Entrevista

Constantino Teixeira: “Comecei a estudar aos sete anos e nunca mais parei”

Dos quatro anos de doutoramento para executivos, Constantino Teixeira fez um livro com a sua tese em liderança, para “não ganhar pó nas prateleiras da faculdade” e servir de guia de análise de desvios de orçamentos.Entretanto, criou uma empresa de consultoria que trabalha também no mercado externo.

"Há países que não cometem tantos erros como Portugal nos investimentos públicos", diz Constantino Teixeira
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"Há países que não cometem tantos erros como Portugal nos investimentos públicos", diz Constantino Teixeira Miguel Manso

Engenheiro mecânico de formação e empresário, Constantino Teixeira partiu aos cincos anos do Porto para Lisboa, com os pais e os irmãos. É na capital que permanece até hoje, aos 57 anos. Depois de duas licenciaturas, uma em engenharia no Instituto Militar dos Pupilos do Exército e outra na área dos transportes e telecomunicações no Instituto Superior dos Transportes Portugueses, a gestão pareceu ser o caminho mais acertado a seguir na formação.

Do mestrado no ISCTE ao doutoramento na mesma instituição – DBA (Doctor Business Administration) – a gestão logística, financeira e os recursos humanos eram vertentes nas quais pretendia reforçar nas competências. A última formação, a do DBA, exigiu quatro anos de investimento pessoal e financeiro – o valor total das propinas pode chegar até aos 27 mil euros. Constantino Teixeira garante não ter pensado em desistir, apesar das noites mal dormidas e dos poucos dias de descanso.

Publicou um livro em Setembro de 2016, com base na tese de doutoramento, cujo título é “Guia Prático - Projectos de Investimento Público, em Portugal”. Um dos seus objectivos próximos passa pela criação da sua própria empresa de consultadoria. Os clientes podem até já estar além-fronteiras. O acesso a cargos de administração pública também não está fora da mira de Constantino Teixeira. Para este “portuense emprestado a Lisboa”, os 57 anos não impedem um novo rumo profissional e quem sabe, académico.

Se tivesse de “trocar por miúdos” e explicar a outra pessoa o que é um DBA (Doctor Business Administration), como o faria?
Este doutoramento é essencialmente virado para executivos, com bastante experiência profissional, e que pretendam resolver um problema da sua empresa ou um problema abrangente no Estado e na sociedade, como foi o meu caso. É com base nessa experiência que se vai facilitar todo o processo de investigação: a recolha de dados e os métodos quantitativos e qualitativos. É um programa doutoral e daí o seu nome “Doctor Business Administration”.

A formação de base do Constantino é em engenharia mecânica, mas passou também pela gestão. Encarou este doutoramento como uma necessidade profissional ou como um desafio pessoal?
Acho que foram as duas coisas. Comecei a estudar aos sete anos e nunca mais parei. Senti ao longo da minha vida profissional, a necessidade de melhorar sistematicamente o meu desempenho. Em cada momento, detectei qual era a formação que se adequava à minha função nas empresas. Aliava, por isso, as duas coisas: a necessidade académica e o desafio do saber e do conhecimento, que sempre me orientaram no dia-a-dia.

Este doutoramento é uma forma de ajudar os empresários e gestores a resolver problemas que registaram nas suas empresas. No caso do Constantino, foram os desvios financeiros em obras públicas. Era um problema que o incomodava há algum tempo?
Sim. As obras públicas que se realizaram nos últimos 20 anos em Portugal começavam a preocupar, especialmente quando olhava para os relatórios do Tribunal de Contas e registava desvios enormes face ao que era orçamentado. Os portugueses estavam dispostos a investir num projecto como o Centro Cultural de Belém, com por exemplo 11 milhões de euros e depois verificava-se que custava 180 milhões. Como este caso, há a Casa da Música, a Ponte Rainha Santa Isabel em Coimbra e a Ponte Vasco da Gama. Queria saber o motivo por que que acontecia e como minimizar estes efeitos no futuro. Foi este problema que me motivou a avançar para a realização do doutoramento. No mercado, verifiquei que o DBA era a formação que melhor se adequava a este projecto de investigação.

