O fantasma do impeachment entrou na Casa Branca e sentou-se à porta da Sala Oval

A política norte-americana ficou refém das suspeitas de obstrução à justiça. A destituição é um cenário distante, mas o Partido Democrata não fala de outra coisa e o Partido Republicano já admite uma comissão independente.

Foto
A Câmara dos Representantes e o Senado querem ouvir o ex-director do FBI, despedido por Donald Trump Carlos Barria/Reuters

Há mais de um ano que a conversa é sempre a mesma: o Partido Republicano também tem os seus limites e, mais cedo ou mais tarde, vai a) impedir Donald Trump de ser o seu candidato oficial à Casa Branca, b) acertar o passo ao magnata Donald quando ele tomar posse como Presidente Trump ou c) concordar com o Partido Democrata e finalmente admitir que o país precisa de outro líder. As alíneas a e b já passaram de prazo, mas agora os olhos de jornalistas e políticos em Washington estão fixados na alínea c – depois de o ex-director do FBI ter acusado o Presidente de tentar travar uma investigação criminal, estará mesmo a formar-se uma tempestade que pode arrancar Donald Trump da Casa Branca antes do prazo previsto?

Em apenas quatro meses de vida, a Administração Trump tem passado mais tempo a apagar fogos, muitos deles ateados em casa, do que a aproveitar a maioria do Partido Republicano nas duas câmaras do Congresso para cumprir muitas das promessas feitas na campanha eleitoral.

Até à semana passada, os casos iam sendo resolvidos pelo próprio Donald Trump, mais tweet menos tweet – tudo não passava de uma campanha dos jornais e das televisões contra ele. E a verdade é que havia pouco por onde pegar, para além da imprevisibilidade que Trump levou da campanha para a Casa Branca.

O verdadeiro problema começou na semana passada, quando o Presidente decidiu despedir o então director do FBI, James Comey, que era o responsável máximo pela investigação criminal sobre as suspeitas de ingerência russa nas eleições do ano passado. Depois, já no início desta semana, o jornal Washington Post noticiou que Trump revelou segredos sobre uma operação dos extremistas do Daesh durante um encontro com o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, na Casa Branca. Sabe-se agora que a fonte desse segredo são os serviços secretos de Israel – um país que tem interesses muito diferentes dos da Rússia.

Em nenhum dos casos há bases para algo mais do que a repetição de uma ideia que o Partido Democrata e metade do eleitorado norte-americano tem vindo a manifestar desde que se soube que Trump ia candidatar-se a Presidente dos EUA: segundo eles, o magnata do imobiliário tem a competência de um papagaio e a atenção de um peixinho dourado. No máximo, a Administração Trump ficou ainda mais exposta à desconfiança dos seus adversários internos quanto à investigação sobre a Rússia e à dos seus aliados externos quanto à partilha de informações sensíveis.

No primeiro caso, o Presidente dos Estados Unidos tem poderes quase ilimitados para despedir o director do FBI, e nem sequer lhe é exigido que apresente uma justificação sólida; no segundo caso, o Presidente dos Estados Unidos tem poderes para desclassificar qualquer informação, por mais secreta que seja: basta-lhe falar sobre ela para que o rótulo de confidencial seja imediatamente retirado da pasta.

Mas o que se ficou a saber na noite de terça-feira, através do New York Times, não tem comparação com qualquer outro caso nestes quatro meses de Administração Trump.

Suspeitas de obstrução à Justiça

Segundo o jornal, o ex-director do FBI apontou num bloco de notas os pontos principais das conversas que foi tendo com o Presidente, registando o que considerava ser uma investida de Trump para o levar a deixar cair a investigação ao ex-conselheiro de Segurança Nacional Michael Flynn – o general que foi forçado a demitir-se em Fevereiro depois de se ter sabido que falou com o embaixador russo em Washington sobre as sanções aplicadas à Rússia e não reportou esse facto ao vice-presidente, Mike Pence.

"Espero que deixe isto cair, que deixe cair isto do Flynn. Ele é um bom tipo, espero que deixe isto cair", terá dito Donald Trump a James Comey na Sala Oval, numa reunião no dia 14 de Fevereiro, um dia depois da demissão de Michael Flynn. De acordo com o jornal, essa reunião na Sala Oval juntou várias pessoas, incluindo o procurador-geral, Jeff Sessions, e o vice-presidente, Mike Pence, mas no final Trump quis ficar a sós com Comey.

A Casa Branca desmentiu que o Presidente tenha alguma vez pedido ou exigido ao director do FBI que desistisse da investigação a Flynn, e agora ficam duas hipóteses – ou é o Presidente dos Estados Unidos que está a mentir, ou é o ex-director do FBI que está a mentir. De acordo com as notas de James Comey citadas pelo New York Times, a única coisa em que ambos concordaram na reunião foi que Michael Flynn é "um bom tipo".

