As memórias dos polícias que salvaram a vida a João Paulo II

Há 35 anos, os homens do Corpo de Segurança da PSP evitaram que o Papa fosse apunhalado em Fátima. Apenas receberam um louvor. Hoje, dizem que o mais importante foi ter cumprido com êxito o seu dever.

Fotogaleria
Manuel Cardoso Ramalhete nasceu há 69 anos na freguesia alentejana dos Mosteiros, concelho de Arronches Nuno Ferreira Santos
Fotogaleria
Papa João Paulo II em Fátima em 1982, junto de doentes no santuário MANUEL MOURA / LUSA

A 12 de Maio de 1982, João Paulo II estava em peregrinação em Fátima, naquela que era a sua primeira visita a Portugal. Um ano antes, a 13 de Maio, tinha sido vítima de um atentado perpetrado pelo turco Ali Agca na Praça de S. Pedro — duas balas que atingiram vários órgãos do seu corpo. Sobreviveu, após uma longa cirurgia. O Papa estava no santuário português também para agradecer a Nossa Senhora de Fátima, a quem atribuía a sua salvação. Mas voltou a ser alvo de um ataque, nessa noite. Foi salvo por agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP). Passados 35 anos, alguns desses homens têm como principal recordação desse dia “o sentimento do dever cumprido”.

Manuel Cardoso Ramalhete nasceu há 69 anos na freguesia alentejana dos Mosteiros, concelho de Arronches, distrito de Portalegre. Entrou “ainda jovem” para a PSP, fez vários cursos, nomeadamente o de segurança pessoal. Aos 34 anos era já um dos principais agentes em Portugal nesta valência.

Antes de ser chamado para chefiar no terreno duas equipas de segurança ao Papa João Paulo II, o subchefe Ramalhete era um dos “guarda-costas” do então primeiro-ministro, Francisco Pinto Balsemão.

“Sou católico, daqueles que vai à missa de vez em quando. E quando soube que ia chefiar no terreno duas equipas de segurança ao Papa, uma em Fátima e outra em Coimbra, fiquei muito contente. Era uma missão muito importante. Estava muito longe de pensar que ia acontecer algo tão grave”, disse ao PÚBLICO o subcomissário da PSP, agora reformado.

Uma enorme agitação

Neste recuar no tempo, Manuel Ramalhete não quer “falhar em nada” e recorre a uma folha de papel onde tem anotados detalhes desse dia. “Eram cerca das 22h50. O Papa tinha deixado a Capelinha das Aparições, percorreu o santuário num carro branco descapotável. Quando começou a subir a escadaria que o levaria ao altar, deu-se o ataque”, conta.

As imagens de arquivo da RTP mostram com algum detalhe os acontecimentos dessa noite. O povo, sereno, canta “Ave, ave, ave Maria” durante a chamada “procissão das velas”.

Depois de deixar o carro, o Papa segue a pé num pequeno percurso que o levaria à escadaria onde estava o altar. Tem uma vela na mão esquerda e a direita vai ligeiramente erguida, saudando a multidão. Também ele vai tranquilo, em passos curtos que parecem acompanhar a mansuetude da oração cantada.

Membros da Igreja, escuteiros, repórteres fotográficos e dezenas de agentes da segurança são uma espécie de rochedo de gente em redor do Papa. Alguns agentes de segurança da PSP, de mãos dadas, formam um cordão que, à esquerda e direita de João Paulo II, tenta evitar que alguém chegue junto dele. Surge uma enorme agitação.

Ramalhete está do lado direito, ligeiramente à frente do Papa. “Quando já estamos a subir a escadaria, vejo um homem com uma mala de napa castanha na mão que conseguiu passar as grades e quer furar o cordão de segurança que tínhamos montado, tentando passar por baixo do meu braço direito para chegar junto do Papa. Está agitado, mas como estava vestido de padre não dei grande importância. Dei-lhe um empurrão com o braço e afastei-o”, conta.

Esse homem era Juan Fernández Krohn, padre integrista espanhol, de 32 anos. Tinha vindo de Paris com objectivo claro de matar João Paulo II.

“Fiquei de olho nele. Com a pasta e ambas as mãos tentou novamente afastar o meu braço direito. Eu agarrava o ombro esquerdo do meu companheiro posicionado à minha direita e dei-lhe uma cotovelada afastando-o novamente”, lembra ainda Ramalhete.

“Homens-sombra”

A cotovelada não desmotivou Krohn, que tentou chegar junto do Papa uma terceira vez: “Já na base do altar, com um gesto de raiva, gritando e mostrando muita agressividade, lançou-se novamente sobre o meu braço direito. Reparei então que além da pasta transportava numa das mãos outro objecto. Quando se lançou sobre o meu braço, retirei-o do ombro do meu colega e, simultaneamente, coloquei-lhe o meu pé direito no meio das pernas provocando a sua queda. Foi de imediato neutralizado e detido por outros elementos do Corpo de Segurança da PSP.”

O objecto que o então subchefe Ramalhete não conseguiu identificar era um sabre-baioneta de espingarda Mauser com um comprimento total de 37 centímetros dos quais 25 centímetros de lâmina.

“Quando o sabre caiu no chão, ficou para aí a 20 centímetros dos pés do Papa”, lembra, por sua vez, o subintendente Azevedo, outro dos homens da segurança durante a visita de João Paulo II a Portugal.

