Opinião

Interrompemos a programação…

O que merece já aplauso é Salvador Sobral ter aproveitado a ocasião para fazer excelentes declarações sobre a tragédia dos refugiados no Mediterrâneo.

…para falar da Eurovisão. Sim, este concurso anódino está a despertar atenção porque o concorrente português Salvador Sobral pode ganhar com a sua excelente voz e uma canção muitos furos acima do que é habitual naquelas paragens. Mas o que merece já aplauso é Salvador Sobral ter aproveitado a ocasião para fazer excelentes declarações sobre a tragédia dos refugiados no Mediterrâneo. Ele explica-se muito bem, dizendo que “se estou a ter exposição mediática europeia, então mais vale que a use para dizer qualquer coisa que não é política mas humanitária”. Mas, como ele sabe bem que a mensagem humanitária é também política, acrescenta: “não digo que nada esteja a ser feito para salvar os refugiados, mas é preciso ir mais longe para diminuir a burocracia [da reinstalação] e dar às pessoas canais legais para chegar à Europa” sem arriscarem a vida em alto mar.

Isto é simples, mas é justamente aquilo por que têm lutado há anos as pessoas e organizações que entenderam que esta crise de direitos humanos ia chegar e fizeram tudo para a evitar junto dos governos em negação dos estados-membros da UE. Pouca gente sabe, por exemplo, que o Parlamento Europeu pôs os governos nacionais e a agência Frontex em tribunal (e ganhou) para exigir que houvesse salvamentos a náufragos nas operações europeias e que a marinha italiana não pudesse empurrar humanos em perigo para Malta ou para África como no vergonhoso caso de 2013 que foi conhecido em pormenor esta semana. Houve muitas vidas que se salvaram a partir daí, mas o resultado é tragicamente insuficiente. A morte de milhares de refugiados no Mediterrâneo continua a ser o grande escândalo moral dos nossos tempos para os países europeus, a UE, e o mundo.

As declarações de Salvador Sobral e o instantâneo efeito de propagação que elas tiveram são mesmo a melhor prova de algo com que eu desejaria concluir a série de três artigos desta semana: há na população europeia uma incompreensão (aliás perfeitamente compreensível) com a incapacidade do projeto europeu em sair do seu umbigo e transformar-se em algo de muito mais ambicioso em termos de valores humanos. Ou, por outras palavras, há entre nós uma apetência muito maioritária para fazer da União Europeia uma potência moral.

Isto dito assim pode parecer estranho, mas a UE já é uma potência: agregadamente a primeira ou segunda maior economia do mundo e certamente o maior mercado; o terceiro maior conjunto populacional a seguir à Índia e à China; uma super-potência global em termos científicos, culturais e turísticos; o único embrião viável de democracia transnacional no mundo; uma voz diplomática emergente contando quase sempre com cinco ou seis votos no Conselho de Segurança da ONU (pelo menos um permanente, a França, mesmo depois do Brexit). Não há que negar os problemas: a UE vai mal, o euro tem ainda problemas graves, e o projeto europeu passou por uma experiência de quase morte nas passadas eleições francesas. Mas a presença de Trump nos EUA, Putin e Erdogan na Rússia e na Turquia, e até o contra-exemplo do "Brexit" num Reino Unido cujo governo sempre tentou bloquear a Europa Social e a Carta dos Direitos Fundamentais, libertam paradoxalmente a UE para outro voos. Se é verdade que o euroceticismo é grande, maior ainda é o "euroceticoceticismo": as eleições francesas foram um referendo às ideias de saída do euro e desintegração europeia e provaram que os eurocéticos de há anos ou décadas continuam sem conseguir alinhar propostas minimamente convincentes. E é aí que, depois de se ter descido tão baixo, só uma grande ambição moral poderá relegitimar o projeto europeu.

Isso, claro, implicaria que líderes nacionalmente cobardes se tornassem continentalmente corajosos: nas obrigações humanitárias, no combate às alterações climáticas, na prosperidade partilhada. Mas o que é determinante acima de tudo é que nós cidadãos exijamos a todo o momento que a UE esteja à altura das obrigações deste continente historicamente trágico e rico. Cantar bem é só para alguns, mas isto vale para todos: ninguém pode ter vergonha de fazer as mais simples das perguntas. Se não nós, quem? Se não na Europa, onde?