Claude Barras encontra a Disney no orfanato

Nomeações para o Óscar, selecção para Cannes, uma aclamação sem paralelo para uma animação artesanal sobre um órfão que refaz a sua vida. A Minha Vida de Courgette, diz o seu realizador, está entre Ken Loach, Walt Disney e Wallace & Gromit. Como diz?

A Minha Vida de Courgette acompanha o percurso de um órfão — Icare de seu nome, Courgette como prefere ser conhecido­ — enquanto se habitua à vida numa casa de acolhimento, ao lado de outros miúdos sem pais ou vindos de famílias que não podem tratar deles
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A Minha Vida de Courgette acompanha o percurso de um órfão — Icare de seu nome, Courgette como prefere ser conhecido­ — enquanto se habitua à vida numa casa de acolhimento, ao lado de outros miúdos sem pais ou vindos de famílias que não podem tratar deles

“Estou a viver numa redoma, como se não fizesse realmente parte da realidade e tivesse de lá voltar daqui a uns tempos...” Não é para menos: há dois anos, o suíço Claude Barras (n. 1973) era mais um dos devotos da técnica do stop-motion (animação de marionetas fotograma a fotograma) que trabalhava por militância, por amor à arte.

Hoje, quando o encontramos no Museu da Marioneta, em Lisboa, por ocasião do festival de cinema de animação Monstra (onde vencerá o Grande Prémio dias mais tarde), Barras traz na mochila – para além de duas caixas de madeira das quais falaremos mais à frente – a nomeação para o Óscar de melhor longa-metragem de animação e para o Prémio Lux do Parlamento Europeu, e o triunfo na categoria de animação nos Césares e nos Prémios do Cinema Europeu. Tudo isto depois da estreia na Quinzena dos Realizadores de Cannes em 2016 ter lançado A Minha Vida de Courgette, a sua primeira longa-metragem, esta semana nas nossas salas, para um reconhecimento global que muito poucas animações (europeias mas não só) conseguem atingir.

Ao longo de 20 minutos de conversa, Barras, afável e descontraído, não deixará de se referir aos “pequenos milagres” que parecem ter acompanhado todo o desenvolvimento de A Minha Vida de Courgette, adaptação de um livro do escritor francês Gilles Paris na qual trabalha desde 2009. Tem consciência que este tipo de percurso é – a palavra repete-se - “um milagre”: “Tenho a impressão de ter verdadeiramente encontrado as pessoas certas no momento certo, desde os meus produtores à Sophie Hunger, que escreveu a banda-sonora, passando pela Céline Sciamma [realizadora de Bando de Raparigas], que trabalhou na versão final do argumento e que às tantas me parecia conhecer-me há anos e escrever só para mim,” sorri. “E tive também a sorte do filme ter estreado numa altura em que as pessoas precisavam de ter uma visão do mundo que fosse optimista.”

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O que não era evidente: A Minha Vida de Courgette acompanha o percurso de um órfão – Icare de seu nome, Courgette como prefere ser conhecido - enquanto se habitua à vida numa casa de acolhimento, ao lado de outros miúdos sem pais ou vindos de famílias que não podem tratar deles. Mas o “milagre” - para citar o mote que o próprio realizador reitera – é a delicadeza com que o filme fala de coisas sérias, à altura do público mais jovem, sem escamotear questões difíceis nem delas fazer um bicho de sete cabeças. Barras anui, usando a Disney dos “velhos tempos” como exemplo, quando histórias como Bambi ou Dumbo não hesitavam em confrontar as crianças com medos ou tragédias. “Queria que o meu filme fosse como esses filmes, que se iam ver em família ao cinema e que todos podiam apreciar. Hoje em dia, quando se faz um filme de animação, obrigam-nos quase a fazê-lo só para crianças, tem de fazer parte de categorias específicas, 'dos 6 aos 12 anos'… Tudo está demasiado formatado e é muito difícil financiar um filme fora dessas categorias.”

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Ora, Barras sempre pensou A Minha Vida de Courgette para “ser visto em família” - “um filme que fosse para miúdos mas suficientemente 'à parte' para que os adultos também o apreciassem. E é uma história que fala da família, do que é a família, a família de sangue e a família do coração. É um tema que tem muito a ver com a nossa sociedade cujos valores estão em mudança.” Como ultrapassar os problemas de financiamento, então? “É preciso preparar tudo muito bem com o produtor,” diz o animador. “Quanto mais dinheiro se tem, menos liberdade se tem. É preciso encontrar um ponto onde as expectativas dos financiadores, das televisões, não intervenham na formatação do filme. Até porque tenho uma abordagem minimalista da encenação, e esta não é uma história de acção, é um filme de emoções.”