David Borges Azevedo, nascido há 78 anos, na freguesia de Lousado, em Vila Nova de Famalicão (“a terra onde nasceu o cardeal Cerejeira”, lembra), entrou para a PSP em 1961. Também ele fez vários cursos, ocupou cargos diversos, mas foi na segurança pessoal que mais gostou de cumprir a sua missão. Foi “guarda-costas” de várias personalidades nacionais e estrangeiras, nomeadamente do presidente da República Ramalho Eanes.

Quando João Paulo II veio pela primeira vez a Portugal, tinha já um posto de comando no Corpo de Segurança da PSP. Foi-lhe atribuída a missão de ser uma das vozes de comando no terreno e de ser um dos “homens-sombra” do Papa. “Estive sempre ao seu lado, desde que chegou ao aeroporto até que voltou para o Vaticano. Andei sempre no carro com ele e fiz todos os percursos a pé sempre, sempre ao seu lado.”

E na noite daquele dia 12 de Maio lá estava o chefe Azevedo ao lado do Papa. Diz ter-se apercebido das tentativas do padre Krohn para furar o cordão de segurança e esteve sempre de “olho nele”. “A determinada altura oiço um grito (“Muerte al Papa”) e no segundo seguinte já ele estava caído e agarrado.”

Este antigo agente tem a convicção de que João Paulo II “não se apercebeu de nada”, ao contrário de um bispo que fazia parte da comitiva e que se “mostrava muito preocupado”.

“Quando Krohn é lançado ao chão, é esse bispo (penso que era bispo) que diz ao Papa o que aconteceu”, lembra Azevedo. Nesse momento João Paulo II virou-se para Krohn, já de pé e agarrado por vários homens da PSP, e abençoou-o fazendo o sinal da cruz com a mão direita.

Na sala de comando

O coronel Bivar de Sousa, um homem de infantaria do Exército, estava, em 1982, em missão de serviço na PSP. Comandava a Divisão de Segurança de Lisboa. Hoje tem 78 anos e já está aposentado.

Foi ele que planeou e liderou a operação de segurança de João Paulo II a Portugal. Visitou e estudou todos os locais onde Papa ia passar e traçou o plano geral. Foi ele quem decidiu que, na noite do dia 12, em Fátima, não bastava ter só um grupo de seguranças em redor do João Paulo II. Era necessário mais “devido à presença de uma grande multidão”. Foi ele que decidiu criar as duas barreiras de homens que funcionavam como uma “parede” à esquerda e à direita do Papa e do grupo que o acompanhava. “Sem aquelas barreiras talvez o Papa tivesse mesmo sido atingido.”

Nessa noite estava na sala de comando, em Fátima, acompanhou tudo pela televisão e, hoje, não tem dúvidas sobre o trabalho dos homens da PSP: “Foram extraordinários, verdadeiros profissionais.”

Quando questionados sobre qual a principal recordação que guardam daquela noite de 12 de Maio de 1982, Azevedo e Ramalhete respondem quase da mesma maneira. “Cumpri a minha obrigação”, diz o primeiro. “O sentimento do dever cumprido”, acrescenta o segundo.

Ambos dizem também que não houve heróis individuais naquela missão. Garantem que “tudo se deve ao grupo” e que “sem o trabalho de todos o atentado não teria sido impedido”.

Nenhuma condecoração

Na folha onde anotou todos os detalhes dessa noite, o subcomissário Ramalhete escreve uma frase que é mais do que uma simples anotação: “O núncio apostólico em representação do Papa condecorou 25 personalidades. Estranhamente ninguém da segurança pessoal (PSP) foi condecorado.”

Não receberam nenhuma condecoração do Papa nem do Estado português. Receberam um louvor, como muitos outros que tiveram nas suas longas carreiras. Hoje, Ramalhete desvaloriza esse facto, afirmando que “o que importa é que tudo correu bem”. “O que importa é que tenho muito orgulho na minha carreira e na dos meus colegas.”

Já o subintendente Azevedo recebeu uma medalha do Vaticano, “daquelas de recordação”. Quanto a uma condecoração oficial diz que “essas coisas não se pedem”.

“O que é que quer que eu lhe diga?” — acrescenta o coronel Bivar de Sousa.

No próximo dia 12, o subcomissário Ramalhete não vai a Fátima. “A confusão é muita” e prefere acompanhar tudo pela televisão. O subintendente Azevedo vai, com a mulher, a 12 e 13.

Os antigos agentes dizem que vão ser dias de “recordar muito intensamente” o outro 12 de Maio, o de 1982. O dia em que os homens do Corpo de Segurança da PSP salvaram a vida a um papa.

Quem também vai lá estar são os hoje agentes deste corpo policial. Agora para garantirem a segurança do Papa Francisco.

 

P.S.Juan Fernández Krohn foi julgado no Tribunal de Vila Nova de Ourém e condenado a seis anos e meio de prisão, mais sete meses por injúrias à magistratura. Cumpriu apenas metade da pena, pouco mais de três anos. Depois de libertado foi expulso de Espanha e impedido de regressar a França, onde vivia antes do atentado. Vive actualmente em Bruxelas, na Bélgica. Admitiu sempre que o seu objectivo era matar João Paulo II, que morreu em Abril de 2005.