Opinião

A domesticação de Fátima

A tese oficial da Igreja, que deveria ser mais conhecida, é esta: Nossa Senhora não apareceu na Cova da Iria, mas dentro da cabeça de Lúcia.

Desde que há três semanas D. Carlos Azevedo, bispo-delegado do Conselho Pontifício da Cultura no Vaticano, concedeu uma entrevista ao PÚBLICO dizendo que “Maria não vem do céu por aí abaixo” e que aquilo que aconteceu em Fátima não foram aparições mas “visões imaginativas”, abriu-se uma magnífica discussão entre prelados acerca do modo como Nossa Senhora foi vista na Cova da Iria, que já envolveu praticamente todos os padres que escrevem na imprensa diária portuguesa – Anselmo Borges no DN, Frei Bento Domingues no PÚBLICO e Gonçalo Portocarrero de Almada no Observador –, além de João César das Neves, que não é padre mas podia ser.

Acompanhar esse debate é muito interessante. Uma das coisas que mais me entristece em certos ateus empedernidos é a forma primária como olham para a fé e para a Igreja, como se os seus tiques jacobinos e mata-frades herdados da Primeira República os impedissem de apreciar não só a imensa riqueza de uma vida espiritual, mas também algo que é do domínio da evidência: a Igreja Católica é uma poderosa máquina de racionalização da fé. São Paulo foi o primeiro a dar coerência lógica a uma mensagem muitas vezes contraditória, e desde o século I que a Igreja não tem feito outra coisa se não procurar delimitar o estado selvagem da crença, tipicamente humano. Pode não se ter qualquer espécie de fé e, ainda assim, apreciar o funcionamento desse aparelho de produzir ordem e sentido que é a Igreja Católica, há quase dois mil anos.

Fátima é um excelente exemplo daquilo a que me refiro. É certo que a sua mensagem é muito pobre quando comparada com a riqueza dos Evangelhos. Frei Bento Domingues não se cansa de repetir isso mesmo. O que habitualmente se faz, para maquilhar tanta visão do Inferno e controlar as incontroláveis Memórias de Lúcia, que continuou a receber visitas de Nossa Senhora muito para além de 1917, é reduzir as aparições e os três segredos a um apelo à conversão. Mas isso já faz parte do processo de domesticação de Fátima, que a hierarquia patrocina desde a década de 20, quando o fenómeno se impôs a ela própria, Lúcia foi cuidadosamente levada para o Porto (com 14 anos), a Igreja comprou as terras circundantes, e a mensagem de Fátima começou a ser teologicamente peneirada.

D. Carlos Azevedo utiliza a expressão “trabalho de mediação” para descrever o processo de filtragem evangélica de Fátima, mas é efectivamente de domesticação que se trata: trazer a fé popular, o desespero do peregrino e a espiritualidade no seu estado mais agreste para o redil lógico e racional do cânone católico. Ao longo de 100 anos não temos assistido a outra coisa. Mesmo a cultura do sacrifício, de que tanto ainda se fala, só subsiste em versão light, com as lajes onde os peregrinos pagam as suas promessas cuidadosamente polidas e os joelhos devidamente almofadados.

Claro que a visão mais tradicionalista subsiste, como se pode verificar pelos textos de Portocarrero de Almada e César das Neves. Mas foi o próprio cardeal Ratzinger quem colocou Fátima no seu lugar: tratou-se de uma “percepção interior que, para o vidente, tem uma força de presença tal que equivale à manifestação externa sensível”. João César das Neves (DN, “A Senhora veio mesmo”) apressou-se a explicar que uma “visão imaginativa” não é o mesmo que uma “visão imaginária”. Certo. Mas a tese oficial da Igreja, que deveria ser mais conhecida, é esta: Nossa Senhora não apareceu na Cova da Iria, mas dentro da cabeça de Lúcia.