O ritual do imaterial segundo Miguel Clara Vasconcelos

Encontro Silencioso, primeira longa do autor de Documento Boxe, inspira-se nas praxes para questionar a ideia do ritual e da mitologia. Em competição no IndieLisboa.

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O realizador Miguel Clara Vasconcelos esteve quatro anos a trabalhar nesta sua primeira longa-metragem Rui Gaudêncio
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Miguel Clara Vasconcelos Rui Gaudêncio

No estúdio/atelier de Miguel Clara Vasconcelos, junto aos computadores onde faz montagem, está um DVD de Attenberg, o filme da cineasta Athina Rachel Tsangari, que ajudou a formar a percepção da “nova vaga” do cinema grego: absurdo, teatralizado, deliberadamente artificial. É se calhar por isso que Encontro Silencioso, a primeira longa-metragem do realizador português, por estes dias em estreia mundial no concurso do IndieLisboa (esta sexta-feira, às 19h, e domingo, 7, 16h30, Culturgest Pequeno Auditório), tem tanto de absurdo, performativo, artificial, teatral?

Sentado numa cadeira do espaço (onde coexistem máquinas de escrever, Macbooks, câmaras analógicas e digitais e poltronas de cinema), Miguel sorri. “Há uma relação, mas um bocadinho inconsciente”, diz. “Gosto bastante do trabalho desse grupo de jovens criadores que inclui a Athina e o Yorgos Lanthimos [A Lagosta], que também tem uma relação com o teatro e o ritual. Quando estive em Espanha a estudar Belas Artes, havia muitos gregos no programa Erasmus e conheci um pouco o que se estava a passar nessa zona. Mais tarde conheci a Athina em Lisboa, e conversámos bastante, é de facto uma referência...”

Encontro Silencioso é a primeira longa do realizador nascido em 1971, depois de uma década passada a alinhar curtas-metragens premiadas que viajaram por todo o mundo (com Documento Boxe e O Triângulo Dourado, vencedoras do Curtas Vila do Conde respectivamente em 2005 e 2014, à cabeça). Estamos perante um cineasta em constante “pesquisa e descoberta”, com pouca vontade de se repetir — quem conheça as curtas não o reconhecerá forçosamente na longa. “É possível que funcione um bocadinho por essa oposição, no sentido em que já estou a pensar no próximo filme e preciso de mudar”, explica Miguel. “Mas a curta-metragem, para mim, é a possibilidade de experimentar tudo. Esta é a minha primeira longa-metragem, e nesse sentido é o meu primeiro filme; queria jogar com aquilo que fui experimentando, e que sei que funciona.”

Não é, em todo o caso, uma entrada fácil na longa. Entre a ideia inicial e a estreia no Indie, passaram quase quatro anos de trabalho, com muitos obstáculos, um orçamento mínimo e apenas duas semanas úteis de rodagem. E a inspiração da sua história é a tragédia da praxe do Meco, em Dezembro de 2013. Mas é mesmo só uma inspiração. Miguel Clara Vasconcelos não quis fazer uma reconstituição do caso, usou-o apenas como ponto de partida para uma narrativa oblíqua, abstracta, onde cinco estudantes partem para um fim-de-semana de praxe numa zona remota do Portugal profundo, levantando questões que o realizador julga importantes para a nossa sociedade.

“Em Dezembro de 2013, eu estava a gravar som para o filme de um amigo, e surgem as notícias sobre o caso”, recorda. “Íamos ao café e era só disso que se falava. O acontecimento em si é extremamente violento. Os jornais sensacionalistas, as televisões, e sobretudo a dimensão brutal que o Correio da Manhã TV ganhou nessa altura, levaram-no ao limite da exaustão, de forma até bastante mórbida. Mas fez-me reflectir sobre elementos ali presentes, algumas inconscientes, que quis explorar de outro modo.”

Central no projecto do cineasta é a dimensão ritualista das praxes — “a questão do grupo semi-secreto, da mitologia fundadora, da exaltação do líder, da verdade cega, do espírito de sacrifício”, elementos que não são exclusivos da academia. “Queria trabalhar essas questões que nos empurram para situações catastróficas, entre o absurdo e o inevitável” diz Miguel. “Para quem vive o ritual, ele é um processo de passagem, de ascensão — de ‘porta’ para qualquer coisa. Mas, visto de fora, pode ser a coisa mais ridícula do mundo. Ao mesmo tempo, a única explicação para um grupo de estudantes achar natural determinados comportamentos é a validade do ritual, que é uma coisa construída. E é através do ritual que se atingem determinadas mais-valias. Não há comunidades sem um mito fundador, e quando não existe inventa-se.” 

É aqui que Encontro Silencioso faz, então, a ponte com o “cinema grego” com que começámos esta conversa. “Trabalhei no filme o conceito de ritual como performance, algo do campo das artes do espectáculo. Se pensarmos que há uma tradição de teatro nos grupos académicos, ou que as missas do padre António Vieira eram extremamente teatralizadas, reparamos que o elemento teatral é fundamental para a eficácia do ritual.” E o ritual, para Miguel Clara Vasconcelos, tem algo de imaterial, de onírico. “Isso faz parte do nosso mundo. Não é por acaso que o jogo de futebol tem uma importância tão grande na vida das pessoas. O grito de vitória do espectador face à televisão é autêntico, mas ele não tem nenhum contacto material com o golo, e no entanto vive-o... Interessa-me explorar esse campo imaterial, aquilo em que só eu acredito e que só eu vejo, mas que interfere com o meu quotidiano. É isso que Encontro Silencioso trabalha.”