Na investigação académica, muitos alunos podem optar por problemas particulares, mais relacionados com as suas empresas familiares. A opção por um problema nacional foi mais complicado?
Pode ser mais complicado. Mas um investigador quando parte para uma empreitada destas, como os nossos antigos navegadores, sabe que vai encontrar ventos e tormentas. O processo foi difícil, mas sempre bati a portas como à do Tribunal de Contas, que me disponibilizou o material necessário para fundamentar as minhas conclusões. Na empresa onde trabalhava na altura, a Valorsul, debrucei-me sobre um estudo de caso. Também aqui facilitaram-me a recolha de informação.

As empresas podem ficar a ganhar com funcionários que frequentam este tipo de formação?
Sem dúvida. Porque os funcionários podem estar a pensar em resolver problemas concretos dessa mesma empresa, além de que os estudantes do doutoramento tornam-se fonte de inspiração para os outros colaboradores. O conhecimento é fundamental nas empresas face à competitividade nos mercados nacionais e internacionais. Uma empresa só pode ficar a ganhar com quadros qualificados.

Lançou um livro e foi incentivado pelo júri da tese de doutoramento a fazê-lo, porém nunca teve a vontade inicial e individual de tornar o trabalho acessível a todos?
Nunca tinha pensado, foi depois de o júri da minha tese de doutoramento me ter aconselhado. Desafiaram-me a lançar um livro, dizendo que não podia deixar a minha tese na prateleira do ISCTE a ganhar pó.

Em que é que este livro pode ser útil?
Este livro pode ser útil porque é um guia. Os leitores não vão precisar de fazer investigações no panorama internacional relativamente às melhores práticas. Sabe-se que há países que não cometem tantos erros como Portugal nos investimentos públicos. Também tem os seus erros, mas não com a mesma gravidade. Nos casos da Austrália, dos países do Reino Unido e dos países nórdicos, quando se verificam que os projectos nacionais trazem mais prejuízo do que benefício à sociedade, eles são abandonados. Baseei-me em quatro modelos internacionais e juntei o meu próprio modelo, chamado RG3, para gestores públicos e privados nacionais e reguladores. Seguindo todos os passos do livro, acredito que é possível ter um bom desempenho nos projectos de investimento público e privado.

O doutoramento tem uma forte componente de investigação académica. A maioria dos gestores e empresários estão preparados para esta exigência?
Falo por mim: nunca parei de estudar ao longo da minha vida. Em todas as ferramentas de análise e gestão, o meu cérebro já estava treinado. No programa doutoral, através de um corpo docente muito experimentado, competente e com experiência profissional muito vasta foi-nos também permitido conhecer e aprender as técnicas e as ferramentas científicas, para que os alunos fossem bem-sucedidos na tese de doutoramento.

E os executivos estão sensibilizados para a formação?
A exigência é grande no sector empresarial e reconheço que a maior parte deles não estão preocupados com a componente académica. Recorrem a consultorias, para ajudar a colmatar lacunas que tenham nas áreas de desempenho profissional. Um gestor que tenha tempo para fazer um doutoramento dá-lhe uma grande capacitação para tomar decisões e não recorrer a consultadorias, nas quais as empresas e o Estado gastam muito dinheiro.

Ao longo de quatro anos de doutoramento, que tipo de dificuldades teve o Constantino?
A dificuldade foi a necessidade de encontrar uma tese que desse algum contributo. Durante a elaboração do trabalho, julga-se sempre que tem lacunas e que não vai ao encontro do desafio inicialmente pensado. No entanto, os alunos faziam regularmente apresentações na universidade, para uma monitorização da evolução e tive o feedback dos professores de que ia no bom caminho. Não era para desistir, era para continuar. As dificuldades eram para ser ultrapassadas.

Qual era a regularidade das aulas?
Era uma vez por semana no primeiro ano durante dois semestres. Depois no segundo ano, era uma vez por mês. Os últimos anos eram dedicados ao trabalho escrito e à investigação propriamente dita. Seguindo as recomendações dos professores, comecei a escrever a minha tese logo no primeiro ano, para tê-la concluída no final.

