Crónica

O romantismo de Salvador e o realismo britânico

Agora muita gente tentará resgatar o seu feito, a nação, a música portuguesa e outras coisas que tais. Tretas. A vitória, que é bonita mas dispensa os laivos épicos, é de Salvador e da sua irmã.

Assisti parcialmente à transmissão da final do festival Eurovisão, em Londres, na companhia de alguns britânicos, dois deles a operar na indústria musical local.

Como é evidente não representam nada a não ser a si próprios, o mesmo se aplicando ao comentarista de serviço na transmissão da BBC, o apresentador de TV e comediante Graham Norton. Mas é possível a partir do que se vai ouvindo traçar linhas de pensamento e vislumbrar sintomas de como é que o maior e mais influente mercado da música europeu olha para um acontecimento como a Eurovisão.

Como puro entretenimento. Vibrando com o pitoresco, a encenação ou as relações geoestratégicas entre países que se desenham na parte da votação, mas não atribuindo relevância ou credibilidade artística ao evento. Aliás mesmo do ponto de vista do espectáculo pareceu existir algum desapontamento. Apontavam que antes o elemento kitsch, o imprevisto e uma certa ingenuidade apimentavam a cerimónia. Agora prevalece o profissionalismo estilizado e as sonoridades pop internacionais que tentam ser funcionais, conduzindo a uma certa padronização, como se todos quisessem expor-se na mesma montra.

Salvador acabou por rentabilizar com isso. Não porque a sua proposta tivesse alguma coisa de radicalmente novo, mas porque naquele contexto adquiriu a dose certa de estranheza e familiaridade que não agride, que é confortável e capaz de conquistar.

Não espantou que a partir de determinada altura - quando se percebeu que a canção inglesa não iria ganhar - se torcesse por Salvador. Não tanto pela canção, que o intérprete soube moldar para si próprio, mas pela performance, a forma desarmante como se apresenta, como lida com as arestas e imperfeições, a nudez musical, o quase silêncio, a curva das palavras, desenhando-as para si e, nesse movimento, sendo sem ter de parecer. No final, nem o facto de cantar em português é referido. Fica apenas essa sensação que se assistiu a qualquer coisa elevada e digna, onde alguém conseguiu criar intimidade.

É uma história tantas vezes reflectida na arte e na vida: fazer das fragilidades força. Agora muita gente tentará resgatar o seu feito, a nação, a música portuguesa e outras coisas que tais. Tretas. A vitória, que é bonita mas dispensa os laivos épicos, é de Salvador e da sua irmã.

Foi por ele que muitos ingleses também torceram. Claro que toda a gente queria ganhar e com os ingleses não é diferente, mas estes tinham a sensação que a vitória não seria possível. Tinham uma desculpa: o Brexit. Como dizia alguém: a Europa está zangada com Inglaterra.

Às tantas até o comentador da BBC - que adoptou sempre um tom um pouco sarcástico ao longo da emissão, compatível com o modo como o acontecimento é visto em Inglaterra - teve que assumir que apesar de não ser o seu tipo de música, achava algum encanto ao rapaz que parecia cantar no seu quarto uma canção da irmã.

No discurso de agradecimento, quando aludiu que era a vitória da música com conteúdo contra o descartável é que Salvador criou divisões. É normal. Nas suas palavras cabem inúmeras interpretações e paradoxos, a começar pelo facto de muitos dos que agora o celebram serem os mesmos que ao longo dos anos têm garantido audiências a programas de TV em que apenas se ouve, precisamente, música descartável.

Ao longo das últimas semanas Salvador tem comunicado gestos artísticos, ideias e atitudes que têm encontrado grande ressonância popular. Agora começa uma nova fase. A indústria da música, como qualquer outra, não se define por um sistema de valores rígidos. Pelo contrário. É camaleónica. Absorve com facilidade as críticas, reformula-as e transforma-as em algo seu. Os ingleses sabem-no bem até porque a cultura pop é uma das suas maiores exportações.

Talvez por isso o refrescante romantismo de Salvador é-lhes simpático, mas só até certo ponto. Nisso são pragmáticos. De um realismo frio. Não precisam do festival da Eurovisão para nada. A sua música é ouvida e consumida em todo o mundo e isso basta-lhes. Dificilmente - e daí quem sabe? - algum dia Salvador alcançara o patamar global de Adele ou Coldplay, mas por uma noite toda a gente torceu por ele. Até na capital da cultura popular.