Em parte, isso deve-se ao próprio método de rodagem, com o realizador a invocar o nome do britânico Ken Loach (Eu, Daniel Blake) como “modelo”. “Gravámos as vozes à maneira de Loach, com actores não profissionais muito próximos das personagens, a quem fizemos descobrir a história cena a cena. Acabámos com 30 horas de gravações que em seguida montámos ao longo de seis semanas – e é aqui que um produtor compreensivo é importante, porque vai perceber que perdendo aqui um pouco mais de tempo vamos ganhá-lo pelo fim da rodagem. Gravámos muito mais diálogos do que usámos, fui retirando tudo aquilo que era desnecessário, e montámos toda a estrutura da voz antes mesmo de ter feito o primeiro desenho, o primeiro storyboard. O «esqueleto» do filme são as vozes.” (Parêntesis para explicar que, em Portugal, A Minha Vida de Courgette estreia maioritariamente dobrado em português, com a versão original a ser exibida apenas em algumas salas.)

Três anos de produção

A gravação das vozes foi realizada em 2013, numa altura em que Barras já trabalhava no projecto há vários anos. “Em 2009 realizei uma curta que serviu como 'maqueta' do projecto, em 2011 tive a primeira conversa com os produtores e em 2012 começámos a montagem financeira”, explica. “A partir daí, A Minha Vida de Courgette implicou três anos de produção: um ano para fabricar os bonecos e os cenários, um ano de rodagem e um ano de pós-produção.” Ao todo, a produção ocupou cerca de 50 animadores em 15 plateaux diferentes em simultâneo, e o papel do realizador é muito fluido: “Faço sobretudo direcção artística ao nível da concepção das personagens, dou indicações em termos de emoções, de intenções, mas a supervisora de animação ou o director de fotografia contribuem com o seu próprio savoir-faire. É preciso ir em frente e tomar decisões muito rapidamente, responder às pessoas. Procuro nunca duvidar do que estou a fazer, e quando tenho dúvidas não as partilho, resolvo-as sozinho; é um trabalho de equipa, e é preciso termos um clima criativo e positivo.”

A animação em stop-motion é, já o sabíamos, delicada e paciente – uma escolha que Barras define como “militante”. “É um espaço de liberdade, de artesanato,” defende. “Vivemos numa época demasiado rápida. Venderam-nos o progresso como algo que nos ia libertar, mas aconteceu exactamente o contrário. Quanto mais trabalhamos com computadores para ganhar tempo mais enchemos o tempo que ganhamos com trabalho... O stop-motion está fora disso tudo, é um espaço manual, de criação, como uma escultura que se vai revelando aos poucos.” A referência a Ken Loach começa a fazer sentido... “Sim, sinto-me mais próximo da tradição do cinema social europeu, admiro imenso Loach, ou os irmãos Dardenne. Mas vi Loach dizer numa master class para não fazermos filmes pesados como ele, para fazermos as pessoas rir porque hoje é importante fazer rir. É por isso que admiro imenso os animadores da Aardman [o estúdio inglês por trás de Wallace e Gromit ou A Fuga das Galinhas]. Conhece a série de televisão que eles fizeram, Creature Comforts, onde foram para a rua gravar depoimentos de transeuntes e depois os colocaram na boca de animais? Adoro esse desfasamento entre o realismo e a fantasia.”

Que, de certa maneira, é exactamente aquilo que A Minha Vida de Courgette consegue ter, com as suas marionetas artesanais profundamente expressivas – e cuja verdadeira dimensão é revelada nas tais caixas de madeira que Barras trouxe consigo à Monstra, que contêm o “herói” Courgette e vários dos elementos que lhe dão vida.

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Os bonecos respondem a uma combinação de questões artísticas e de produção: “Levei em conta o dinheiro que tínhamos ao conceber as personagens, porque era preciso manter o orçamento razoável, mas ao mesmo tempo procurei virar as exigências do avesso, criando bonecos simples e fáceis de animar mas que fossem muito expressivos. As cabeças grandes em que reparou permitem-me fazer uma coisa pouco habitual na animação, que é focar o rosto das personagens, fazer grandes planos – dá-lhes uma materialidade, uma dimensão táctil que nos permite aproximar-nos delas e compreendê-las melhor.”

Tudo para chegar ao “final feliz” desta volta ao mundo que A Minha Vida de Courgette anda a fazer há um ano. “Uma ocasião única”, diz Barras, “de conhecer espectadores, realizadores, crianças… Conheci muita gente, falei muito sobre o filme e à volta do filme, e isso é importante, porque este é um filme feito para que se fale dele e à volta dele. Mas um filme é também a história da sua rodagem. E todos nós, que trabalhámos nele, vivemos nesta casa com estas personagens durante muito tempo numa amizade, numa colaboração, numa entre-ajuda. Agora, é preciso continuar a viver...”