Trump pediu lealdade ao director do FBI. Comey respondeu que iria ser honesto

O Presidente norte-americano diz ter perguntado directamente ao director do FBI se estava a ser investigado e garante que a resposta de Comey foi negativa.

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Comey soube que tinha sido despedido através dos canais de informação televisava Reuters/Joshua Roberts

Donald Trump despediu na terça-feira o director do FBI, James B. Comey, que liderava uma investigação a supostas ligações entre o Governo russo e pessoas próximas do Presidente norte-americano. Sabe-se agora que Donald Trump terá tido um jantar em privado com o director do FBI, ainda em Janeiro, uma semana depois de ter tomado posse. De acordo com testemunhas citadas pelo New York Times, a conversa de circunstância sobre a campanha eleitoral terá mudado de rumo quando o Presidente norte-americano perguntou a Comey se poderia contar com a sua "lealdade". Comey respondeu que seria "honesto".

No entanto, esta quinta-feira, em entrevista à NBC, Trump descreveu um encontro bem diferente com Comey. O Presidente norte-americano garantiu até que perguntou directamente a Comey se estava sob investigação.

"Perguntei-lhe: se for possível eu saber, diga-me, estou sob investigação? E ele disse: 'não está sob investigação'. [Logo,] sei que não estou sob investigação", relatou Trump, para afastar as críticas ao despedimento de Comey, que questionam o timing da decisão da Casa Branca em afastar o responsável pela investigação sobre um possível conspiração entre agentes do Governo russo e elementos da equipa de Donald Trump durante a campanha eleitoral contra Hillary Clinton. A ter acontecido, a pergunta do Presidente norte-americano terá sido "bastante imprópria" para um líder alegadamente alvo de uma investigação independente, avaliam especialistas citados pelo canal.

Trump garantiu ainda que apoia uma investigação às alegadas interferências de Moscovo no resultado das eleições presidenciais de Novembro e insiste que quer que a investigação seja feita de uma forma "absolutamente correcta".

O jornalista do NBC, Lester Holt, perguntou a Trump se estava “zangado” com Comey devido à investigação em relação à interferência da Rússia. Trump defendeu que "quero apenas alguém que seja competente", justificou Trump, que, na altura da campanha eleitoral teceu fortes elogios à liderança de Comey, pela sua decisão em anunciar a reabertura do da investigação aos e-mails da candidata presidencial democrata Hillary Clinton, a 11 dias da votação. "Sou um grande fã do FBI, adoro o FBI", continuou o líder norte-americano.

Na entrevista, que durou cerca de meia hora, Trump reiterou que a sua decisão de despedir Comey estava a ser estudada ainda antes de receber essa recomendação do procurador-geral, Jeff Sessions. Uma afirmação que contradiz as declarações do seu vice-Presidente, Mike Pence, que justificou a decisão de Trump com base nos conselhos de Sessions.

O despedimento do director do FBI pelo Presidente norte-americano gerou várias reacções, quer do lado dos democratas, quer mesmo do lado dos republicanos, e multiplicaram-se as comparações com o caso Watergate, quando o então Presidente Richard Nixon afastou um dos responsáveis pela condução da investigação de que era alvo e que levou ao afastamento de Nixon da Casa Branca. As dúvidas são também dos próprios norte-americanos, que de acordo com uma sondagem do mesmo canal a que Trump falou esta quinta-feira, considera "inapropriada" a decisão de despedir o director do FBI. De acordo com os dados recolhidos pela NBC, 46% dos norte-americanos acredita que o verdadeiro motivo que levou ao afastamento de Comey são as alegadas relações entre a equipa de campanha eleitoral de Trump e o Governo de Vladimir Putin.

Na mesma entrevista à NBC, o Presidente norte-americano respondeu às críticas e rumores e respondeu que nunca pressionou Comey para que deixasse cair a investigação a Moscovo. O despedimento do director do FBI - algo que só tinha acontecido uma vez na história dos Estados Unidos, com Bill Clinton -, aconteceu um dia antes de Trump receber na Casa Branca o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov.

Questionada sobre a conversa que Trump terá tido com o director do FBI, avançada pelo New York Times, a porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, afirmou que o que Trump pedia era não lealdade para com o Presidente norte-americano, mas para com "o sistema".