“A música étnica é importante num mundo em que as diferenças tendem a desaparecer”

O bracarense Daniel Pereira apresenta Cavaquinho Cantado pelo país. Esta sexta-feira está em Guimarães, no CAR.

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Daniel Pereira e os seus cavaquinhos BRUNO GONÇALVES

O título pode parecer estranho, mas a ideia é surpreender pela novidade. Cavaquinho Cantado, do multi-instrumentista Daniel Pereira, junta vozes aos cordofones, com o cavaquinho no comando, ganhando corpo entre temas vindos da tradição e originais. Agora, aquele que é o segundo disco com chancela de Associação Cultural Museu Cavaquinho com distribuição da Tradisom (o primeiro foi Cavaquinho do Amadeu, de Amadeu Magalhães, editado em 2015), roda pelo país numa série de concertos. Esta sexta-feira à noite, será apresentado no Círculo de Arte e Recreio de Guimarães.

Nascido em Braga, a 25 de Abril de 1979 (“Cinco anos depois da revolução, é uma coisa que me orgulha muito”), Daniel Pereira é filho de Casimiro Pereira, voz e guitarra do Origem Tradicional, grupo que em 2018 completará 40 anos. “É dos poucos”, diz Daniel, “que vai persistindo naquele formato de grupo de música tradicional, como o do Raízes ou do Terra a Terra, e cuja expressão máxima é a Brigada Victor Jara.”

Daniel Pereira entrou para o grupo com 9 anos e essa foi a sua “primeira escola de música da identidade.” “Tocávamos praticamente todos os fins-de-semana”, recorda. Em casa, ouvia a Brigada, Sérgio Godinho, José Afonso. E isso completou-lhe a aprendizagem. Mas teve outros grupos. Na adolescência, os Bia Luli e os Suspeitos do Costume. E os instrumentos e géneros musicais foram-se sucedendo. “Fiz música folk com os Arrefole, onde tocava cavaquinho, braguesa, bandolim e viola; tinha o Origem, onde tocava gaita-de-foles e acordeão; tinha um grupo de rock que se chamava neurÓnios aBariados onde tocava guitarra eléctrica e baixo.” E em 1996 entrou na Azeituna, onde durante uns anos fez orquestrações e arranjos vocais para umas 50 pessoas. “Foi fantástica, a experiência.”

O desafio de Júlio Pereira

Porquê, então, a fixação no cavaquinho? “O Júlio Pereira é incontornável neste mundo dos instrumentos, pela inovação que lhes deu. Eu, como muitos outros músicos por esse país fora, reconhecemos-lhe esse papel. Tenho a felicidade de ser amigo dele há uns anos largos, mas ele já era meu mestre antes de eu o conhecer.” O disco Cavaquinho Cantado, com temas como Senhora do Alívio, Tirana ou As 7 Mulheres do Minho, de José Afonso, junta cavaquinho, outros cordofones e voz humana: “Esse foi o desafio do Júlio: ‘vais fazer um disco de cavaquinho e em vez de ser só instrumental, vais juntar-lhe voz.’”

E foi o que ele fez, com a cumplicidade de vários músicos e as vozes de Ana Vieira Leite, Catarina Valadas, Sofia Portugal e Catarina Silva. Que música é esta? Ele chama-lhe música étnica do noroeste português: “Com as influências da Galiza, do Minho, de Trás-os-Montes, das Beiras. O que é que eu lhe iria chamar? Música tradicional é muito abrangente, pode ser do mundo, pode ser local. Música étnica é a world music, são sonoridades que as pessoas podem identificar como sendo de um lugar. E isso é importante neste mundo global em que as diferenças tendem a desaparecer.”

Uma escola para Braga

Para evitar isso, Daniel Pereira tem alguns projectos no horizonte. “O que há por fazer é tentar chegar aos mais novos, criar escolas, fazer formação. Por outro lado, é os músicos da cena folk juntarem-se e tentarem fazer algum tipo de pressão.” Além disso, ambiciona criar em Braga uma escola musical, com residências artísticas. “Estou em conversações com a Câmara de Braga. A estratégia é ir começando, com a ligação às escolas, criar um público que mais tarde vai querer especializar-se, tocar melhor, fazer grupos e discos.”

Em formações diversas consoante os palcos (octeto, sexteto quinteto), Cavaquinho Cantado Já foi apresentado em Barcelos, Figueira da Foz, Madrid, Valladolid, León, Braga, Caminha e Peso da Régua. Depois de Guimarães vai até à Póvoa (dia 26), em Junho está em Caminha (dia 3), Alenquer (4) e Gafanha (9) e a 8 de Julho nos Açores. Há mais datas e cidades, mas ainda estão a ser acertadas ao ritmo próprio do calendário.