Crítica

A Minha Vida de Courgette nunca condescende com miúdos ou graúdos

Nomeado para o Óscar de melhor animação, a estreia do suíço Claude Barras com A Minha Vida de Courgette nunca condescende com miúdos nem graúdos.

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Talvez a melhor definição da delicadeza, inteligência e modéstia de A Minha Vida de Courgette seja o pequeno calendário de parede onde os miúdos residentes num lar de acolhimento provincial diariamente indicam o modo como se sentem: “A previsão do tempo das crianças”, o sol, as nuvens, a chuva. Coisas complicadas de pôr no papel mas que uma pequena e engenhosa trouvaille visual explica num relâmpago sem precisar de mil palavras – e essa é também uma das artes do cinema, mostrar em vez de explicar.

É isso que Claude Barras faz ao longo da sua primeira longa-metragem, um pequeno filme que se equilibra na corda-bamba muito complicada do filme de família e que salta fora das regras do cinema de animação contemporâneo feito em linha de montagem com acção non-stop, heróis reciclados da BD ou da televisão, canções e formatação para o máximo denominador comum.

Nada disso em A Minha Vida de Courgette, que opta por uma narrativa mais modesta mas também mais humana, sobre o “choque” de um dos novos residentes com o quotidiano do lar de acolhimento para onde é enviado após a morte da mãe alcoólica. Rodando em stop-motion (animação de marionetas fotograma a fotograma), a técnica dos Wallace & Gromit ou de Kubo e as Duas Cordas, Barras aposta no artesanato paciente e na atenção ao pormenor, ao pequeno gesto, para fazer passar uma mensagem de enorme optimismo e auto-confiança.

A vida de Icare, que prefere que lhe chamem Courgette, é exactamente a mesma de qualquer menino, só que deslocada para uma escola diferente, onde há meninas e meninos de todas as origens, desde órfãos a filhos de imigrantes deportados a crianças abandonadas ou abusadas pelos pais; mas isso nunca é usado para puxar à lágrima ou ao panfleto, é antes integrado na narrativa com uma desarmante e reconfortante naturalidade.

Parecendo que não, A Minha Vida de Courgette é um filme discretamente celebratório, de uma modéstia assumida, que não foge às questões difíceis mas também não as despacha como se não fosse nada. Como os melhores filmes de família, fala aos miúdos sem condescender sem esquecer que os graúdos também o vão ver, conjugando uma história perfeitamente acessível aos mais novos com uma abordagem inteligente de realização e encenação extremamente atenta à tal meteorologia emocional de que falávamos a abrir.

Percebe-se porque é que o filme de Barras (co-escrito por Céline Sciamma, a autora de dois outros filmes já muito atentos à infância e à adolescência, Maria-Rapaz e Bando de Raparigas) se tornou num pequeno, e merecido, fenómeno, e merece todo o sucesso que tem vindo a ter.