Museu da Farmácia comprou ordem de detenção do médico de Hitler

O documento que levou à detenção de Karl Brandt, o médico de Adolf Hitler, já se encontra em Lisboa. Não é o único: faz parte de um lote de outras seis ordens de detenção de nazis logo após a Segunda Guerra Mundial.

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Ordem de detenção de Karl Brandt, o médico de Hitler Rui Gaudêncio
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Ordem de detenção de Karl Brandt Rui Gaudêncio
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Ordem de detenção de Hermann Schmitz Rui Gaudêncio
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Ordem de detenção de Fritz Meer Rui Gaudêncio

Há uma vitrina com documentos acabados de chegar logo na entrada da sala de exposições do Museu da Farmácia, em Lisboa. São documentos simples mas que têm nomes sonantes da Alemanha nazi. São eles: Karl Brandt, Fritz Meer e Hermann Schmitz. “São estes os documentos que os levaram aos julgamentos de Nuremberga”, diz em voz bem confiante João Neto, director do Museu da Farmácia, em frente à vitrina. “Tinham mesmo de fazer parte da colecção do museu.”

Além dos três documentos já expostos, há mais quatro ordens de detenção de personalidades associadas ao regime nazi. Ao todo, o Museu da Farmácia comprou estas sete ordens de detenção num leilão em Inglaterra, em Novembro do ano passado. E qual o preço? “O valor é imenso, porque é o valor da humanidade”, responde ao PÚBLICO João Neto, sem, no entanto, revelar o montante.

Os documentos permitiram levar nazis aos julgamentos de Nuremberga, na Alemanha. Organizados pelos Aliados logo depois da Segunda Guerra Mundial, os Julgamentos de Nuremberga, entre 1945 e 1946, condenaram responsáveis militares, políticos ou económicos. Houve depois os Processos de Guerra de Nuremberga, contra médicos, juristas e outras pessoas ligadas ao regime nazi, onde se incluem estas ordens de detenção que agora vieram para Lisboa.

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Ordem de detenção de Hermann Schmitz DR

Um dos documentos mais “sonantes” é a ordem de detenção de Karl Brandt, o médico pessoal de Adolf Hitler e um dos principais responsáveis pelo programa Aktion T4 – a abreviatura de Tiergartenstraße 4, a morada de uma casa no bairro Tiergarten, em Berlim, onde funcionava a sede deste programa de eugenia e de extermínio, para uma “higiene da raça”, e que esteve na origem do assassínio de milhares de pessoas com deficiências físicas ou mentais através de injecções letais, fome ou em câmaras de gás. Oficialmente, o programa T4 decorreu entre 1939 e 1941, mas até 1945, no final da Segunda Guerra Mundial, continuou a assassinar pessoas.

“Uma das características das ditaduras é a utilização de uma linguagem eufemística”, disse Esther Mucznik, presidente da Memoshoá (Associação Memória e Ensino do Holocausto), sobre a utilização da palavra “eutanásia” no programa T4 na conferência “Desumanidade e Justiça: As Experiências Médicas”, que decorreu no Museu da Farmácia esta terça-feira à tarde, a propósito da apresentação das ordens de detenção.

Por isso, Esther Mucznik fez questão de reformular a definição do programa T4: “Era um programa de assassinato, que começou com recém-nascidos e crianças, e depois se estendeu aos adolescentes e adultos. Todos os que eram portadores de uma deficiência física ou mental cabiam neste programa, que foi chamado ‘saúde pública pelos nazis’.” Esther Mucznik salientou ainda que o objectivo era liquidar aqueles que eram considerados “poluidores” da "raça ariana" e “parasitas” da sociedade.

Além de ser um dos coordenadores deste programa, Karl Brandt também fez experiências biológicas em seres humanos que estavam nos campos de concentração. Estas experiências levavam à morte, à desfiguração e à incapacidade destas cobaias humanas. “Era o mestre do assassinato e aquele que estava sempre ao lado de Hitler”, diz-nos João Neto, que menciona algumas das experiências que Karl Brandt praticava em seres humanos, como injecções de bactérias nos ossos, o desmembramento de braços e pernas e a sujeição a temperaturas muito elevadas ou muito baixas. “O seu laboratório era dentro do corpo humano”, frisa o director do Museu da Farmácia.

