Apoio dos partidos “levou greve dos médicos para outro patamar”

Sindicatos esperam que pressão dos partidos obrigue o ministro da Saúde a estar na mesa das negociações. Greve termina nesta quinta-feira.

Os dois sindicatos médicos chegaram a apelar à intervenção do primeiro-ministro
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Os dois sindicatos médicos chegaram a apelar à intervenção do primeiro-ministro Nuno Ferreira Santos

O segundo dos dois dias de greve dos médicos manteve a adesão nos 90%, segundo os números a avançados pelos sindicatos. No entanto, para o secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), Jorge Roque da Cunha, mais do que a adesão “muito expressiva”, há outra coisa a destacar: o apoio que BE, PCP, PEV, PSD e CDS demonstraram perante o protesto dos clínicos “levou a greve dos médicos para outro patamar” e vai “obrigar” o Ministério da Saúde a “encarar as futuras negociações com seriedade”.

Roque da Cunha, num balanço ao PÚBLICO sobre os dois dias de greve dos médicos que terminaram nesta quinta-feira, afirmou que “o nível de adesão foi semelhante em ambos os dias e ultrapassou os 90%”. O sindicalista dá alguns exemplos das unidades mais afectadas, como os blocos operatórios do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, do Hospital de S. José, do Hospital de Santa Maria e do Hospital do Litoral Alentejano, onde a adesão foi de praticamente 100%. Nos centros de saúde também ficaram várias consultas por fazer. O protesto foi convocado pelo SIM e pela Federação Nacional dos Médicos (Fnam), contanto também com o apoio da Ordem dos Médicos e da CGTP.

Num comunicado conjunto sobre o final da greve, a Fnam e o SIM agradecem aos médicos pela adesão e aos doentes pela compreensão. Sobre os motivos do protesto, os sindicatos insistem que a greve não foi feita apenas por motivos corporativos. "Os médicos, enquanto classe profissional com uma missão insubstituível na sociedade, não podem continuar a ser tratados desta forma irresponsável e a serem obrigados a desenvolver a sua acção laboral em condições de trabalho crescentemente degradadas", justificam. 

O Ministério da Saúde continua sem avançar números da greve, remetendo para o mesmo comunicado da semana passada em que elencava vários temas em relação aos quais foi possível chegar a acordo com os sindicatos e em que se recusava a negociar sobre pressão. No entanto, antes da greve, os próprios hospitais antecipavam que precisariam de pelo menos dois meses para recuperar as cirurgias, exames e consultas que ficariam por fazer – já que aos dois dias de paralisação é preciso somar os efeitos da tolerância de ponto dada pelo Governo para esta sexta-feira, devido à visita do Papa.

Sem novas datas para reunir com ministério

O secretário-geral do SIM confirma que ainda não há novas datas de reunião para retomar as negociações com o ministério de Adalberto Campos Fernandes. No entanto, destaca que as declarações feitas na quarta-feira pelos vários partidos, durante o debate quinzenal com o primeiro-ministro, “levam a greve dos médicos para outro patamar e ultrapassam o quadrante sindical”. Roque da Cunha recorda que Jerónimo de Sousa, Catarina Martins, Heloísa Apolónia, Assunção Cristas e Luís Montenegro, “confrontaram o primeiro-ministro”, durante o debate do Parlamento, com o protesto dos médicos, “manifestando solidariedade”.

Os sindicatos esperam, por isso, que “as negociações sejam retomadas com seriedade e que seja possível chegar rapidamente a acordos”. Com esta greve os representantes dos médicos pretendiam também “obrigar” o ministro da Saúde a estar presente em todas as reuniões, como acabou por acontecer com o ministro Paulo Macedo depois da paralisação de 2012.

As reivindicações dos sindicatos são várias, mas consideram que há três pontos que merecem uma resolução mais rápida: os médicos querem reduzir de 200 para 150 horas anuais o volume de trabalho extraordinário a que estão obrigados e encurtar de 18 para 12 horas semanais o tempo de trabalho que têm de fazer nas urgências. Outras das exigências passa por reduzir o número de utentes por médico de família de 1900 para 1500. Alguns destes valores tinham sido aumentados pelo anterior Governo, na sequência do acordo feito com a troika. No entanto, em 2015 deveria ter sido feita uma revisão destes protocolos, o que nunca chegou a acontecer.