Na Festa das Cruzes, a tradição não tem vergonha da renovação

Homens começam a assumir papéis habitualmente reservados a mulheres numa celebração religiosa com origem medieval

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Na arrecadação em frente à casa da família Gonçalves, há 12 pessoas sentadas em volta de uma cruz de madeira com dois metros. No grupo, encontra-se apenas um homem. É Joel Ferreira, o único mordomo do sexo masculino da Festa das Cruzes, uma celebração católica, com mais de duzentos anos, na vila de Serzedelo, em Guimarães. “Não tenho vergonha nenhuma”, atira. A tradição diz que o trabalho de ornamentação das cruzes para a festa está entregue às mulheres. No entanto, há dez anos que Joel veste uma bata axadrezada, tal como as suas tias e primas.

A casa é de Aurora Gonçalves, tia de Joel, que é juíza de uma das 16 cruzes da festa. Certo dia, queixou-se que havia pouca gente disponível para ajudar na tarefa de assear as grandes cruzes para a celebração de Serzedelo. “Eu disse logo que vinha”, conta Joel Ferreira. “Agora sou o melhor deles todos”, atira, juntamente com uma gargalhada.

“Tem jeitinho”, elogia a tia, que é dona desta cruz há dez anos, desde o falecimento do pai, e juíza, ou seja, responsável pela sua ornamentação, há 28, após o falecimento da mãe. A cruz está na família há 47 anos. Os seus antigos responsáveis deixaram de ter condições para assumir a tarefa todos os anos. Quando assim é, a família deve levar a cruz despedida para o adro da igreja e deixá-la ali até que uma outra família tome a sua vez. É uma das formas de transmissão das cruzes de Serzedelo. A outra é a herança, dentro da família.

Manda a tradição que seja o filho mais velho a ficar com a cruz, o que faz com que hoje haja quatro cruzes fora da freguesia: duas em Guardizela, uma em S. Martinho de Candoso e outra em Riba d’Ave, que pertence já ao concelho de Famalicão. A tradição muda, também em termos geográficos.

Não há registos escritos sobre a Festa das Cruzes de Serzedelo, por isso a sua origem é imprecisa. A inspiração é medieval, bebendo nas festas da Santa Cruz, que divulgaram a imagem da cruz como símbolo do sofrimento de Cristo. Esse culto renovou-se no século XVII, quando o Papa Bento XIV divulgou a Via Sacra, expressão do caminho de Jesus até à cruz. É da mesma altura a capela do Calvário, em Serzedelo, à porta da qual as sete das 16 famílias da vila responsáveis pela ornamentação das cruzes as colocam na manhã do domingo da festa – o primeiro após o dia 3 de Maio. As restantes nove são postas no adro da igreja românica da freguesia.

“O barroquismo da ornamentação das cruzes com flores remete também para o mesmo período”, explica Maria José Meireles, técnica-superior no Museu de Alberto Sampaio, em Guimarães, que tem estudado as festas de Serzedelo. Durante anos, uma das marcas da celebração foi a clara distinção de papéis de género na preparação da festa, um “reflexo da sociedade tradicionalista”, refere a mesma especialista. Às mulheres, estavam reservadas as tarefas domésticas: a ornamentação das cruzes e a preparação das refeições que devem ser servidas a todos quantos estão ligados à preparação da festa. Aos homens cabia ultimar a cruz, colocando-lhe uma renda de papel branco e azul em volta, e levar a cruz para o local pré-determinado.

Hoje, as atribuições de cada género não são tão fechadas. Joel é o primeiro homem mordomo na freguesia. O seu tio é o responsável por criar a pasta de centeio, usada para colar as flores à madeira, tarefa tradicionalmente reservada às mulheres. “Se calhar sou um pioneiro. Quando mais dois ou três homens vierem também, passa a ser normal”, antecipa Joel. “Afinal, as mãos são iguais, não é?”.

Joel e as familiares têm flores no regaço. Com a ajuda de um pauzinho, colam as pétalas sobre a cruz. A técnica exige precisão e paciência. Todas as cruzes da festa de Serzedelo são diferentes. Em alto ou baixo relevo, têm desenhadas lanças, cálices, escadas, custódias, estrelas, peixes e diversas formas geométricas. Os desenhos não mudam de ano para ano, o que mudam são as cores e o tipo de flores usadas.

À porta da casa da família Gonçalves, ouvem-se os sons de tambores e gaitas de foles. Durante todo o dia de sábado, o grupo musical percorre a ruas estreitas e íngreme desta vila eminentemente rural, com cerca de 4000 habitantes. Vão a casa de cada uma das famílias guardiãs das cruzes da festa. Atrás deles vai sempre um pirotécnico, soltando um morteiro em cada uma das habitações. Ou não estivéssemos no Minho.

O grupo segue para casa da família Ferreira, onde a discussão sobre os papéis de homens e mulheres nas festas também entrou. “Tudo aquilo que a gente quer fazer, faz; seja homem ou seja mulher”, atira Miquinhas, a matriarca, impondo-se às opiniões divergentes que se ouviam no grupo de mulheres que asseiam a cruz da família. A mulher tem 70 anos e ainda gere uma pequena confeitaria, onde faz pão-de-ló e doces de romaria, seguindo receitas e técnicas tradicionais. A empresa foi criada pelos seus bisavós. Vem também desse tempo a responsabilidade da família assear uma das cruzes da festa de Serzedelo.

A forma de organização do dia de trabalho varia de família para família. Há quem precise de todo o dia para a tarefa. Há quem use apenas a manhã ou apenas a tarde. O que é certo, porém, é que há um momento em que as 16 cruzes se encontram, entre a igreja românica e a capela do Calvário, onde ficam todo o dia de domingo. À tarde, realiza-se a Via Lucis, um rito católico que, em 1995, tomou o lugar da Via Sacra. O percurso associado à morte, característica do barroco, transformou-se num percurso dedicado à vida, tornando esta uma festa de ressurreição ou renascimento – a que não é alheia a proximidade do início da Primavera.

O fim-de-semana é todo ele de azáfama em Serzedelo. Como é costume nas romarias minhotas, na noite de sábado há música e fogo-de-artifício a fazerem-se ouvir até de madrugada. Quando os foliões mais tardios estiverem a acabar uma noite, já haverá grupos de pessoas a começar a segunda fase de preparativos para o dia de domingo da Festa das Cruzes.

A partir das 5h30 já há famílias, com moldes de metal ou madeira, a construírem vários quilómetros de tapetes de flores e serrim tingindo nas ruas de Serzedelo. É por eles que há-de passar, depois da missa da manhã – marcada para as 8h00 – a procissão aos doentes, uma romagem do pároco da freguesia aos vários habitantes da vila que estão acamados e não possam, assim participar na eucaristia.

A tradição manda que sejam as famílias que vivem ao longo do percurso a ornamentá-lo desta forma. O caminho muda, porém, de ano para ano, em função das pessoas que estão doentes. Este ano, chegaram à paróquia 13 pedidos de visitas a doentes. A procissão teve, por isso, sete quilómetros de extensão e durou cerca de quatro horas.