Opinião

Fátima de manhã, futebol à tarde e à noite

O Papa fez bem o seu papel de “bom Pastor”. Apelou aos cristãos para não deixarem sozinhos os deserdados da história, os que vivem na periferia do mundo, os pobres, os deficientes, os presos, os perseguidos.

1. Quando começo a escrever este texto, a máquina mediática que transformou “Fátima”, com a colaboração e contentamento da Igreja, num espectáculo de dois dias começa a virar-se para o futebol. Parece que há alguma probabilidade do Benfica ficar campeão, e por isso, a máquina volta para um terreno que conhece bem e em que está completamente confortável. Se tal hipótese futebolística se verificar hoje, será interessante ver como muitos aspectos do evento serão muito parecidos no ecrã das televisões.

2. Eu não estou a dizer que “Fátima” e uma eventual vitória de um clube de futebol são a mesma coisa, estou a dizer que do ponto de vista mediático vão ser quase a mesma coisa, pelos métodos, pela escolha das imagens, pelo tipo de cobertura, pelos meios utilizados e mesmo pela logomaquia verbal que preencherá os vazios em que não acontece nada, pela sucessão de entrevistas a “populares” para ocupar os terríveis silêncios, os trajectos intermédios, os momentos em que o que acontece não está à vista. O efeito vai do futebol para “Fátima”, porque a banalização de um fenómeno complexo, como é a fé de milhões, no contexto histórico da visita do Papa, é feito pelo mecanismo do espectáculo que o transforma em algo de semelhante a uma vitória desportiva. Com se verá, se for hoje, mesmo muito do vocabulário usado pelos locutores e jornalistas será substancialmente muito parecido.

3. A verdade é que, se o que se passa em Fátima é primeiro que tudo uma demonstração da fé, o mais importante do que lá se passa não é televisionável. É subjectivo, é individual, é íntimo, é uma conversa entre quem acredita e Deus ou Nossa Senhora, e essa conversa não é audível, nem captável pelos microfones. Todo o processo venal e venial de Fátima, o comércio religioso, as excursões, o turismo, o aproveitamento político pelos governos, laicos ou beatos, o uso de Fátima para o catolicismo ultramontano da nova direita “beta”, a captura pelas personalidades do jet set, que ostentam a sua ida a Fátima “com o povo”, mesmo até um vislumbre de eleições autárquicas em Ourém, tudo isto cabe no espectáculo, mas a fé, não.

4. É evidente que a Igreja precisa da religiosidade popular, mesmo quando a quer conter. É um jogo perigoso, porque as novas seitas fazem muito melhor essa exploração. Basta passar por uma dessas imensas salas, que há já um pouco por todo o lado em Portugal, e ver um novo tipo de “bispos” e “apóstolos” se dirigirem aos fiéis em sessões semanais sobre o “crescimento financeiro” na segunda-feira e o “crescimento espiritual” na quarta, sobre “milagres”, e a “bênção da família”. Ninguém é mais consciente da ambiguidade que se vive em “Fátima” do que a Igreja. O Papa foi no mesmo sentido de contenção quando se referiu ao trade off dos milagres, lembrando que Nossa Senhora não é uma “santinha” a quem se podem pedir “favores de baixo custo”. Pouco a pouco, vai tornando psicológico aquilo que antes era corpóreo, vai-se afastando das interpretações literais das aparições, quer em Fátima, quer em Lourdes, quer em Czestochowa, e dando-lhe uma cobertura teológica, mas não pode viver sem a “fé dos simples” e precisa do testemunho colectivo das multidões.

5. Para quem vê de fora, no entanto, todo o processo de “Fátima” permanece contraditório. Por exemplo, por que razão dos três pastorinhos apenas os que morreram cedo, Francisco e Jacinta, são santos e Lúcia, cujo papel em Fátima é muito superior, não é? Entraram no “catálogo dos santos” por que morreram meninos e Lúcia, mesmo que religiosa, teve muitas mais oportunidades de pecar? E depois é preciso encontrar um “milagre” por sua intercessão, “inexplicável” pela ciência, quando é até bastante explicável. No dia em que alguém documentalmente passe a ter um novo braço crescido miraculosamente no local onde havia uma amputação, então a palavra “inexplicável” talvez possa utilizar-se. Mas para uma saída de um coma, que parecia irreversível, mas afinal não era, não é preciso invocar um milagre. Mas isso é porque eu sou incréu, e devia dedicar-me mais a promover a causa da beatificação de um meu parente, o Beato Francisco Pacheco, com altar em Ponte de Lima, martirizado pelos japoneses e que também era jesuíta como o Papa, e que apesar dos esforços do meu avô paterno e das minhas tias-avós, nunca encontrou nenhum milagre para o fazer passar à qualidade de Santo.

6. O Papa Francisco não visitou um lugar neutro, para além da religião e da teologia. A história concreta de Fátima no século XX, é a história da Igreja católica em Portugal, e diga-se a verdade, não é uma história muito dignificante. Foi a Igreja que mudou a “mensagem” inicial das aparições, muito ligada ao contexto da participação portuguesa na I Guerra Mundial, para o anticomunismo nos anos trinta sob o espectro da guerra civil espanhola. Foi a Igreja, na sua ligação íntima com o salazarismo, que envolveu Fátima (e por arrastamento Nossa Senhora) nos “agradecimentos” a Salazar por ter colocado Portugal fora da II Guerra Mundial, e que, voltou nos anos cinquenta, já não apenas ao anticomunismo da mensagem da “conversão da Rússia”, mas na transformação do santuário no palco organizacional de grupos anticomunistas internacionais. Nos anos sessenta, começou a agravar-se o fosso entre o apoio ao regime na guerra colonial e as posições do Vaticano, que culminaram na recepção de Paulo VI aos dirigentes dos movimentos de libertação, que deixaram os dirigentes da ditadura possessos de fúria. As tensões políticas entre a ditadura e a oposição, agravadas pela guerra colonial, entraram para dentro da Igreja e nunca mais de lá saíram até 1974.

7. Embora “Fátima” permanecesse sempre no centro da religião popular dos portugueses, e as peregrinações nunca tivessem esmorecido na sua participação, os anos a seguir ao 25 de Abril, conheceram um certo “luto” pela imagem do Portugal de “Fátima, futebol e fado”. Pouco a pouco, com a própria renovação da Igreja nacional, o santuário voltou ao seu papel tradicional de centro da fé dos portugueses. A ironia da história faz com que o Papa Francisco tenha sido recebido pela multidão com uma palavra de ordem simbólica do 25 de Abril, “Francisco amigo, o povo está contigo”.

8. O Papa fez bem o seu papel de “bom Pastor”. Apelou aos cristãos para não deixarem sozinhos os deserdados da história, os que vivem na periferia do mundo, os pobres, os deficientes, os presos, os perseguidos. Isto é uma das coisas que este Papa faz melhor por que é genuíno nesse apelo e coloca a Igreja no lugar certo do seu papel no mundo. Ele não acha, como alguns dos seus fiéis que a pobreza seja um “efeito colateral”, justificado por um hipotético e salvífico modelo de desenvolvimento, que ele, certamente, entende ser cruel. Na mesma altura em que ele estava a falar em Fátima, um Presidente americano, discursando num colégio evangélico, apelou aos jovens recém-formados para lutarem pelo sucesso e perguntou-lhes quantos quereriam ser presidentes como ele, para levantarem a mão. Não é ocasional, são de facto dois mundos e entre ambos eu prefiro o do Papa Francisco.