Opinião

O novo Governo de França

Pela primeira vez em muito tempo emerge num grande país europeu uma solução política ousada e corajosa que apresenta como principal objectivo programático a defesa do projecto europeu.

Há quem diga que os franceses são dados a fazer revoluções pela sua incapacidade em levar a cabo com sucesso qualquer propósito de tipo reformista. Emmanuel Macron parece determinado a pôr em causa este ancestral adágio. O mais jovem presidente da V República Francesa, seguindo a lógica reformista até aos limites do pensável, acaba de apresentar um governo que rompe com o modelo de representação partidária instalado e aponta para uma renovação profunda da vida política francesa. Macron já tinha deixado claro ao longo da campanha eleitoral que considerava relativamente obsoleta a distinção tradicional entre a esquerda e a direita e que se propunha agir em função de novas categorias e dicotomias políticas. Europeísta convicto, a ponto de apresentar como um dos seus principais propósitos eleitorais a vontade de refundação da União Europeia, e adepto da necessidade de uma revalorização política do centro, Macron nunca escondeu a sua pessoal adversidade face aos arquétipos tradicionais da confrontação política francesa. Isso valeu-lhe a oposição declarada de todos os extremismos e até mesmo de alguns sectores mais moderados como aqueles que se podem identificar com o Partido Socialista Francês. A resposta a tais ataques foi agora dada com a apresentação pública do novo executivo francês.

Este novo governo, constituído por homens e mulheres oriundos do centro-esquerda e do centro-direita, que têm em comum, entre outras coisas, uma forte convicção europeísta, remete o novo presidente francês simultânea e paradoxalmente para a génese da V República e para a recordação de alguns dos aspectos essenciais da IV República. Creio que foi Giscard D’Estaing que afirmou em tempos que os franceses desejam ser governados ao centro mas não aspiram a ser dirigidos por centristas. Há nessa afirmação a constatação de um certo cinismo popular. Macron, tal como aconteceu na IV República, parece querer reconstituir em seu torno uma maioria moderada, ladeada por forças críticas à sua esquerda e à sua direita. Na altura essas forças eram constituídas pelos comunistas, por um lado, e pelos gaulistas, por outro. Ao mesmo tempo parece querer prosseguir a mitologia gaulista de alguém que se coloca acima das dicotomias e dos confrontos políticos tradicionais. Apesar de tudo, entre estas duas perspectivas não existe qualquer tipo de contradição insanável.

O governo agora tornado público é de inegável qualidade e dispõe de uma coerência programática que desafia clivagens doutrinárias manifestamente anquilosadas. Congregando personalidades oriundas do centro-esquerda e do centro-direita que partilham uma adesão sem reservas à ideia europeia, o novo presidente francês procura obter uma nova maioria presidencial com características completamente diferentes daquelas que ocorreram nos últimos cinquenta anos. Estamos por isso diante de um verdadeiro terramoto político que não deixará de ter consequências, sejam elas de que natureza forem, por toda a Europa. A principal novidade desta solução consiste na subalternização da velha dicotomia esquerda-direita e na afirmação prevalecente de uma oposição, mais complexa, entre europeístas e soberanistas, entre adeptos de um modelo de sociedade economicamente aberta e defensores do protecionismo, entre apologistas de um reformismo social inovador e prosélitos de um conservadorismo sócio-corporativo. O mérito maior de uma solução política desta natureza reside precisamente na energia transformadora que a poderá vir a caracterizar. O seu principal risco poderá consistir na inexistência a prazo de uma alternativa verdadeiramente liberal e democrática à mesma. De uma coisa não há dúvida: pela primeira vez em muito tempo emerge num grande país europeu uma solução política ousada e corajosa que apresenta como principal objectivo programático a defesa do projecto europeu. Poder-se-á dizer que o mesmo já aconteceu na Alemanha, com a grande coligação, e noutros países onde foram adoptadas soluções governativas fortemente impregnadas de um sentimento político da mesma natureza. Aqui, contudo, há algo de diferente e mais arriscado, já que a hipotética nova maioria presidencial contará desde o início com a oposição beligerante da extrema-direita e extrema-esquerda francesas.

A Europa estava a precisar de um abanão com esta amplitude. Que sejam os franceses a concretizá-lo é algo que não pode deixar de ser devidamente valorizado. A primeira consequência desta reconfiguração política gaulesa foi já visível no encontro ocorrido esta semana entre Macron e Merkel. A Alemanha parece ter percebido, aliás com agrado, que poderá passar a ter na França um parceiro mais interventivo e exigente, algo que, atendendo à importância do bom funcionamento do eixo franco-alemão, só pode ser entendido como uma boa notícia para a Europa. Não terá sido também por acaso que o governo conservador espanhol tenha vindo já reclamar alterações significativas no modo de funcionamento da União Económica e Monetária, bem mais próximas de posições desde há muito assumidas pela família social-democrata do que do posicionamento habitual da direita europeia. Abrem-se sem dúvida novas perspectivas para o projecto europeu. O Governo português, liderado por um europeísta lúcido que proferiu já declarações bastante simpáticas em relação ao novo presidente francês, pode vir a desempenhar um papel importante no processo de reconfiguração da União Europeia que agora se inicia.

2. A secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, deu provas de grande coragem quando numa recente entrevista afirmou peremptoriamente que, se fosse francesa, teria votado Emmanuel Macron logo na primeira volta das presidenciais. Ao fazer esta declaração, aquela que é hoje, por mérito próprio, a segunda figura institucionalmente mais importante do Partido Socialista, afirma um pensamento autónomo e uma personalidade própria. A partir daqui parece-me evidente que o seu destino político deixa de estar dependente do sucesso ou insucesso da presente coligação parlamentar que liga o Partido Socialista ao que de mais arcaico subsiste no panorama político e ideológico europeu. Aproveito aliás este ensejo para lamentar os ataques que lhe têm sido movidos, aos quais não será alheia a circunstância de ser uma mulher.