Crítica

A grande invenção dos brancos

Eu Não Sou o teu Negro é uma peça importante para se perceber um pouco melhor o que raio se passa, o que raio ainda se passa, na América destes dias. Com escala em Hollywood, engrenagem fundamental do sistema racista norte-americano.

Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria

O grande choque, conta James Baldwin no texto lido em off por Samuel L. Jackson, aconteceu no momento em que percebeu que, apesar de se identificar com o herói Gary Cooper, o herói não se identificava com ele – e que portanto ele, “índio”, negro, não-branco, era o inimigo. A virtude maior do filme de Raoul Peck sobre o legado de Baldwin é saber pegar nas questões de imagem e de representação (dos negros americanos) e dar-lhes um sentido, material e documental, que às vezes é um pouco mais do que meramente ilustrativo.

A representação cultural precede a representação política, e as palavras combativas de Baldwin voltam insistentemente a este ponto – contar a história dos negros americanos, antes e depois do movimento pelos direitos cívicos, é contar a história de um segmento da população que, durante décadas (ou séculos), não teve direito, pelo menos a uma escala massificada, à auto-representação. Viveu com imagens criadas por outros, retratos de “criaturas que existem apenas na imaginação dos brancos” (dixit Baldwin), sem um espelho (o outro choque, diz Baldwin, é por volta dos cinco anos, quando “o negro percebe que não é branco”). Se o diálogo é ainda impossível, ou pelo menos muito difícil, é porque o “negro” é uma “invenção do branco”, ouvimos ainda nas palavras de Baldwin, possuidoras de um eco singularmente godardiano (quando o franco-suíço fala, por exemplo, da Palestina como uma “projecção” de Israel).

Não espanta, pois, que para além das fortíssimas e complexas palavras de Baldwin (que o filme, na locução sóbria de Jackson, restitui sem pedagogia nem floreados), boa parte de Eu Não Sou o teu Negro repouse em imagens – imagens do cinema clássico americano (“reflexo de um mundo racista” mais do que entidade especialmente racista, como Baldwin frisa), imagens da publicidade, retratos falsos, fantasiosos, ofensivos.

E depois, o seu contracampo, os mártires (os três amigos que estão na base do texto de Baldwin: Medgar Evers, Martin Luther King e Malcolm X, todos assassinados), os humilhados, os linchados, os cadáveres que são cadáveres por  nenhuma razão para além de serem negros. Peck encontra as imagens que sustentam o texto de Baldwin, ou com que o texto de Baldwin dialoga, e por vezes, somando dois mais dois, vai um passo em frente; como naquele momento, perto do final, em que o texto de Baldwin comenta que o mundo representado pelo rosto de Doris Day nunca foi realmente confrontado com o mundo representado pelo rosto de Ray Charles, e Peck faz suceder a um plano do rosto choroso de Doris Day, como um contracampo imaginário, o documento fotográfico de um negro sumariamente enforcado num tronco de árvore.

Amplamente documentado, e com muitas imagens de intervenções públicas e televisivas do próprio Baldwin, montado com dinamismo, Eu Não Sou o teu Negro é uma peça importante para se perceber um pouco melhor o que raio se passa, o que raio ainda se passa, na América destes dias.