Galapinhos: o acesso ao paraíso é um caminho tortuoso. Mas vale a pena

Galapinhos, a melhor praia da Europa, é um pouco selvagem, mas tem uma irmã mais civilizada, Galapos. A porta principal é um caminho de cabras. Que desemboca numa praia de sonho.

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O paraíso pode ter maus acessos? Pode. Este tem dois e qual deles o pior, mas é como um paraíso deve ser: quando chegamos, vale bem a pena o esforço. O Diabo mesmo é chegar lá. Mas aqueles que, com mais ou menos suor venceram o desafio, não hesitaram na escolha e Galapinhos, no litoral da Arrábida, foi eleita na quarta-feira pelo site European Best Destinations.

Um dos acessos, o mais directo, é um “caminho de cabras”, como lhe chama Paulo Ribeiro, gerente da empresa que detém a concessão do local há cerca de 40 anos. Da estrada até ao areal são mais de uma centena de metros de descida de serra muito acentuada, por entre vegetação num género de escada de terra e toros de madeira. “Cai ali muita gente porque nem sequer há corrimão”, relata o concessionário.

A alternativa, que não é melhor, é passar da praia de Galapos para a de Galapinhos, mas esta passagem só é possível quando a maré está baixa ou por cima das imensas pedras junto à arriba já assinalada como em risco de desmoronamento.

Sem condições de acesso a quem tem dificuldades de locomoção, e certamente também por isso, esta pérola na Arrábida é frequentada sobretudo por jovens.

Protegida numa enseada que o mar, na foz do Rio Sado, escavou na Serra da Arrábida, Galapinhos é uma praia legalmente classificada como semi-natural (Tipo III no Plano de Ordenamento da Orla Costeira, Sintra-Sado), ou seja, é uma “praia equipada com uso condicionado”.

Tem concessionário, com um pequeno bar de apoio – somente com sandes e bebidas -, 40 palhotas, espreguiçadeiras, quatro gaivotas para passeios a pedal dentro de água, e três nadadores salvadores. Mas até a concessão só existe graças à proximidade com a “irmã” praia de Galapos, que é bem maior e tem acessos melhores.

A concessionária de ambas as praias – a Ondagalapos – só consegue explorar Galapinhos com auxílio dos equipamentos que possui em Galapos. Sem esta ligação, Galapinhos, por si só, seria considerada uma praia selvagem.

Com a distinção agora atribuída de melhor praia da Europa, Paulo Ribeiro está convencido que a lotação de Galapinhos, que já é “grande”, vai disparar, mas lamenta a falta de algumas condições.

“Galapinhos e Galapos não precisam de publicidade, precisam é de infra-estruras”, defende o responsável referindo-se á falta de saneamento básico, abastecimento de água e electricidade.

“O que enche o livro de reclamações é a falta de casas-de-banho”, diz Paulo Ribeiro. É que, por estar inserida em pleno Parque Natural da Arrábida, aquela zona é de licenciamento difícil e o investimento muito avultado. Para haver saneamento, por exemplo, tem de ser construída uma pequena Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR), assim como para a ligação à rede eléctrica nacional, foi necessário instalar um Posto de Transformação (PT), de quase 20 mil euros, que ainda não está a funcionar devido a questões burocráticas relacionadas com a propriedade de terrenos.

“Estamos a tentar criar essas condições, mas sem ajuda das entidades públicas é difícil, porque se trata de um investimento superior a 400 mil euros”, explica o concessionário que diz ter “esperança” que com a classificação agora obtida, as entidade públicas “mudem de posição”.

Entretanto, a câmara de Setúbal assinou recentemente um acordo, com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) que transfere a gestão das praias da Arrábida para a autarquia. O executivo municipal anunciou de imediato a intenção de investir na “valorização” destas praias.     

Praias da Arrábida perdem areia

As praias da orla da Arrábida, de uma forma geral, estão confrontadas com um problema que afecta, sobretudo, o Portinho da Arrábida – considerada uma das 7 Maravilhas Naturais de Portugal em 2010 – que é a perda de areia.

O extenso areal do Portinho de há uns anos é hoje somente um amontoado de pedras.

O problema é comum às praias daquela zona e foi até já objecto de um colóquio, subornidado ao tema ‘Desassoreamento da Arrábida – Causas e soluções”, que juntou, em 2011, diversos especialistas, entre os quais investigadores dos laboratórios nacionais de Engenharia Geológica (LNEG) e Civil (LNEC).

Entre as diversas causas do “roubo de areia”, como lhe chamou o Clube na Arrábida, estarão as alterações climáticas, a subida do nível do mar, a variação da quantidade de sedimento ao longo da costa, mas também, eventualmente, a acção humana, como, por exemplo, as dragagens no rio.

Galapinhos está, no entanto, relativamente protegida deste problema. Encaixada na serra, a enseada desta praia é das mais recolhidas, ainda mais do que a de Galapos. A configuração destas praias confere-lhes uma espécie de pontões naturais.

Mesmo assim, o concessionário testemunha que, em 40 anos, o areal de Galapos também recuou.

Além de melhor da europa, Galapinhos é um tesouro ambiental, inserida no valor biológico do ecossistema da Arrábida, protegida pela Reserva Natural e pelo Parque Marinho Luís Saldanha.

Simbolo desse valor é também a distinção que a Quercus tem atribuído as praias desta zona, onde quatro foram classificadas como Praia de Ouro’, pela sua qualidade.

“Tudo isto mostra que as praias da Arrábida começam a ser mais valorizadas”, disse ao PUBLICO Paulo Carmo, dirigente regional da associação ambientalista.