Conseguiu conciliar bem com a vida profissional ou houve muito trabalho de casa?
Conciliar uma investigação deste nível com a actividade profissional e a vida familiar e pessoal é difícil e precisa-se de abdicar de muita coisa. Houve muitos fins-de-semana e férias que não existiram. Mas consoante me aproximava da meta final, a satisfação em apresentar a tese era superior a todos os obstáculos.

São quatro anos de investimento pessoal e financeiro, alguma vez pensou em desistir? Os estudantes de doutoramento acabam por ter o “bichinho” da insegurança, enquanto não terminam.
Nunca pensei em desistir. Entrei com dez anos para o Instituto Militar do Pupilos do Exército. Somos desde pequeninos mentalizados que não podemos desistir. Éramos orientados para comandar pessoas e um líder jamais poderia desistir de uma tarefa, a não ser que haja uma situação grave. Quando tomei a decisão de avançar para este doutoramento, tinha no meu imaginário que ia concluir e já antevia quais eram as conclusões da tese.

A direcção deste doutoramento tem defendido que este se distancia dos convencionais por ser mais personalizado. Sentiu esta diferenciação?
Sim. Este programa tem uma grande especificidade para casos concretos, portanto o ISCTE disponibiliza professores especialistas em cada uma das matérias, para de uma forma individual e personalizada dar esses inputs e o apoio aos alunos, de modo a facilitar o progresso da investigação.

As turmas têm cerca de dez alunos e o que imediatamente se pensa é que numa dimensão pequena há mais oportunidade para a interacção entre colegas. Isto acontece ou os executivos são mais fechados no seu casulo?
Na minha turma éramos oito alunos, com experiências profissionais diversas. Ao fim do primeiro dia e de forma natural, as pessoas já transferem as suas experiências e a entreajuda começa a notar-se. Não há casulos.

A ideia de não expor os erros profissionais inibia ou poderia inibir alguns alunos?
A preocupação não era ver onde nós errávamos, era sobretudo encontrar a solução para o problema.

Mas admitindo que o problema existe?
Sim. A verdade é que as dificuldades são grandes na elaboração de uma tese de doutoramento: são pessoas que têm uma responsabilidade profissional grande, são casados e têm filhos, o que faz com que a disponibilidade de tempo não seja a maior. As pessoas no primeiro ano (principalmente), quando falavam dos problemas que tinham, faziam-no de uma forma desprendida, porque era o local exacto para falar deles.

Havia apenas portugueses na turma?
Apenas um aluno era brasileiro.

Este doutoramento é dos poucos reconhecidos na China no panorama mundial e com uma réplica também no país. Tiveram contacto com alunos chineses?
Não, não tivemos.

E deveriam ter tido?
Sim, acho que sim. Penso que a direcção do doutoramento deve estar a pensar nesse aspecto. O intercâmbio é fundamental, especialmente na projecção internacional de um doutoramento.

Para os alunos, são abertos novos horizontes profissionais fora de Portugal?
Eu acho que sim. Eu fui o primeiro a fazer o lançamento de um livro. Pretendo ser uma fonte de inspiração e motivação para os novos alunos. É possível com algum trabalho fazermos coisas positivas e importantes. Esta experiência pode potenciar a formação e a ascensão profissional dentro das empresas. Por exemplo, eu decidi depois da conclusão da minha tese e do meu livro, avançar para a criação da minha própria empresa de consultoria e já tenho clientes no mercado internacional.

Nunca pensou enveredar pelo ensino?
Vou pedir para dar algumas aulas no doutoramento e assim dar continuidade a todo o investimento que tenho feito. Este doutoramento permitiu-me também concorrer a altos cargos de administração pública.

Surpreendeu-se durante este doutoramento perante as suas capacidades pessoais, profissionais e académicas?
Se me pergunta se alguma vez quis desistir: não. O estar do outro lado da sala, no lugar do aluno, nunca me incomodou, estou habituado a trabalhar com gente jovem, apesar da minha idade. As oportunidades foram muitas, desde partir para a criação da minha própria empresa até à possibilidade de dar aulas e poder transmitir a minha experiência aos quadros mais jovens das empresas.

Agora que terminou, considera que poderia ter feito este doutoramento mais cedo?
Foi no momento certo. É um doutoramento que visa resolver um problema e foi naquela altura que se acendeu a ‘luzinha’ para avançar.