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Karl Brandt no seu julgamento DR

Karl Brandt foi condenado à morte no processo de Nuremberga contra os médicos, um dos 12 julgamentos dos Processos de Guerra de Nuremberga, e que ocorreu entre Dezembro de 1946 e Agosto de 1947. A 2 de Junho de 1948 foi enforcado.

A acompanhar a ordem de Karl Brandt veio também para Portugal a ordem de detenção de Fritz Meer, director do consórcio de empresas químicas IG Farben, e de Hermann Schmitz, presidente do consórcio. O IG Farben tinha, por exemplo, a patente da Zyklon B, o pesticida usado nas câmaras de gás dos campos de concentração nazis. Este consórcio tinha também uma fábrica de borracha no campo de concentração de Auschwitz, na Polónia. Ambos foram condenados no “processo IG Farben”, que decorreu de Agosto de 1947 a Julho de 1948. Fritz Meer foi condenado a sete anos de prisão e Hermann Schmitz a quatro anos.

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Ordem de detenção de Hermann Schmitz, presidente da IG Farben Rui Gaudêncio

Outras das ordens de detenção adquiridas dizem respeito a Hermann Röchling, um industrial alemão, e Edmund Freiherr von Thermann, embaixador alemão na Argentina. Assim como a de Fritz Thyssen, industrial, e Hjalmar Schacht (envolvido no atentado a Adolf Hitler em 1944), político e banqueiro alemão responsável pelo fim da hiperinflação alemã e que chegou a ser ministro da Economia do III Reich, entre 1934 e 1937. Estes dois últimos foram os únicos que acabaram por ser libertados.

Parte delicada da ciência

“São peças muito simples, são papéis escritos, que, se calhar, pouco podiam representar”, começou por dizer João Neto na sua apresentação na conferência “Desumanidade e Justiça: As Experiências Médicas”. “Quando tivemos a possibilidade de adquirir as ordens de prisão destes bastardos, não olhámos para trás. Elas contam a vitória do homem contra a dor”, explicava, ao referir que estes “bastardos” do regime nazi acabaram por ser julgados pela democracia ao irem a tribunal.

João Neto contou também que houve dois testemunhos essenciais para si na percepção que tem hoje da barbárie na Segunda Guerra Mundial. Um desses testemunhos já o ouve por volta dos seus nove anos: é tio do seu cunhado, o militar inglês, James Edgar Bath, que esteve no desembarque na Normandia. Outro dos testemunhos é mais recente e é do farmacêutico norte-americano, Melvin Libermann, que foi um dos militares que “abriram as portas” do campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha. “Ele fez-me um relato preciso da guerra e disse-me: ‘Vi os olhos de quem cheirou, de quem viu e de quem sentiu a guerra.’ E ele foi dos primeiros a tratar dessas pessoas.”

Depois da conferência, João Neto reforçou ainda a relevância da aquisição destes documentos: “É muito importante abrir estas janelas.” E por que vêm para o Museu da Farmácia? “Este é um museu de farmácia, mas é sobretudo um museu do homem. Esta é uma parte delicada da ciência e o Museu da Farmácia, que, sendo esse museu da história do homem, não pode fechar os olhos [a este período da História].”

Irão ser organizadas visitas para que se possa compreender bem estes documentos, revelou João Neto, e eles vão fazer parte de uma secção dedicada à Segunda Guerra Mundial. Além destes documentos, o museu conta com duas mochilas dos médicos do desembarque da Normandia, um desenho de um médico inglês quando era prisioneiro de guerra dos japoneses e uma mala de enfermagem das SS, organização nazi. Quanto aos quatro documentos que ainda não estão expostos, não deve tardar muito a virem a público, de acordo com João Neto. “São peças importantíssimas para a humanidade, que estão no nosso país e que fazem parte de um museu que conta a história do homem”, realça de novo para que a memória do Holocausto não se perca no tempo.