Editorial

Futebol: venha a verdade, mas acompanhada

O videoárbitro não resolve tudo – mas também por isso não pode vir sozinho. Se o que se defende é a verdade no desporto, que venha com a transparência e a responsabilização.

Elogie-se a coragem, mesmo quando tudo parece evidente: o presidente da Federação Portuguesa de Futebol decidiu pôr câmaras a filmar todos os jogos da Liga Nos, ajudando os árbitros a tomar as melhores decisões. Fê-lo sem dar margem a conversas e assumindo os custos: vamos, sim, ter videoárbitro. E isso é excelente para todos.

Mas… há sempre um "mas". Para acabar de vez com a pobreza de espírito de dirigentes desportivos, comentadores de futebol e programas que deviam ter direito a bolinha no canto direito, é fundamental que o videoárbitro traga companhia. Se o que se defende é a verdade no desporto, que venha com a transparência e a responsabilização. Vamos por partes?

Com a entrada da tecnologia no jogo, o erro não acaba. Todos sabemos isso e basta dar um exemplo para o ilustrar: se o árbitro apita um fora-de-jogo e interrompe a jogada, mas a filmagem mostra que o jogador estava em linha, o erro é irreparável. Se isto acontece dez vezes num jogo, sempre contra a mesma equipa, imagine o que daí resulta. É por isso que a FPF tem de avançar também na próxima época com outra promessa que já ouvimos ao seu presidente: as avaliações dos árbitros têm de ser públicas, as suas classificações têm de ser fiscalizáveis. Pelos clubes e por todos nós, fãs do bom futebol. Transparência é, portanto, a segunda palavra de ordem, na nova ordem do futebol português.

A terceira medida também já foi prometida, aqui mesmo no PÚBLICO, pelo actual presidente do conselho de arbitragem: é preciso pôr ordem nos responsáveis do futebol, impondo sanções a todos os que ultrapassem os limites do que é razoável — ou que permitam aos seus (dirigentes, sócios, claques) que estraguem o jogo a vê-lo da bancada. Se é sincero que se quer verdade no futebol, se ao rigor se acrescentar transparência, não podem ser só os árbitros quem passa a ter curta margem de erro.

Daqui decorre uma outra obrigação — e essa não pertence ao mundo do futebol, mas ao da política: se este Governo tem na FPF um aliado, tem também a responsabilidade agora de fazer tudo para pôr fim à violência no desporto. O que vimos nas últimas semanas foi suficiente para todos percebermos que o Estado não pode fazer do desporto um país à parte, onde tudo se pode passar impunemente.

Saudemos, portanto, o videoárbitro. E aproveitemos para formalizar um desejo: se o futebol voltar a ser um desporto, a televisão pode deixar de ser um zoológico de comentadores. E se acha excessivo o termo, lembre-se disto: as televisões têm um alvará público. Pode ser desta, ou é pedir de mais?