Um Salvador Sobral que se revela nas canções dos outros

Antes de Amar pelos dois houve Excuse Me, álbum de estreia de um cantor seguidor da cartilha do jazz vocal. Já então se percebia que aquilo em que Salvador Sobral se evidenciava era na sua qualidade de intérprete.

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Salvador Sobral na altura em que lançou o disco dr
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A capa do disco Excuse Me dr

Uma rápida visita ao Spotify por estes dias revela um facto curioso: se Amar pelos dois é, naturalmente, a canção mais popular de Salvador Sobral, com mais de 650 mil audições, o segundo lugar, Excuse me, queda-se pelas 120 mil escutas. Excuse me foi o single de apresentação do álbum com o mesmo nome que, há um ano, não deixou marcas muito profundas. Algo que nada tem de estranho. O jazz vocal, por estes lados, teve em episódicos entusiasmos com Diana Krall e Norah Jones raras excepções, chegando ainda à justa (embora mais contida) vénia dirigida a Gregory Porter, mas nos últimos anos só em flagrantes casos cruzados de pop, como o de Jamie Cullum ou Melody Gardot, passou de forma mais clara para a transversalidade mainstream.

O Spotify revela também dois factos curiosos a partir da relativamente escassa transição da atenção conseguida por Amar pelos dois para o disco de estreia de Salvador Sobral. Indicia, por um lado, que o início da carreira do cantor poderá ser, afinal, marcado por esta canção, reorganizando-se por completo em torno deste momento, numa espécie de segundo nascimento em que contará muito mais o futuro do que o passado, contará muito mais cada nova canção que Salvador deite para o mundo a partir de agora do que tudo aquilo que tenha feito antes; por outro lado, permite concluir que a perspicácia do público que se deu ao trabalho de vasculhar em Excuse Me deu frutos ao colocar na terceira posição hierárquica Nem eu, a possível canção gémea de Amar pelos dois, tema do brasileiro Dorival Caymmi que o cantor faz cair naquela mesma zona de frágil balada de amor em águas de uma delicadeza imperturbável, de uma dorida candura, a mesma com que navega exemplarmente por Ay amor, bolero do pianista cubano Bola de Nieve popularizado por Caetano Veloso em Fina Estampa ao Vivo.

De facto, aquilo que Excuse Me anunciava com cristalina certeza era a notável capacidade interpretativa de Salvador Sobral. Algo que saía também reforçado na canção (I might just stay away) que a sua irmã, a também cantora e compositora Luísa Sobral, lhe oferecia de acordo com o figurino de Chet Baker, que o cantor português cedo idolatrou. Essa escola dos standards norte-americanos são exactamente a matriz comum aos dois irmãos, que cresceram numa geração em que os jovens valores dos apaixonados pelo jazz em Portugal rumaram com frequência para estudar nos Estados Unidos. Em comum a todos eles esse investimento pessoal numa música que é altamente competitiva e de difícil penetração profissional em território norte-americano (Sara Serpa é a grande excepção de uma voz portuguesa ligada ao jazz que atravessou o Atlântico e resistiu até construir uma invejável reputação e partilhar o palco com nomes de topo).

Enquanto a geração do jazz português estabeleceu pontes com as músicas de tradição portuguesa, aquela a que Luísa e Salvador pertencem, num diferente contexto de globalização, tem preferido atalhar para destinos mais pop. Mas essa que se poderia antecipar como sendo uma característica mais universal é parcialmente contrariada por aquilo que nos diz Amar pelos dois — a recusa do inglês tem, por vezes, um impacto muito maior, ao revestir uma canção ancorada de forma óbvia no cancioneiro americano de uma especificidade e um encanto particulares, menos batidos e vulgares.

Ou seja, Excuse Me — gravado com um trio de jazz de que fazem parte o piano de Júlio Resende, o contrabaixo de André Rosinha e a bateria de Bruno Pedroso — é mais impressionante quando valoriza Salvador Sobral como intérprete e revela-se mais frágil quando o cantor acumula também as autorias. Talvez porque ao compor Salvador esteja ainda a tentar fazer como os seus heróis e imitar-lhes os passos. Deixado “apenas” com a missão de dar vida às canções alheias, estará mais próximo de se esquecer dos seus modelos e deixar a voz seguir livre. Nos primeiros casos, tenta encaixar-se num modelo; nos segundos, parte do modelo para dele se emancipar.