As canções de Marisa Monte como se fossem soul

Aquilo que era para ser um programa de televisão resultou afinal num álbum em que Silva se atira ao cancioneiro de Marisa Monte.

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Miguel Vassy

Silva a cantar Marisa Monte não deveria ter durado mais do que um programa de televisão de uma hora. Versões, produção da TV brasileira que convida músicos a fazer precisamente aquilo que o nome anuncia – com a única limitação de terem de escolher um autor nacional –, lançou o isco a Silva e ele soube, antes de mais, que não estava interessado em seguir a vaga fortíssima da sua geração que se liga e religa ao tropicalismo efervescente dos anos 60 e 70. “Todo o mundo está buscando essas referências e eu sempre tive muito a questão da contemporaneidade no meu trabalho”, explica ao Ípsilon. “A gente tem muito esse apego com a tropicália e com a bossa, e apesar de também ser uma referência muito forte para mim queria desgrudar um pouco disso.”

Em vez de uma viagem que o largasse no meio dos psicadelismos rockeiros dos movimentos pós-bossa nova, saltou muito antes nessa deslocação para o passado e apeou-se no ano 2000 (permitindo-se recuar, no máximo, até à década de 90, período de afirmação de Marisa Monte como nome fundamental da MPB).

E fala-se em 2000, em concreto, porque é esse o ano da transformação pop de Marisa, com a edição de Memórias, Crônicas e Declarações de Amor. “Esse disco foi muito importante para mim”, justifica o músico. “Saiu quando eu tinha 11 anos e a minha família é toda protestante, super religiosa. Então na minha casa só tocava música erudita ou clássicos da música brasileira, como Tom Jobim ou Chico Buarque. O primeiro disco fora desses mundos que rolou foi esse da Marisa, porque os meus irmãos mais velhos começaram a ouvir o dia todo. E eu acabei decorando.” A escolha de abordar o reportório de Marisa Monte foi, por isso, resultante da admiração por “ela ter esse trunfo super inteligente, que era difícil encontrar no Brasil, de uma música pop com características bem brasileiras”, mas também de um lado intensamente afectivo.

Noturna (Nada de novo na noite)

Silva a cantar Marisa Monte não deveria ter, então, durado mais do que um programa de televisão de uma hora. Só que pouco depois de terem corrido os créditos finais de Versões, o músico recebeu um email de Marisa agradecendo a homenagem, deixando o seu contacto telefónico e pedindo-lhe que a procurasse quando estivesse no Rio de Janeiro. Passaram apenas três semanas até que Silva fez uso do número e o encontro se deu. “Fui a casa dela, cheguei por volta das quatro da tarde e saí às duas da manhã”, lembra. “Foi um encontro incrível logo no primeiro dia. Deu certo e a gente escreveu duas músicas logo dessa vez.”

À medida que as suas contas nas redes sociais iam acumulando insistentes pedidos para que gravasse as versões que apresentara na televisão, Silva começou a pensar que talvez não fosse má ideia – sem interromper a digressão do seu último álbum, Júpiter (2015) – levar as canções de Marisa Monte até ao estúdio. E uma vez que as posteriores passagens por casa da cantora foram cimentando a relação entre os dois, decidiu não olhar apenas para o passado e convidá-la para o dueto de um dos inéditos em que tinham trabalhado juntos. A escolha recaiu sobre Noturna (Nada de novo na noite).

Marisa no cânone

É sintomático que Silva Canta Marisa arranque com Ainda lembro. O tema, publicado originalmente no segundo álbum da cantora – Mais (1991) –, contava então com a participação de Ed Motta, uma das figuras mais estimulantes da música brasileira a operar em terras claramente soul. É esse o caminho que Silva, um escritor de canções que mancha as suas melodias e os seus ritmos com soul, r&b e hip-hop, aplica às canções de Marisa. Descobre um potencial soul que poderia estar sugerido ou que nem se suspeitava existir (mas que nunca contraria a canção original) no reportório da cantora e reenquadra os temas através desse filtro, de uma soul relaxada, adocicada e crua. (Ao vivo, aliás, Silva entremeia temas de Hyldon, que Marisa chegou a fazer em palco no início da carreira, numa altura em que outra sumidade soul brasileira, Tim Maia, fazia parte do seu reportório.)

Em Mais, Marisa Monte assinava a primeira de duas obras-primas produzidas por Arto Lindsay – seguir-se-ia, em 1994, Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão –, em que autorias de figuras obrigatórias do samba e do choro como Cartola, Pixinguinha ou Paulinho da Viola coabitavam com teclados de Ruyichi Sakamoto, arranjos de cordas de Philip Glass, sopros de John Zorn ou vozes de Laurie Anderson. Até Barulhinho Bom (1996), inclusive, Marisa era essa música capaz de se alimentar abundantemente da tradição enquanto regava as suas criações com participações de músicos da avant-garde nova-iorquina, construindo um lugar só dela, de uma experimentação segura, pouco dada a excessos e sem corromper o seu imaculado apelo popular.

É também atrás dessa singularidade que Silva vai num disco que, de forma quase acidental, entroniza Marisa Monte com toda a justiça, celebrando-a como uma artista e autora de um percurso único na música brasileira e cujo cancioneiro é já de uma longevidade e de uma riqueza que justificam a sua visita frequente.