Tem cara de miúdo mas foi eleito treinador do ano na Alemanha

Julian Nagelsmann, o mais jovem treinador na história da Liga alemã, teve uma ascensão fulgurante que culminou com o apuramento inédito do Hoffenheim para as competições europeias

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Julian Nagelsmann é descrito como “uma pessoa muito especial” FOCKE STRANGMANN/EPA

Ele tem idade para ser filho de alguns dos seus adversários e a cara de miúdo não engana: Julian Nagelsmann, que em Julho completará 30 anos, é o mais jovem técnico a assumir o comando de uma equipa na Liga alemã. Ao leme do Hoffenheim desde Fevereiro de 2016, já conseguiu alguns feitos que poucos se atreveriam a adivinhar: contrariou as probabilidades para evitar uma despromoção anunciada em 2015-16 e, esta temporada, conduziu o modesto clube de uma aldeia com pouco mais de 3000 habitantes no sudoeste da Alemanha a uma classificação inédita. O Hoffenheim vai estrear-se nas competições europeias na próxima época – só falta saber se tem entrada directa na fase de grupos da Liga dos Campeões ou se terá de disputar o play-off. Um feito que lhe valeu a eleição como treinador do ano na Bundesliga.

Apesar de contar com o músculo financeiro de Dietmar Hopp, multimilionário com fortuna feita em negócios na área tecnológica, o Hoffenheim não gasta milhões em contratações. Com uma equipa constituída maioritariamente por futebolistas rejeitados por outros clubes (e onde há três elementos mais velhos do que o treinador), surpreendeu tudo e todos ao qualificar-se, pela primeira vez, para as provas europeias. O Hoffenheim ainda não perdeu em casa e foi a última equipa nos cinco maiores campeonatos da Europa a ser derrotada – em Janeiro, na visita ao RB Leipzig. E, tendo até ao momento perdido apenas quatro jogos na Bundesliga esta época, o conjunto orientado por Julian Nagelsmann só fica atrás do Bayern Munique (duas derrotas) nesse aspecto.

E o Hoffenheim até pode gabar-se de ter sido uma das duas equipas a derrubar a equipa de Carlo Ancelotti – a outra foi o Borussia Dortmund. O triunfo de Abril, com um golo solitário de Andrej Kramaric, permitiu ao clube celebrar um triunfo sobre o Bayern pela primeira na história. Os 17 duelos anteriores tinham-se saldado por cinco empates e 12 vitórias dos bávaros.

Por essa altura já toda a gente estava rendida a Julian Nagelsmann. Mas o jovem técnico teve de vencer a desconfiança com que foi recebido. O Hoffenheim anunciou em Outubro de 2015 que seria ele o treinador na temporada 2016-17, mas Nagelsmann viu-se obrigado a antecipar a estreia com a saída inesperada de Huub Stevens, em Fevereiro de 2016. Subitamente atirado aos leões, o treinador de apenas 28 anos não podia enfrentar um cenário pior: o clube era penúltimo na classificação, a sete pontos do primeiro lugar fora da zona de despromoção, mas três meses depois comemorava a continuidade na Bundesliga, com sete vitórias em 14 partidas que valeram o 15.º lugar na tabela, fugindo mesmo ao play-off de manutenção.

“Não dá para descrever o que ele [Julian Nagelsmann] fez no Hoffenheim. Não é apenas um bom treinador, é uma pessoa muito, muito especial. A abordagem dele, a forma como fala com os jogadores e como treina, tudo é especial. Ele analisa exaustivamente cada adversário. Na minha opinião, é um génio”, confessou ao PÚBLICO o director de relações internacionais do Hoffenheim, Lutz Pfannenstiel. “Desempenhou um grande papel no sucesso do clube, mas não depende tudo de uma pessoa. Há o treinador, a equipa e toda uma estrutura ao redor que trabalha muito bem. É como se fosse uma engrenagem, funciona tudo em conjunto e obtém resultados. Conseguiu-se uma excelente combinação de factores”, acrescentou o ex-guarda-redes e único futebolista a ter actuado profissionalmente nas seis confederações que integram a FIFA.

Com uma curtíssima carreira de futebolista interrompida quando tinha 20 anos e estava nas reservas do Augsburgo, devido a uma lesão no joelho que o impediu de continuar, Julian Nagelsmann dedicou-se desde logo à vertente técnica. Pela mão do seu treinador da altura, Thomas Tuchel (actualmente no Borussia Dortmund), começou a fazer análise de adversários. Passou pelas camadas jovens do 1860 Munique e, em 2010, rumou ao Hoffenheim. Ao comando da equipa de juniores, sagrou-se campeão da Alemanha em 2013-14 – e na época seguinte repetiria a presença na final.

O Bayern Munique chegou a movimentar-se para contratar o jovem prodígio para orientar a sua equipa sub-23, mas Nagelsmann rejeitou a abordagem e continuou a ascensão no Hoffenheim. E, assim que a oportunidade surgiu, impôs-se. “Ser treinador de futebol é 30% táctica e 70% aptidões sociais. Cada jogador motiva-se com uma coisa diferente e temos de dirigir-nos a ele de acordo com isso. A este nível, a qualidade dos jogadores à nossa disposição dá garantias que joguemos bem com um bom esquema táctico – desde que as condições psicológicas sejam as adequadas”, disse numa entrevista ao Süddeutsche Zeitung.

“O meu trabalho é como o de um padeiro. Misturo as coisas, meto-as no forno e vejo o que de lá sai”, afirmou Julian Nagelsmann. A receita tem dado resultado. Dois dos pilares desta época vão rumar ao Bayern na próxima época: o defesa Niklas Süle e o médio Sebastian Rudy serão reforços dos bávaros em 2017-18, e não é de descartar que cheguem ofertas por outros. O croata Andrej Kramaric, que leva 15 golos na Bundesliga após ter chegado por empréstimo na época passada, por não ter oportunidades no Leicester City que se sagrou campeão de Inglaterra, é um deles. A cumprir a nona temporada consecutiva na Bundesliga, o Hoffenheim já viu passar alguns nomes familiares, como Luiz Gustavo, Demba Ba, Ibisevic, Alaba ou Roberto Firmino, que viria a transferir-se para o Liverpool.

“Estou convencido que [Julian Nagelsmann] será um grande treinador. Talvez queira orientar outra equipa na Alemanha, ou no estrangeiro. Talvez um dia venha a ser seleccionador nacional. Tem muito boas perspectivas”, previu o próprio seleccionador alemão Joachim Löw, que conduziu a Mannschaft ao título mundial em 2014. O próprio investidor do Hoffenheim, Dietmar Hopp, admitiu que um dia o clube se tornará “demasiado pequeno” para o jovem técnico. Cumprido o primeiro de três anos de contrato, Nagelsmann já não é uma dúvida. É uma certeza.