestora da sua carreira política. Foi também detido um primo de Aécio Neves, Frederico Pacheco de Medeiros, que é indicado pelo senador, na gravação de Joesley Batista, como a pessoa indicada para receber o dinheiro.     

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