A existência das notas de James Comey foi confirmada por muitos outros jornais e estações de televisão – nenhum deles obteve as notas do ex-director do FBI, mas o que lá estava escrito foi-lhes lido por pessoas próximas de Comey. Esta notícia – que dificilmente teria surgido se o ex-director do FBI não quisesse que fosse tornada pública – foi publicada quatro dias depois de Trump ter ameaçado Comey através do Twitter: "O James Comey que reze para que não haja 'gravações' das nossas conversas antes de começar a passar informação à imprensa!"

A sequência deste caso não é inocente. Ao permitir a revelação de que foi tomando notas sobre as conversas com o Presidente, o ex-director do FBI já sabia que poderia ser intimado pelo Congresso a entregá-las, deixando assim Donald Trump numa situação difícil: ou as contradiz com as gravações que diz ter, ou vê a sua credibilidade posta ainda mais em causa.

Incómodo no Partido Republicano

A versão de James Comey vai ser posta à prova nos próximos dias, graças à iniciativa de um membro do Partido Republicano. Jason Chaffetz, responsável pela Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes, deu até ao dia 24 de Maio para que o director do FBI em exercício, Andrew McCabe, entregue os memorandos de James Comey – se isso não acontecer, o responsável disse estar pronto para intimar o actual director do FBI a fazê-lo. Também a Comissão de Serviços Secretos do Senado quer ler o que James Comey escreveu nas suas notas, e já convidou o ex-director do FBI a comparecer em audições públicas e privadas.

Haja ou não motivos para um pedido de destituição, a verdade é que a pressão sobre Trump está a crescer de hora a hora – no Partido Democrata essa pressão é evidente e normal; no Partido Republicano surgiram algumas vozes a pedir uma comissão independente para investigar as suspeitas de conluio entre a Rússia e a campanha de Donald Trump; e as sondagens indicam que a maioria dos norte-americanos torce o nariz ao despedimento de James Comey e também quer uma investigação independente.

Como o processo de destituição de um Presidente norte-americano é político, a pressão da opinião pública é um indicador muito importante para ir avaliando essa possibilidade – quando (e se) a popularidade de Trump cair dos cerca de 40% para a casa dos 20%, e quando (e se) a esmagadora maioria dos inquiridos afirmar que há motivos para um impeachment, os congressistas do Partido Republicano poderão começar a afastar-se do Presidente, nem que seja para evitarem ser penalizados nas respectivas eleições para a Câmara dos Representantes e para o Senado.

Até lá, os jornais e as televisões vão ficar cheios de congressistas do Partido Democrata a pedirem uma comissão de inquérito independente sobre a suposta ingerência da Rússia, ou mesmo o início de um processo com vista à destituição do Presidente – que foi o que fez na terça-feira Al Green, um membro da Câmara dos Representantes do Partido Democrata.

Mas dificilmente um processo de destituição surgirá de um dia para o outro. Para que Trump seja afastado por obstrução da justiça até 2019, a pressão sobre ele tem de ser tão forte que dezenas de eleitos do Partido Republicano se sintam confortáveis para aprovarem um impeachment – e, mesmo assim, o Presidente seria julgado no Senado e teria de ser condenado. Como o Partido Republicano está em maioria tanto na Câmara dos Representantes como no Senado, é difícil que isso aconteça pelo menos até Janeiro de 2019 – em Novembro de 2018 há eleições para as duas câmaras do Congresso e então tudo pode mudar, se o Partido Democrata reconquistar a maioria.

PÚBLICO -
Aumentar

Por enquanto, há apenas sinais de que alguns membros do Partido Republicano querem deixar a porta entreaberta e recusam-se a comprometer-se com uma defesa incondicional de Donald Trump. O caso mais relevante é o do poderoso líder da Câmara dos Representantes, Paul Ryan – um homem que hesitou em apoiar a nomeação de Trump no Verão do ano passado. Apesar de ter dito que "há pessoas que querem prejudicar o Presidente", Ryan foi cauteloso: "Precisamos dos factos. Temos a obrigação de exercer a nossa supervisão independentemente do partido que estiver na Casa Branca."

Outro conservador, Adam Kinzinger, tornou-se esta quarta-feira no primeiro membro da Câmara dos Representantes do Partido Republicano a pedir publicamente a criação de uma comissão independente para investigar as suspeitas de conluio entre a Rússia e a campanha de Trump. Apesar de defender a posição do Presidente, Kinzinger fez aquilo que seria punível com pena de morte política na Casa Branca: admitir que pode existir algo esquisito nesta história. "O que me tem preocupado é que numa altura tão complicada a esquerda apareça a gritar impeachment. E que outros, na direita, digam que isto não passa de uma conspiração dos media. Provavelmente a verdade está algures no meio, vamos tentar descobrir."