CAIS: o futebol de rua resgatou-lhes a vida

O projecto da CAIS devolveu leveza, abriu horizontes e proporcionou outras oportunidades a jovens de todo o país

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Markus Spiske/Unsplash

Emanuel e Fábio não se conhecem, embora partilhem a mesma paixão — o futebol — e uma história que começa num projecto da associação CAIS, o futebol de rua. Jogar à bola aqui é, na verdade, "pretexto para atingir um objectivo maior", explica Gonçalo Santos, coordenador do projecto e director técnico do centro de Lisboa da CAIS, ao P3. Trata-se de uma "plataforma de resgate de vidas social e economicamente desfavorecidas" e, não raras vezes, de comportamentos desviantes.

Emanuel, 19 anos, cresceu no bairro da Jamaica, no Seixal, onde ainda vive, e recorda-nos vários episódios de criminalidade em que esteve envolvido. Fá-lo com relativa naturalidade, própria de quem aceitou um destino previamente traçado: "Tu sabes que aquilo é mau, claro, mas nasceste ali, é assim que vai ser sempre", diz ao P3. Mas não foi.

Um dia, a associação local Criar-t convidou-o a participar no futebol de rua. Com entusiasmo, anuiu. Primeiro foi como reserva a um jogo em Braga, depois como titular num torneio em Beja. À terceira, sagrou-se campeão europeu em Manchester, em Inglaterra. “Estivemos lá duas semanas, uma de preparação e outra de jogos”, recorda. “É muito bom termos estas oportunidades”, remata — até porque a partir dessa surgem outras.

Foi o que aconteceu com Fábio Nunes, um guarda-redes algarvio de 28 anos, que não só trouxe o título de Manchester como uma subida de divisão. “Havia lá olheiros. Eu jogava na distrital, no Olhanense, e agora estou na segunda divisão de futsal, no Portimonense." Os efeitos que essa ascensão teve na auto-estima de Fábio são nitidamente visíveis: "Melhorei muito. E agora consigo confiar mais nas pessoas, sabes?".

É através da inclusão social pelo desporto que os jovens, homens e mulheres, são estimulados a desenvolver competências pessoais e sociais até então ausentes, como a auto-estima, a resiliência, o trabalho em equipa ou a cooperação.

Paralelamente, têm acesso a outros "benefícios" à partida vedados, como é o caso dos intercâmbios de voluntariado. Em 2016, no âmbito do Europeu de Futebol, viajaram até cidades francesas anfitriãs de jogos tendo-lhes sido atribuídas tarefas de organização e gestão. A súmula foi “muito enriquecedora”, assim como as mudanças de conduta que se verificaram, garante Gonçalo Santos.

O futebol de rua é um projecto co-financiado pelo Erasmus+ que existe desde 2004, consagrado como boa prática de inclusão pelo desporto pelo Instituto Português do Desporto e da Juventude. Tem, segundo a CAIS, uma taxa de sucesso superior a 90%.

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