Moon Jae-in, o liberal que quer unir a Coreia do Sul e dialogar com Pyongyang

Depois do escândalo de corrupção que ditou o afastamento da antecessora, o novo Presidente sul-coreano promete "uma mudança de regime" e ambiciosa agenda de reformas.

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Moon Jae-in era o favorito das sondagens Jeon Heon-Kyun/Reuters

Os sul-coreanos votaram a favor de um corte radical com o passado recente – com o escândalo de corrupção que precipitou a queda da ex-Presidente Park Geun-hye e expôs ainda mais as ligações entre as grandes empresas e a classe política, mas também com uma década de domínio conservador que adoptou uma atitude de confrontação com o vizinho do Norte. Fizeram-no dando uma vitória mais do que folgada a Moon Jae-in, antigo activista e advogado dos direitos humanos, que prometeu moralizar a política, reformar a economia e privilegiar o apaziguamento nas relações com Pyongyang.

“Vou fazer um país mais justo e unido”, disse o candidato liberal à multidão de apoiantes que, noite avançada, se juntou para o aplaudir em Seul. Uma projecção divulgada por três cadeias de televisão após o fecho das urnas atribuía-lhe 41,4% dos votos, quase o dobro dos conseguidos pelo candidato conservador Hong Joon-Pyo. O centrista Ahn Cheol-soo, que chegou a ser apontado como o principal rival de Moon, não foi além do terceiro lugar. A contagem dos votos, que só deveria estar terminada na manhã desta quarta-feira, confirmava a tendência e tanto Hong como Ahn tinham já aceitado a derrota.

Confirmando que se mantém viva a mobilização popular que foi central para o processo de destituição de Park, votaram nas eleições desta terça-feira 77,2% dos eleitores inscritos, a participação mais alta em 20 anos, ainda assim abaixo dos 80% que chegou a ser anunciada face ao renovado interesse dos mais jovens – são eles os maiores entusiastas de Moon, por oposição à população mais idosa, onde o candidato liberal teve o apoio de menos de um quarto dos votantes, sublinha a Reuters.

“A vitória de hoje é o resultado do desespero das pessoas que querem uma mudança de regime”, afirmou Moon mal foram conhecidas as primeiras projecções. Apesar de a campanha ter decorrido num clima de tensão máxima com o regime de Kim Jong-un, os analistas sublinham que foram as questões internas – a corrupção, o desemprego jovem, o fraco crescimento económico – que concentraram as atenções dos eleitores e os levaram a escolher Moon, que entre as suas promessas de campanha prometeu aumentar o investimento público e apertar o controlo sobre os poderosos conglomerados que dominam a economia do país – entre eles a Samsung, cujo herdeiro foi acusado no mesmo processo que levou à destituição de Park.

Mas fora do país as atenções estarão concentradas na gestão que o novo Presidente fará das relações com a Coreia do Norte e como isso afectará a aliança com os Estados Unidos, garante da segurança do país. Moon foi chefe de gabinete e amigo do último Presidente liberal, Roh Moo-huyn, que tentou uma aproximação a Pyongyang – o novo chefe de Estado, recorda a Reuters, esteve envolvido na preparação da cimeira de 2007 com o então líder norte-coreano, Kim Jong-il. Na campanha, Moon defendeu a suspensão da instalação do sistema antimíssil norte-americano THAAD e o reinício do diálogo com o vizinho do Norte, mas também garantiu que não irá tolerar que Pyongyang continue a ameaçar o país com as suas armas nucleares.

O seu objectivo, dizem os analistas, é garantir que Seul assume parte da iniciativa diplomática, após meses em que foi a retórica do Presidente Donald Trump a definir o tom da resposta às provocações de Kim Jong-un. “A primeira coisa na agenda do governo deve ser uma cimeira entre os EUA e a Coreia do Sul. Precisamos que a nossa voz seja ouvida”, disse ao Financial Times Nam Sung-wook, professor na Universidade da Coreia. Duyeon Kim, analista do Fórum para o Futuro da Península Coreana, em Seul, afirma que, para este intento, “é crucial que surja imediatamente uma química positiva entre Trump e o próximo Presidente para os ajudar a ultrapassar qualquer divergência e a lidarem em conjunto com o desafio norte-coreano”.