Crónica

Acreditar em Deus

A fé é uma desistência de mestria, de domínio, de arrogância. É um acto de humildade que alivia (do esforço escusado de compreender e saber tudo) e que liberta.

A fé não é fulgurante. É simples. Lembro-me de ser pequenino e acreditar nos anjos da guarda. Mas com essa idade acredita-se em tudo. Parte-se do princípio que todos os seres existem, a começar pelos invisíveis que vivem no fundo do jardim e por aqueles que esperam pela noite para nos assustar.

A fé não é uma prova de superioridade. Nada há de menos atraente do que a satisfação dos crentes olhando com carinho e condescendência para os ateus, abanando as cabecinhas enquanto sorriem e sussurram que não desesperem porque o tempo deles também há-de vir.

Comigo a fé veio do reconhecimento da minha incapacidade, por muito que eu lesse e estudasse, para compreender o que se passava à minha volta. Do "quem sou eu para saber?" veio a consciência de um Deus que sabe. Não uma pessoa, precisamente: um Deus.

A fé é uma desistência de mestria, de domínio, de arrogância. É um acto de humildade que alivia (do esforço escusado de compreender e saber tudo) e que liberta, porque nos deixa ficar nesta vida e neste mundo, mais ou menos contentes com o que temos.

A fé é irrelevante à existência de Deus. Pretender o contrário é mera propaganda. Em nada pode ser melhor a pessoa com fé do que quem não a tem. As palavras mais importantes desta simples verdade são "em nada". O facto das pessoas quererem ser religiosamente indoutrinadas e dirigidas é uma realidade humana que em nada tem - ou pode ter - a ver com a divina. 

Graças a Deus. E independentemente de nós. E muito menos de cada um de nós.

 

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