Morreu Baptista-Bastos. Estava a escrever as suas memórias

O escritor e jornalista tinha 83 anos. Estava hospitalizado havia semanas. “Era um bom companheiro, culto”, lembra Pinto Balsemão.

RUI GAUDêNCIO
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RUI GAUDêNCIO

O jornalista e escritor Baptista-Bastos, que morreu nesta terça-feira aos 83 anos após 40 dias de internamento no serviço de pneumologia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, estava a trabalhar nas suas memórias. Marcelo Teixeira, o seu editor na Oficina do Livro e nas edições Parsifal, revelou ao PÚBLICO que havia contactos para a publicação desta obra.

“Já tinha trabalho feito, e não era pequeno, eu próprio li algumas partes”, referiu o editor. “É prematuro avançar qualquer coisa sobre a possível publicação, não há nada de concreto”, ressalvou no entanto. “Em 2014, publiquei as crónicas de Tempo de Combate, uma compilação das suas crónicas dos anos anteriores no Jornal de Negócios e no Diário de Notícias”, prosseguiu o editor.

“Baptista-Bastos era uma figura maior das letras portuguesas, era um grande poeta de Lisboa, cantou Lisboa como nenhum outro escritor”, destacou Marcelo Teixeira. O editor assinala que já tinha republicado As bicicletas em Setembro, Viagem de um pai e um filho pelas ruas da amargura e Elegia para um caixão vazio, mas que o objectivo de republicação total das suas obras – mais de uma dezena de títulos de ficção – foi truncado pela venda da Oficina do Livro ao grupo Leya.

“Trabalhámos juntos no Diário Popular nos anos 60, foi uma colaboração com a qual eu aprendo muito, era um jornalista de grande qualidade e personalidade”, comentou, ao PÚBLICO, Francisco Pinto Balsemão: “Durante alguns anos, fizemos também juntos a revista Rádio e Televisão, divertimo-nos imenso.”

“Era um bom companheiro, culto, foi ele que me levou a ler Roger Vailland e foi um bom colaborador da SIC”, prosseguiu o patrão da Impresa. Na estação de Carnaxide foi autor do programa “Conversas Secretas com Baptista-Bastos” onde cunhou a famosa frase “onde é que você estava no 25 de Abril?” Realizou uma série de entrevistas com o mesmo nome para o PÚBLICO nos anos 90.

“Almoçámos uma vez no ano passado, ele continuava com a capacidade de atacar, tínhamos políticas não coincidentes, mas entre pessoas civilizadas é preciso discordar, o que é útil”, concluiu Pinto Balsemão.

Baptista-Bastos nasceu em Lisboa, em 1934, estudou na Escola de Artes Decorativas António Arroio e no Liceu Francês. Publicou o seu primeiro romance, O secreto adeus, em 1963.

“Foi o exemplo de um raro amigo solidário e fraterno, um jornalista raríssimo pela sua coragem”, sintetizou, à RTP, Eugénio Alves, do Clube dos Jornalistas: “Baptista Bastos foi jornalista durante mais de 60 anos, foi até ao fim, nunca cedeu a interesses e pressões.”

Baptista-Bastos era conhecido no meio jornalístico pelo acrónimo de BB, cuja origem é desconhecida. “Não me estranharia que fosse no ambiente das redacções que nasceu essa forma de tratamento mais afectuosa, entre amigos”, admite o editor Marcelo Teixeira. E o jornalista conheceu as mais diversas redacções e os mais variados órgãos de comunicação, de diários a semanários, revistas, televisões e rádios. Percorrendo os mais diversos títulos: O Século, O Século Ilustrado, Diário Popular, República, O Diário, semanário O Ponto, de que foi um dos fundadores, Jornal de Notícias, Sábado, Expresso, France Presse, Diário de Notícias, Diário Económico, Jornal de Negócios, Correio da Manhã, revista Almanaque, Sábado, A Bola, Jornal do Fundão, SIC e RTP, Rádio Comercial e Antena 1.

Desde há anos, que se mostrava crítico do jornalismo, destacando a falta de espaço para os cronistas na comunicação social. “A crónica, quer é um compromisso entre a notícia e o conto e um produto de altíssima expressão literária, típico da imprensa escrita, está hoje arredada dos jornais”, afirmou em 2005 quando recebeu o Prémio de Crónica João Carreira Bom.

“Até ao século XIX, Portugal teve grande tradição na crónica, género que o Diário de Lisboa reabilitou nos anos 60 do século passado com Pedro Alvim, Joaquim Letria e Mário Castrim”, destacou. “Os jornais estão sobretudo atentos à politiqueira e politiquice, têm opinião a mais e má opinião, muito uniforme e aparentemente plural”, lamentou.